Capitão Nemo, Sharon Van Etten e James Blake

CAPITÃO NEMO | ⭐⭐⭐⭐

Quando escrevi sobre o Bon Voyage, primeiro disco da banda Capitão Nemo, ressaltei que era uma banda de rock que não estava perdida em um mundo cor-de-rosa, usando mesmo o poder de riffs e bateria firme para falar inclusive de problemas sociais sem perder o feeling pop. E essa é a característica dos piracicabanos que continua ressoando no novo EP da banda, EU NÃO NASCI PARA SER O MESMO.

É um lançamento bem curto (nem 15 minutos de som) com quatro faixas curtas, mas já mostram a banda mais madura e deixam a porta aberta para um segundo disco tão bom ou melhor que Bon Voyage.

Como cantor, Bruno Razera está ainda melhor. Não só não há o que dizer de coisas mais técnicas como afinação e respiração, mas o carisma que transmite com seu timbre, mesmo que ele não esteja cantando na sua frente, é algo que fica ainda mais nítido em Eu Não Nasci Para Ser o Mesmo. O rock das duas primeiras faixas, “Ser o Mesmo” e “Aqui Se Faz, Aqui Se Paga”, é rápido e direto. Mesmo que tenha algo de vintage, seja na escolha dos instrumentos, pedais ou amplificadores, a produção soa moderna e sofisticada, com diversos bons arranjos, dando mais corpo às canções. Ponto para a banda e para a produção de Giu Daga, que tem três Grammys latinos no currículo e trabalhas com Titãs e NX Zero.

“Carta” não tem tom crítico ou político, mas é, para mim, a canção desse EP que resume como o Capitão Nemo está mais sofisticado. É uma música de fácil assimilação e que poderia tocar em FMs, podcasts, entrar em boas playlists do Spotify e em trilha de novela global. Mas não digo isso porque ela é comercial. Se tem algo que o Capitão Nemo não se tornou é uma banda de musiquinhas chicletonas e gratuitas. “Carta” é muito bem composta e cria uma atmosfera quase cinematográfica na forma como guitarra, violão e piano se complementam.

Como EP, Eu Não Nasci Para Ser o Mesmo cumpre o papel de introduzir uma nova fase da banda nas mãos de um novo produtor. Em um cenário em que identidade é o que mais falta ao rock’n’roll nacional, sentir que as características do quinteto estão bem preservadas é um excelente primeiro passo até a chegada do novo álbum.

SHARON VAN ETTEN | ⭐⭐⭐⭐

Não é questão de preferir um álbum ou outro. É questão de observar como os cinco anos que separam Are We There e REMIND ME TOMORROW mostram como Sharon Van Etten é mais do que você imaginou que ela seria. Lembro claramente do barulho que Are We There fez em 2014 e como rendeu o maior reconhecimento para a compositora que ela jamais tivera. Como superar aquilo?

Durante todo o tempo em que esteve fora dos estúdios e sem material inédito, ela se formou, teve um filho, virou atriz na série The OA da Netflix e trocou as guitarras por pianos e novas texturas. E ainda assim ela continua soando tão indie rock e indie pop quanto antes, com a mesma melancolia, sem se render aos refrãos fáceis. Muda-se a produção musical, mantém-se o mesmo DNA.

Às vezes, ao discutir a estética do artista, olhamos apenas para o som que está saindo de nossos fones e dos falantes do aparelho de som – e isso certamente faz parte da estética. Mas há um elemento mais fundamental, que também é estética, que é a forma como se compõe tudo aquilo, quais são as linhas mestras por trás do resultado sensorial final. Veja que o gênero tragédia, para um filme, não muda. Uma tragédia é um conceito estético, seja ela retratada em um futuro cheio de luzes e decadência urbana, ou num épico grego de milênios atrás, ou em uma história íntima em 2019. Sharon Van Etten tem seu jeito de fazer as coisas, tem sua própria voz, acima de tudo, e isso não mudou em Remind Me Tomorrow, mesmo que o instrumental possa ser outro.

O álbum tem a tristeza de “I Told You Everything”, a força de “Comeback Kid”, a atmosfera de “Jupiter 4”, o rock alternativo de “Hands” e todo o feeling de “Seventeen”, faixa no qual Van Etten não se segura e, sem aviso, grita. E esse grito mostra que não é nem tudo precisa ser polido, há espaço para a emoção saltar pra fora do peito.

