Robyn, Haken e Sirenia

ROBYN | ⭐⭐⭐⭐⭐

HONEY, o novo disco da sueca Robyn, é perfeito! Semanas atrás falei do novo álbum da , que tentava deixar seu indie pop eletrônico mais comercial e acabou ficando mais comum também. Robyn segue o caminho da elegância da composição e da produção e faz um disco de música eletrônica pop à altura de seu nome e de sua carreira.

Honey é muito acessível, mas não sofre com músicas excessivamente pegajosas. As faixas não tentam voar no ouvinte e agarrá-lo pela garganta. Ela confia nos timbres dos sintetizadores, nas belas melodias vocais e nas batidas mais cadenciadas. Os sons se sobrepõe ao estilo do dream pop.

Chama muito a atenção também como Robyn faz um disco bastante moderno e bem cuidado e que remete ao pop dos anos 90 também, mas não se entrega ao saudosismo. É realmente uma lembrança, um aceno, algo que é recuperado nos detalhes, não plantado na canção para forçar uma identificação com o público.

É o oitavo disco da carreira da artista sueca e demorou oito anos para ver a luz do dia. Valeu a pena, pois é um dos melhores de Robyn, que dessa vez tomou a frente na produção das músicas. Ela própria fez todas as batidas. Sem atropelos em como os arranjos se combinam e cheio de detalhes que ressaltam o bom gosto da cantora, Honey é o exemplo da qualidade do pop escandinavo.

HAKEN | ⭐⭐⭐⭐

Um dos melhores trabalhos de metal progressivo que ouvi em 2018 é VECTOR, o quinto disco dos ingleses do Haken. Chama a atenção como eles têm uma personalidade bem forte: músicas pesadas, cheias de riffs e parte matemáticas, para nenhum fã de prog botar defeito, mas elas se resolvem com um certo colorido que não é tão típico do estilo e nem de bandas que usam guitarras de 8 cordas.

Fogem da escola do Tosin Abasi e do Meshuggah na utilização das 8 cordas e conseguem fazer algo pesado e preciso que não soa como uma serra em seu crânio ou como um instrumento de demolição. Acredito que isso tenha a ver com 1) bom gosto dos guitarristas Richard Henshall e Charles Griffiths e 2) com o fato do vocalista Ross Jennings não ser um cantor de death, e sim de metal da linha mais melódica, e canta em tons altos.

O Haken pega inspiração em uma série de bandas, de Queen a Devin Townsend, mas a grande escola é o Dream Theater. O baterista Raymond Hearne soa como o Mike Portnoy em seus melhores dias. Aliás, é isso que faz do Haken uma grande banda do prog metal atual: apesar de todas as partes extremamente complicadas em suas músicas, soam como se divertissem fazendo música e em momento nenhum encarnam a figura dos metaleiros tr00zões que precisam tocar pesadão e fritar o tempo tempo.

Vector é conceitual e conta a história de um médico que fica obcecado com um paciente e inicia um tratamento. O ponto de vista muda para o paciente catatônico, que pode estar sofrendo as interferências desse tratamento e/ou sendo inundado por memórias. O final dessa história é aberto e cabe a cada um decidir o que acha que está ocorrendo.

Apesar de ser o disco mais curto da discografia, é sólido. Tem tudo o que a gente gosta na banda e que já estava em Affinity, além de alguns elementos novos, como saxofone criando um clima único e flertes com a eletrônica. A faixa instrumental “Nil By Mouth” me lembrou porque eu gosto de metal progressivo.

SIRENIA | ⭐⭐⭐

Não sou um grande fã dessa banda de death metal sinfônico, mas tenho acompanhado todos os lançamentos do Sirenia e achado esses noruegueses bastante consistentes. ARCANE ASTRAL AEONS não é o melhor trabalho do grupo, mas não diria que é ruim, pois parece ser o mais redondo da carreira. Acontece que também é o que obedece a uma certa fórmula – já bastante usada pelo Nightwish – que faz o metalzão do grupo soar como… pop.

Isso quer dizer que Arcane Astral Aeons é pesado, é rápido e carrega todos os elementos que fazem do Sirenia um destacado grupo nessa cena. Porém há muito mais melodia dessa vez, o que traz uma resolução mais confortável aos ouvidos, apesar do peso, da distorção e da velocidade.