JAMES BLAKE | ⭐⭐⭐🧞‍♂️

Um dos artistas mais interessantes da música eletrônica, James Blake permanece fiel ao seu jeito quase abstrato de fazer música. “Assume Form”, que abre o disco e dá nome ao disco, é a melhor música de ASSUME FORM também. Muda de harmonia, se contorce, coloca orquestrações, coloca um sample de voz sintetizada em loop e só então encontra sua regularidade. A beleza em sua música nem sempre vem fácil. É preciso se deixar levar, entrar no jogo do músico inglês, e ouvir diversas vezes, até que o que soa estranho soe (quase) natural.

Assim como seu nome é bastante requisitado para colaborações, dessa vez ele também pediu para que artistas do hip hop, como André 3000, Travis Scott e Metro Boomin, estivessem em seu álbum. O álbum é uma direção bem mais calcada no hip hop em “Mile High”, “Tell Them” e rap em “Where’s The Catch?”, faixas em que esses artistas aparecem. A cantora espanhola Rosalía também contribui com seus vocais quase etéreos em “Barefoot In The Park”, cantando inclusive versos em espanhol.

Dizer que Assume Form é mais upbeat não significa dizer que Blake tenha encontrado a felicidade em si. Há ainda uma grande quantia de melancolia e experimentação no que ele faz (“Don’t Miss It é o encontro desses dois elementos), mas há também canções mais diretas e que tomam menos detours e acabam sendo pontos altos de Assume Form. É o caso de “I’ll Come Too” e “Power On”. A vulnerabilidade, expressa em sua voz e em sua produção esmerada, ainda são marcas que o inglês sustenta.

Assume Form também tenta dar conta de uma mudança de ares. Blake agora vive em Los Angeles e namora a atriz, modelo e ativista Jameela Jamil. Embora diversas letras sejam sobre ele mesmo e o que ele sente, o artista deixou claro que quase tudo no álbum tem uma referência em seu atual relacionamento. Um rapaz tristonho, sim, mas romântico também.

RDR2 – Sobre cavalos, amores e mulheres – Parte 4

Perdi o Marlon, meu cavalo de guerra. Não sei o que aconteceu, mas o equino que me acompanhou por mais de 100 horas simplesmente sumiu do meu estábulo, do meu mapa, do meu RDR2. Era um excelente cavalo. Praticamente sozinho, eu e ele completamos 8 desafios de Equitação do jogo. O nono é cavalgar de Van Horn até Blackwater sem tocar a água em menos de 17 minutos, uma tarefa que só poderei completar após terminar os seis capítulos da história principal.

Por sorte, tinha capturado um Nokota azulado, um cavalo de corrida. Cavalguei muito com ele, já que meu cavalo de guerra desapareceu. Até que precisei ir a uma região geladíssima para caçar um Bisão Lendário. Eis que me deparo com duas coisas: no alto de um morro de nove, um cara congelado, morto, mas preservado, com uma arma na mão. O jogo me diz que a arma eu poderia pegar, mas não me deixa interagir com ela. Não atirei e nem joguei uma garrafa incendiária para não quebrar o homem de gelo. A segunda coisa que encontrei foi uma égua Árabe Puro Sangue!

Os Árabes Puro Sangue são animais difíceis de encontrar, caros e muito bons. Apesar do Nokota ser um animal de corrida, o Árabe é mais rápido. Demorei quase 40 minutos até conseguir domar a égua branca, que batizei de Celeste. Provavelmente será minha companheira de viagem pelo resto do jogo. Com as selas bem evoluídas que já tenham, todos os status do animal estão no máximo. RED DEAD REDEMPTION não é Red Dead Redemption sem um cavalo. A gente se afeiçoa ao animal. ❤

Meu coração se parte toda vez que preciso alvejar com minha Carabina de Repetição um animal lendário. O Alce Lendário, grande, imponente, belo e branco como a neve, caminhando perto do riacho, foi uma das coisas mais velas que vi no jogo. Mas tarefas são tarefas.

Leia a 1ª parte da crônica RDR2 – Lá Vem a Morte

AMOR E MORTE

Antes que Hosea, John Marston, Dutch Van Der Linde e o resto da gangue acabasse com os Gray e com os Braithwaite, duas famílias rivais na região de Rhodes, eu fiz papel de pombo correio. Um jovem da clã Gray, Beau, se apaixonou por uma jovem do clã Braithwaite, Penelope. Tive que levar uma carta para ela, depois uma resposta para ele. Houve uma passeata em prol do direito das mulheres votarem nos EUA de 1899 e como Penelope ia participar, acabei pegando o trabalho de dirigir a carroça e protegê-la. Deu tudo certo. No fim das contas, após os dois massacres, os jovens sobreviveram (a garota com certeza, Beau não sei, mas não me lembro de ter pipocado seu peito com meu Rifle de Ferrolho). Mas não devem ter acabado juntos. A matriarca dos Braithwaite morreu em sua mansão. Após o incêndio é possível voltar ao local – para roubar umas barras de ouro dos destroços da casa grande – e ver seu corpo carbonizado.

No alto de uma montanha – que nem é tão alta assim e ainda tem um andaime – encontrei um arquiteto enforcado. A carta que achei com ele diz que foi por amor. Ou por falta de amor, na verdade. Aparentemente ele estava esculpindo o rosto da amada na pedra. Ficou pela metade, a obra e a vida. Em uma de minhas cobranças para o agiota Strauss, encontrei a família Downes. O pai estava doente e trabalhando a terra quando o achei. Insistiu que não tinha dinheiro para pagar o empréstimo, então não tive outra saída a não ser dar porrada nele. Não usei nenhuma arma, apenas os punhos, e foi suficiente para marcar seu rosto. A mulher e o filho apareceram e me impediram de “insistir” na cobrança. Fiquei com pena da situação, do garoto vendo seu pai ser esmurrado, da mulher vendo o marido dando duro e tendo que pagar esse preço. É em momentos assim que Red Dead Redemption 2 nos lembra que por mais honrados que queiramos ser com nosso Arthur Morgan, ainda somos um anti-herói capaz de coisas terríveis e de pouco peso na consciência.

Mas o personagem é só um monte de códigos de programação e uma modelagem 3D. Não há consciência mesmo. O incrível é como a Rockstar atinge a nossa em cheio, como se fosse a bala disparada de um Rolling Block.

Passeando por uma fazendo de porcos (mas sem muitos porcos), encontrei um casal simpático, os irmãos Aberdeen. Ele é grande e corpulento. Ela é uma mulher com tudo em cima. São estranhos, porém. Ela sentou no colo dele e sem cerimônias o cara alisou a bunda dela. Comi e bebi com eles até passar mal e acordar sem dinheiro, com minha vida por um fio, em uma vala de lama cheia de outros corpos. Tomei um tônico e voltei à casa dos irmãos incestuosos. Encontrei a mulher no andar de baixo e a amarrei no chão. Assim que o grandão apareceu, meti um balote de escopeta em seu crânio, que foi debulhado pelo projétil. O corpo do homem sem cabeça caiu bem ao lado da irmã, que berrava imóvel no chão. Vasculhei a casa e peguei tudo o que podia, inclusive encontrei todo o meu dinheiro atrás de um quadro. Levei a mulher para o quarto dela no andar de cima. Joguei-a na cama, acendi uma dinamite bem ao lado dela e esperei pelo espetáculo. O grito de morte da senhora Aberdeen foi seco. Esperava que o corpo explodisse pelo quarto, o que não aconteceu. Fiquei decepcionado.

Leia a 2ª parte da crônica RDR2 – Mas Será o Cthulhu?

O’DRISCOLLS E MULHERES

Ao longo da história principal do jogo – que eu não tenho comentado muito nessas crônicas, mas quando me aproximar de seu final comentarei – estabeleceu-se uma richa entre a gangue Van Der Linde e a de Colm O’Driscoll. Algo a ver com Dutch ter matado o irmão de Colm e, como vingança, o líder dos O’Driscolls assassinou o interesse amoroso de Dutch. Agora a gangue inteira está no meio desse fogo cruzado, inclusive mulheres e crianças.

Logo no início do game, Kieran, um jovem pobre coitado que acabou se tornando um O’Driscoll, é capturado pelos Van Der Lindes. Ele salva a vida de Arthur durante uma investida contra sua antiga gangue e ganha o respeito e parcial confiança do grupo, podendo circular pelos acampamentos, trabalhar, comer e dormir como um novo integrante. A certa altura do capítulo 4, ele some do acampamento e vários personagens começam a questionar onde Kieran teria ido. Mary-Beth é uma das que mais se importam com o rapaz. Talvez rolasse algo entre eles.

Pois bem. Eis que o jogo te ludibria, mandando você conversar com a Sadie, uma mulher fodona do grupo, como se uma missão com foco nela fosse começar. No entanto, após alguns poucos diálogos, Red Dead Redemption 2 mostra um cavaleiro entrando lentamente no acampamento. Ele está com a cabeça decepada, segurando o crânio com as mãos em seu colo. É Kieran. Pobre Kieran, deve ter sido capturado pelos seus antigos colegas de gangue e torturado até revelar onde estava o acampamento de Dutch. Pagou um preço alto por mudar de lado – como se ele tivesse alguma escolha caso quisesse sobreviver mais algum tempo.