Ainda há bumbos duplos, riffs matadores e vocais guturais de Morten Veland misturados aos vocais limpos e operísticos da vocalista Emmanuelle Zoldan (que entrou na banda em 2016, substituindo a espanhola Ailyn, que permaneceu por oito anos na banda). A francesa Zoldan torna-se, assim, a quarta vocalista feminina do grupo.

O novo álbum também chega em um momento em que apenas Veland e Zoldan são creditados como membros fixos da banda. Morten gravou ele mesmo guitarra base, baixo, teclados, seus vocais guturais, programação eletrônica e até bateria o norueguês tocou. Chamou os dois guitarristas contratados para acompanhar a banda ao vivo para fazer os solos e o restante foi feito por músicos convidados ou de estúdio.

Acho que Arcane Astral Aeons é bem divertido. Pode ter faltado pegar um pouco mais pesado na parte death metal do disco, mas não deixa a energia cair em momento nenhum.

Richard Ashcroft, SHT GHST e MØ

RICHARD ASHCROFT

Gosto muito de Richard Ashcroft. Ele é muito importante na minha formação musical, sobretudo por causa do The Verve, mas é importante notar que seu som em carreira solo é bem menos ambicioso e muito mais açucarado. As canções se baseiam em ciclos de quatro ou cinco acordes bem comuns. Contudo, o britânico sabe fazer boas melodias e faz parecer que fazer música é fácil. De certa forma, a julgar pelo que ele vem fazendo em carreira solo, é fácil mesmo. A música tem que ser bonita e isso basta.

NATURAL REBEL é uma coleção de canções bem redondas, bem acabadas, e sem nenhuma ambição artística. É Richard, um violão e uma banda de apoio que ele pode dispensar para tocar – com muita emoção, inclusive – suas músicas sozinho num palco.

Para quem o conheceu nos anos 90, suas músicas de agora podem soar às vezes como o do roqueiro que envelheceu e ficou mais acomodadão. De fato, um Noel Gallagher da vida é muito mais explorador e arrojado ainda hoje, mas por mais que pareça cafona ver Richard se derretendo, há momentos em Natural Rebel que tocam o ouvinte, como em “That’s How Strong” e em “A Man in Motion”. As orquestrações que ele planta em cada faixa ajudam a dar aquele empurrãozinho em nossa empatia por elas.

Mas é isso. A gente é manipulado emocionalmente por táticas bem conhecidas. Não há real rebeldia para ser vista ou sentida em Natural Rebel. A salvação em “Money Money” – essa sim mais roqueira – chega tarde demais. Ashcroft tem uma excelente voz e ouvido para melodias, mas virou um projeto suave e autoindulgente demais para nossos tempos turbulentos.

SHT GHST

O psicodelismo sempre tem um espaço aqui, né? Dessa vez indico o segundo disco do SHT GHST, o 2: PHOTOS OF BREAD. É um som viajante e poderoso, moderno, que te parece estranhamente familiar e alien ao mesmo tempo.

Apesar de os músicos se apresentarem todos vestidos em spandex branco, com aqueles óculos em espiral, a parte musical é realmente séria. São bons músicos que produzem muita coisa legal a partir de improvisos.

A banda é de Seattle e fez vários shows baseados em experimentações e longas jam sessions de rock e jazz com ênfase ora no ritmo, ora na viagem. Dizem que ninguém sabe quem são as pessoas que realmente estão por trás das máscaras. Em 2017 lançaram 1: The Creation, álbum com poucas faixas, mas todas bem longas, reproduzindo essa forma de tocar e criar que já demonstravam no palco. 2: Photos of Bread é a prova de que eles também conseguem fazer músicas mais planejadas, com começo, meio e fim.

O KEXP definiu assim o álbum: “2: Photos of Bread se constrói a partir da ambição deixada pelo álbum anterior, encontrando inspiração no oceano, galáxias distantes, e na condição humana da perspectiva de um ser urgente e curioso que tenta apreender o sentido disso tudo.” Se joga!

É triste, mas as músicas de em FOREVER NEVERLAND se sucedem e uma se parece com a outra e com alguma outra coisa que já ouvimos por aí. Triste porque a estreia dela foi bem interessante, parecia uma voz nova do pop que tinha uma abordagem artística que tentava ser mais pessoal – e um tantinho ambiciosa – mas ainda acessível.

A dinamarquesa MØ foi ficando cada vez mais comercial e hoje é mais uma artista do pop escandinavo tentando soar como… uma artista do pop escandinavo que precisa soar como uma estrela produzida para pistas de NY, LA ou Miami. A faixa final, “Purple Like The Summer Rain”, é a que parece evocar melhor o lado mais original dela.