Atrás desse cavaleiro-sem-cabeça veio um enxame de O’Driscolls atirando para matar. Eu morri duas vezes durante essa invasão, mas quando completei a missão nenhum companheiro, mulher ou criança havia se ferido. Foi um dos tiroteios mais intensos que RDR2 ofereceu ao seu gameplay até agora na história principal. Em dado momento, precisei abandonar a casa que estava defendendo para ajudar Sadie. Ao chegar ao local onde ela estava, vi a mulher lutar com três O’Driscolls de uma vez e abater cada um deles. A mulher é fodona mesmo!

Sadie juntou-se ao grupo logo no primeiro capítulo de Red Dead Redemption 2, quando Arthur Morgan, Dutch e outros da gangue seguem os O’Driscolls até uma casa no meio da neve. A casa era de Sadie e seu marido, que acaba executado pela gangue invasora. Durante essa missão, limpamos a área da presença da turma de Colm e encontramos Sadie em choque com a morte a sangue frio do marido. No meio do tiroteio, sua casa, seu único patrimônio nesse oeste americano selvagem, é incendiada. Ela também entra para o grupo como forma de sobreviver. A princípio, ela é arredia e fica distante de todos do grupo em nossos diversos acampamentos de fugitivos da lei. Ela se integra de verdade quando tem a chance de portar uma espingarda e vestir camisa e calça. Ela é uma caçadora, uma mulher de ação.

Falando em mulheres fodas, a partir do capítulo 2, em um salloon de Valentine, você pega a missão paralela de ajudar um escritor a coletar relatos dos mais lendários pistoleiros do velho oeste sobre Jim Boy Calloway. Então lá vai Arthur Morgan e seu cavalo rodar o mapa de RDR2 atrás de quatro pistoleiros. São três homens e uma mulher. Dois desses homens não querem conversa, pois são procurados pela lei e por caçadores de recompensa, então quando eu apareço sou logo obrigado a enfiar um projétil no corpo deles. Já que eles não falaram nada de Jim Boy, fotografo o corpo sem vida deles para entregar ao escritor. O terceiro pistoleiro já teve dias mais gloriosos. Atualmente, no jogo, ele cuida de um sitiozinho e vive cheirando a bosta de porco. Ele acaba contando que Jim Boy era um covardão do cacete. A gente se desentende e foi preciso passar a faca nesse cara também. Tiro foto do corpo. A última da minha lista é a mulher pistoleira. Ela vive numa cabana no meio do pântano no Bayou. Me recebe desconfiada, mas quando caçadores de recompensa aparecem atrás do prêmio por sua cabeça, me uno a ela e, juntos, despachamos a corja. Foi uma batalha bem sangrenta que deixou muitos cadáveres para servir de alimento para jacaré. Ela, já idosa mas ainda mortal, posou para uma foto e contou que as história do pistoleiro Calloway não passam de histórias. Em seu bando, qualquer um(a) tinha mais coragem e iniciativa que ele.

Ela acaba abandonando sua cabana, já que seu paradeiro foi descoberto. Coloca uma trouxa de roupas em um ombro e pendura o rifle no outro. Nunca mais devo encontrá-la, mas aí está uma personagem que poderia render muitas aventuras e diálogos deliciosos.

Leia a 3ª parte da crônica RDR2 – Cadê o Gavin? Cadê a Miriam?

Valciãn Calixto, Kovtun e Sungazer

VALCIÃN CALIXTO | ⭐⭐⭐⭐⭐

De surpresa, partindo de uma brincadeira em seu perfil no Facebook, o piauiense Valciãn Calixto lançou MÚSICAS PARA SE OUVIR NA BAD DURANTE O PERÍODO CHUVOSO DE TERESINA em seu Bandcamp. São cinco canções, todas violão e voz e gravadas com nada mais do que um celular. Se você ouvir mais do que seis cordas do instrumento e o vocal do cantor, saiba que nada foi acrescentado em pós-produção. São sons do ambiente caseiro dele entrando na captação do smartphone e dando uma ambiência sutil ao registro.

MPSONBDOPCDT é íntimo, como o Crush Songs da Karen O. São quatro músicas do Valciãn e um cover. O som do violão é extremamente nítido. Que pena que ele não erra no dedilhado e nem trasteja. A Karen faz dessas e ficou legal. Valciãn, embora tenha gravado tudo quase de uma vez só, logo após meter na cabeça que lançaria o EP, tem um domínio muito bem do violão e dos próprios arranjos.

É só ouvir “Fim de Ano” para sacar como sua voz aparece muito melhor posicionada, com afinação acertada, um nível técnico bem maior do que o apresentado em FODA!, seu primeiro álbum (pega lá no Spotify, bebê). Isso só aumenta minha ansiedade pelo próximo álbum completo de Valciãn Calixto, que de Foda! para cá já evoluiu demais.