A voz de MØ continua sendo uma atração por si própria. Ela não é do tipo que faz agudos ou sustain anormais. Nada disso. É o timbre dela que é bem gostoso mesmo. Um pouco rouco e altamente adaptativo, seja ao pop mais europeu, a uma batida mais próxima do Miami bass misturada com indie (como em “Blur”). Apesar de vir de terras frias, o álbum é bem solar, para o verão, para dançar. “I Want You” não me deixa mentir.

Tem “feat.” com Charli XCX, mas é só parte do jogo se associar a nomes relevantes para um determinado público. As outras participações resultam em música melhores, como a balada “Mercy” (com What So Not e Two Feet) e Red Wine (feat. Empress Of), com seu reggae e sopro oriental, parecido com algo que o Gorillaz poderia fazer anos atrás. “Sun In Our Eyes”, com Diplo, é a faixa comercial por excelência. Os feat. são importantes para ela. Embora ela sozinha seja interessante, foi com DJ Snake e Major Lazer que a dinamarquesa conseguiu reconhecimento mundial em “Lean On”.

No Mythologies To Follow foi um marco em 2014 e apresentou MØ como um promessa do indie pop escandinavo. Forever Neverland é apenas o seu segundo disco completo e, se não a coloca no centro nervoso do pop mundial e mainstream, certamente tenta se aproximar dele mantendo alguma coisa da verve da estreia.

Tá na hora de conhecer Tash Sultana

Depois de muitos singles, um bom EP e de apresentações com muita energia e improviso, a australiana Tash Sultana lança FLOW STATE, um disco imperdível. A música flui por seus dedos, pela cintura, pelas ondas nos cabelos, por seus pés. Ela faz base de reggae, dedilhados, solos de extremo bom gosto. Conhece e sabe a hora de usar cada pedal, como pesar a mão e faz praticamente tudo sozinha. Com a Fender na mão, sola feito um John Frusciante, caso ele tivesse sido criado nos anos 2000 com uma vasta gama de influências, que vão do reggae (“Mellow Marmalade”) ao rock psicodélico (“Big Smoke”), do R&B (“Cigarettes”) ao dream pop.

Tash toca pelo menos 20 instrumentos e há vídeos de suas apresentações no YouTube em que, sozinha, faz a música acontecer diante de seus olhos e ouvidos com uma fluidez incrível. Os pedais de loop dão uma bela ajuda nesse esquema de banda de uma mulher só, mas vale a pena ver como os pés da australiana são ágeis ao acionar cada um.

Voodoo chute
Why don’t you tie the noose
From circus through to senseless way

Toda a energia do ao vivo está em Flow State. Apesar de todas características que fazem dela uma presença marcante, ela compôs músicas que possuem potencial comercial e soam como o pop radiofônico que temos aí no momento. “Salvation”, uma faixa que flerta com pop e R&B, e desemboca num solo no melhor estilo Prince.

Uma guitar hero nata, simplesmente não consegue deixar de solar em praticamente todas as faixas, mudando andamento e contexto se for preciso. E são todos excelentes no timbre, na emoção, na variedade técnica e ainda ajudam a construir uma clara imagem do que ela é capaz.

Como muitos primeiros álbuns, Flow State parece se obrigar a ser diverso em seus ritmos e climas. Ela aproveita que está estreando agora no formato álbum e se coloca à prova de tudo que pode caber em seu caldeirão, como se estivesse mostrando um portfólio. É provável que no futuro os álbuns de Tash Sultana sejam mais coesos no som. Embora seja um trabalho longo, com mais de uma hora, a australiana dá vida a cada uma de suas faixas com diversas tendências da música atual.

“Harvest Love” e “Pink Moon”, por exemplo, são sua contribuição ao estilo de rock/pop praticado por nomes como Snail Mail e Soccer Mommy. Mas enquanto as duas citadas deixam seus álbuns bem acomodados dentro das músicas sentimentais, a australiana vai mais longe, estilisticamente falando. E “Blackbird”, com 9 minutos, tem um trabalho nas seis cordas do violão digno de uma virtuose. Um lado que eu, até ouvir a faixa, não sabia que a Sultana tinha.

De uma nova leva de mulheres compositoras e autoras, Tash é a mais variada e que destila qualidade técnica. Ela é compositora de todas as canções, a responsável por todos os solos, pela produção de Flow State e também tocou todos os instrumentos que ouvimos ao longo do disco. Uma artista para acompanhar de perto!