Não julgue as letras de Valciãn muito cedo. A amostra presente em Músicas Para Se Ouvir Na Bad Durante o Período Chuvoso de Teresina têm uma lírica que é melancólica e irônica, reflexiva e ácida. Ele fala do ponto de vista do homem e da mulher comuns com seus dramas hipercomuns, mas sempre chega a um ponto interessantíssimo. “Teoria do Abacaxi”, por exemplo, sou eu próprio descrito ali. Talvez ele esteja descrevendo você também.

KOVTUN | ⭐⭐⭐⭐👻

Desde que DEATH saiu, ouvi o álbum uma vez por dia pelo menos. É aquela coisa: música ambiente, sombrio, às vezes tem silêncio sinistro, às vezes tem ritmos sinistros, às vezes parece que você está num hospital abandonado, às vezes parece que a indústria do desconhecido tá em plena atividade.

Kovtun é o stage name de Raphael Mandra, de Ribeirão Preto (SP), que produz esses sons para quem gosta de música para além de ritmo, melodia, harmonia e letras. Não é todo mundo que curte essa parada, eu sei, mas todo mundo que curte um dark ambient conhece Kovtun (ou deveria conhecer).

A cada trabalho, Raphael tenta incluir elementos novos sem perder de vista o núcleo sonoro de faz do Kovtun o que ele é. Enquanto alguns artistas partem do cavernoso para criar alguma beleza (caso da Demen e também do Arca em alguns momentos), me parece que Kovtun não está muito interessado em dar esse salto para o outro lado, mantendo o seu mundo sonoro tenso, misterioso, e com pouca luminosidade mesmo. Achei Infernal, de 2017, um tanto ruidoso. Death, por outro lado, é muito mais equilibrado e ouvi todas as vezes do começo ao fim sem sair do clima proposto pelo artista.

“The Swarm” é minha faixa preferida. “Everything Must Finish Exempt From Suffering” é a mais fora da caixa, pois basicamente são duas faixas, uma sobreposta à outra. Ideia sensacional, execução inteligente, desconforto garantido.

SUNGAZER | ⭐⭐⭐⭐😵

SUNGAZER VOL. 2 é um EP muito bom do duo Sungazer, formado pelo baixista Adam Neely e pelo baterista Shawn Crowder. Vol. 2 segue o estilo do Vol. 1, entregando mais uma leva de canções que fundem jazz com EDM, glitch e sons de videogame 8-bits. A dupla faz coro com as encarnações mais atuais possíveis do jazz nova-iorquino.

Adam Neely é um estudante de música muito dedicado e possui um canal no YouTube que, aparentemente, virou sua melhor fonte de renda. E o conteúdo dele é bom mesmo, eu garanto! A música que ele faz com Shawn Crowder não é bolinho e nem viraria hit no YouTube: cada faixa tem uma profusão de ritmos, harmonias complexas, momentos de groove, momentos de virtuose, difícil saber onde termina o jazz e a loucura com a música eletrônica começa. Mas sério: se você acha que jazz hoje ainda se resume ao que viu em filme do Damien Chazelle ou em figurões antigos, ouça Sungazer e surpreenda-se.

“Drunk” foi gravada com os músicos realmente altos de tanto beber. “Bird on the Wing” é provavelmente a minha favorita do EP, cheia de vida, de ideias e em compasso 9/8. “Electro” tem ritmos complexos e quebrados, carregada de efeitos sonoros em sua porção mais EDM, além de um ótimo solo de sax no miolo.

Se neste início de 2019 você estiver procurando algo que represente o que existe de mais arrojado em termos de música contemporânea e que tenha um lado comercial, Sungazer Vol. 2 é um ótimo exemplo.

A Pé Ele Não Vai Longe, Os Irmãos Sisters e Sorry To Bother You

A PÉ ELE NÃO VAI LONGE

O novo filme do diretor Gus Van Sant é sobre John Callahan, um cartunista que sofreu um acidente nos anos 70 e ficou paraplégico. É uma história, em nível profundo, sobre enxergar quem você é, suas limitações e aceitar suas merdas, sem autopiedade e sem culpar quem não tem, de fato, culpa pelas péssimas escolhas que você fez. E A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot) cumpre muito bem esse papel.

Joaquin Phoenix é extremamente convincente como Callahan, e não é fácil imitar um tetraplégico, com movimentos limitados, a forma como usava os pulsos e não as mãos para segurar objetos (garrafas de uísque, canetas, etc), a forma como o corpo deve ficar em uma cadeira de rodas, etc. Jonah Hill, como Connie, o padrinho de Callahan na Alcoólicos Anônimos, está um gigante. Rooney Mara, como Annu, está a fofura sueca em carne e osso.

O filme é considerado uma comédia, mas não espere muitos risos no fim das contas. Ele é bem mais dramático do que qualquer outra coisa, já que o o personagem lida com questões bastante sérias, como o alcoolismo antes e após o acidente, a impossibilidade de um relacionamento amoroso e o abandono da mãe quando criança. Não é uma história para chorar, pois Van Sant não apela para sentimentalismo, mas é tocante em diversos momentos.

A Pé Ele Não Vai Longe estreou em Sundance em janeiro de 2018 e só agora, um ano depois, chegou aos cinemas brasileiros, com distribuição da Amazon. A produção se baseia no livro de memórias do cartunista e o próprio Callahan está creditado como um dos idealizadores da história que deu origem ao roteiro de Van Sant. Mas Callahan morreu em 2010, o que nos dá uma boa ideia do tempo em que o projeto estava sendo gestado. A princípio, Robin Williams (que faleceu em 2014) interpretaria o protagonista.

OS IRMÃOS SISTERS

OS IRMÃOS SISTERS (The Sisters Brothers) é um western que se passa durante a corrida do ouro na Califórnia. Apesar de ser um gênero e uma história tipicamente estadunidense, é uma produção francesa dirigida por Jacques Audiard, seu primeiro filme todo falado em inglês. O filme estreou no Festival de Veneza de 2018 e foi muito mal na bilheteria norte-americana. Uma pena, pois foi um dos filmes mais tocantes que vi ano passado.

O elenco está primoroso. A princípio, acompanhamos as aventuras dos irmãos Charlie (Joaquin Phoenix) e Eli (John C. Riley). Um é beberrão e impulsivo, outro é mais comedido e já pensa em um futuro diferente para si mesmo. Apesar das diferenças de planos e personalidade, ambos são igualmente mortais e trabalham como assassinos para um comodoro do Oregon. Descem a costa oeste dos EUA atrás do investigador John Morris (Jake Gyllenhaal) e do químico Hermann Warm (Riz Ahmed), que aparentemente desenvolveu uma nova técnica para procurar ouro e o comodoro quer o segredo a todo custo.

Os Irmãos Sisters é sobre manipulação política e ganância, mas também é um conto moral sobre empatia e o que realmente importa no final das contas em um ambiente inóspito em que a lei está longe de ser aplicada a todos. Embora nos identifiquemos com Eli e Charlie, eles são matadores de aluguel que vão enfrentar aranhas, ursos, outros capangas do comodoro e uma gangue que usa chapéu de pele de guaxinim. É um drama, mas faz valer seu lado western com variados obstáculos e até um lado filosófico.

Duas coisas são preciosas em Os Irmãos Sisters. Primeiro, poder ver Phoenix, Riley, Gyllehaal e Ahmed atuando juntos. Segundo, assim que nossos olhos se enchem e nosso coração se aquece com o clímax da história, logo em seguida Audiard nos dá o maior banho de água fria, só para nos fazer perceber o quanto aprendemos a gostar daquele quarteto.

SORRY TO BOTHER YOU

Da safra 2018 de Sundance temos também SORRY TO BOTHER YOU, primeiro longa-metragem do rapper, produtor, roteirista e ativista Boots Riley. É um filme norte-americano, de comédia e drama, com laivos de ficção-científica. Assim como o Infiltrado Na Klan, de Spike Lee, é um filme sobre o homem e a mulher negros dos EUA neste momento, com um ethos forte e que não tem medo de parecer panfletário para falar o que precisa.

Cassius Green (Lakeith Stanfield, perfeito em suas caras de dó) começa a trabalhar em uma empresa de telemarketing, mas vai mal. Tudo parece sem sentido para ele, até que recebe a dica de ligar para as pessoas usando sua voz de branco, sem dar a entender pelo telefone que é um afro-americano. É aí que sua carreira deslancha. Ele sabe que a grana federal que começa a entrar em sua conta vem manchada de sangue e durante o segundo e terceiro atos do filme, ele vai ver e sentir quão inescrupuloso o capitalismo pode ser.

O elenco é bem legal (completado por Tessa Thompson, Steven Yeun, Danny Glover e participação de Terry Crews) e a trilha sonora original foi feita pela Tune-Yards. Além disso, Boots Riley juntou o seu grupo de rap The Coup para gravar canções especialmente para o filme. Não é um ataque à administração Donald Trump, pois o roteiro foi concebido durante o governo Obama. Seja qual for o presidente, os mecanismos do capitalismo mais agressivo continuam sendo os mesmos e Sorry To Bother You teria o mesmo impacto hoje ou daqui três anos.

Quando a porção mais sci-fi da história começa a tomar corpo, o filme bambeia, quase perde o seu chão, mas o diretor segura firme as rédeas e consegue chegar a um final plenamente satisfatório, desde que o público abrace a piração, é claro. Ela não é gratuita e se se afasta do realismo, é porque às vezes o absurdo não só ajuda a entreter, mas ilustra melhor o que pode ser difícil colocar em palavras.

Não vamos reduzir ROMA à fotografia, ok?

ROMA é como Alfonso Cuarón falou: um filme sobre uma empregada doméstica no México em 1971, em preto e branco e que não força plot twists para animar a plateia. Filmado digitalmente em uma câmera Alexa, com o formato de 65 milímetros, fazendo qualquer cena doméstica, qualquer fato cotidiano e tomada mais íntima ter a grandeza de um épico de guerra. É por aí que opera a sensibilidade artística de Cuarón, que fez o filme baseado em sua infância, em sua família, no mixteco (um dos dialetos do país) e no México que viu desabrochar a duras penas. Ele foi diretor, roteirista, diretor de fotografia e editor da obra fazendo deste o filme mais pessoal de sua carreira.

Muito já se falou da fotografia de Roma e ela precisa mesmo ser reconhecida. Perdi a conta de quantas cenas foram icônicas para mim. Teve a cena da “despedida” do médico na frente da casa com as crianças na calçada, a tomada dos praticantes de artes marciais, Cleo (Yalitza Aparicio) andando por um bairro sem calçadas, ruas ou esgotamento sanitário, a cena do incêndio, aquela no cinema, o plano sequência do parto, o abraço quente e que mistura alívio e desespero próximo do fim e que virou cartaz do filme. Que coisa linda tudo isso! A câmera se comporta como uma mera testemunha de tudo e sua movimentação, que parece meio canhestra a princípio, faz com que as perambulações dos personagens tenham que ser milimetricamente encenadas, e mesmo assim diretor e elenco fazem tudo soar natural.

Mas por favor não reduza Roma à sua fotografia. É como reduzir o clipe de “This Is America” às referências. O filme fala por si só, mesmo que pareça muito quieto. A tensão fica no ar, nas entrelinhas dos diálogos, em cada cômodo da casa onde a dinâmica familiar vai ruindo e depois se reconfigurando. Mais do que ver a tensão – e olha que Roma é um filme para não desgrudar os olhos – é preciso sentir como uma coisa leva a outra, como o drama de Cleo fica em segundo plano sufocado pelo que ocorre na casa da família. Se por mais de uma hora parece que os elementos da história soam meio aleatórios, eles vão fazer muito sentido e se unir na segunda metade.

É lindo de acompanhar.

Conforme assistia pela Netflix, diversas vezes me peguei pensando em filmes italianos dos anos 60, como os de Michelangelo Antonioni, mas principalmente os de Federico Felini. É claro que pode ter um pouco desse DNA em Cuarón, mas não soa como homenagem – o que é ótimo, nesse mundo onde parece que uma obra só consegue se fazer notar por certo público se tiver uma “referência” para pescar. Outra coisa que me peguei pensando constantemente é que era um dos melhores exemplos de Cinema que vi em 2018, do tipo que muita gente teria medo de fazer visto que não há mais um mercado de salas de cinema para produções como essa. É por isso que é tão importante que a Netflix esteja promovendo a obra e a colocando em mais de 100 países ao mesmo tempo.

Se eu tivesse que destacar uma cena, seria a dos praticantes de artes marciais, quando o mestre pede que todos juntem as mãos acima da cabeça, recolham uma das pernas formando um 4 e vejam se conseguem se equilibrar. A princípio parece uma cena longa demais e que seria cortada a seus momentos principais em um filme mais prático no roteiro e no trato com sua audiência. Mas Alfonso Cuarón quer dar tempo para sentirmos as coisas e tudo o que se revela nessa cena que aparentemente está sobrando. É importante que Cleo se veja desamparada por Fermín. Mas é mais importante ver do que ela foi capaz sozinha.

Uma vez, durante os anos de faculdade, um amigo (oi, César!) disse que gostava de deixar um dos filmes do Antonioni – acho que era o inglês Blow Up – Depois Daquele Beijo – passando na tevê, sem áudio, só para apreciar as imagens. Roma tem o mesmo poder, com a “vantagem” do formato 65 mm encher os olhos. Se Blow Up tem o jogo de tênis imaginário para coçar nossa mente, Roma tem uma poesia intrínseca e aponta para cima, para vermos mais um avião cruzando o céu do bairro, e pensarmos no que isso talvez queira nos dizer hoje.

A Casa que Jack Construiu com sangue, cinismo e arte

É bem conhecida entre os psicanalistas a história de que James Joyce, o escritor irlandês, escrevia para lidar com sua psicose. Seus livros são uma escalada de estilo e verborragia e experimentação, até chegar a Finnegans Wake e aquilo parecer um quadro de Jackson Pollock com frases e parágrafos. O argentino Ricardo Piglia até escreveu em Formas Breves que Joyce nunca admitiu que sua filha sofresse do mesmo mal, mas incentiva a garota a buscar na arte uma forma de lidar com a sua condição.

É bem verdade também que diversos autores – em qualquer uma das artes – gosta de compor obras que falem de si mesmos ou exponha seus pontos de vista, seus gostos, suas críticas à sociedade, etc. Lars von Trier, o cineasta dinamarquês, sempre deixou muito claro em seus filmes, nos melhores e nos piores, que é uma alma da contracultura e que tem o que dizer, e que nunca facilita com o que tem a dizer, até porque seus pontos de vista podem ser chocantes ou, se acertados, encenados em seus filmes de uma forma bastante espetaculosa, beirando o doentio.

Em A CASA QUE JACK CONSTRUIU (The House That Jack Built), Trier segue alguns dos pontos que já são comuns a sua filmografia: é a história de um serial killer americano na América do Norte, e assim aponta sua câmera inquisidora para os EUA para criticar aquela sociedade mais uma vez. O pessimismo, a falta de fé na bondade das pessoas, também está de volta, o que não é surpresa nenhuma. No entanto, sabemos que o diretor passou por alguns problemas mentais, como a depressão, e trabalhar foi uma forma de ele também lidar com o assunto. Dessa fase saíram pelo menos Melancolia e A Ninfomaníaca.

A Casa Que Jack Construiu é Lars von Trier se olhando no espelho e refletindo nele não um cineasta polêmico, mas um engenheiro serial killer com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC); se Trier se refugiou na arte, como Joyce e tantos outros, para ajudar a lidar com o problema, Jack (Matt Dillon), o protagonista, assassina para criar arte e essa arte (do assassinato) o ajuda a ter prazer na vida. Essa relação que Trier estabelece entre ele próprio e seu matador fica claro por meio dos diálogos. Há até uma conversa especificamente para falar de como artistas com problemas mentais usam a arte para se manterem mais firmes no mundo.

Há aí também um cinismo bem proposital: o cineasta sabe que pelo menos parte do público vai entender que ele está se refletindo na tela e exagerando, e então vamos olhar de volta para ele com caras abissais de quem pode querer confundir o personagem com o autor.

Cinismo é parte importante da história desse filme também, tanto para mostrar como as pessoas (americanos) são burros ou manipuladores. A primeira vítima, interpretada por Uma Thurman, simplesmente trata o protagonista como um serial killer, sem saber que ele realmente o é. Mas o espectador já sabe disso, o que dá um ar de comédia à cena. Em outros momentos, Jack vai assumir que é um assassino só para que o absurdo da afirmação faça com que ele pareça tudo, menos o que ele realmente é.

Lars von Trier pode até parecer que quer emular um Tarantino aqui e ali, principalmente na forma como a tensão às vezes leva à comédia (de risos nervosos), mas sua assinatura é única. Pode não mostrar uma criança levando um tiro na cabeça, mas mostra seu corpo congelado e manipulado para permanecer entalhado e sorridente. Um corpo arrastado pelo asfalto deixa um rastro de sangue e um corpo sem face. E por aí vai. Trazer o que há de mais obscuro num psicopata serve tanto para retratar o engenheiro/artista Jack quanto para tecer comentários sociais e, por fim e principalmente, chocar.

Erudição é o ponto final para discutirmos aqui. O cineasta europeu vai da arquitetura às pinturas para comparar a arte de seu Jack com a arte ao longo dos séculos. O final é bastante surpreendente e não devo comentar nada aqui, apenas que ao longo do filme, dividido em Incidentes (que operam como capítulos, algo bem comum aos roteiros de Trier), Jack conversa com Verge (Bruno Ganz), que é Virgílio, provavelmente o mesmo Virgílio que guia Dante pelo Inferno na Divina Comédia. Se você sabe pelo menos como o Inferno é retratado no livro mais famoso de Dante Alighieri, ficará mais fácil entender onde Trier quer chegar com o ato final de seu filme.

Melancolia segue sendo seu melhor filme após Dogville. A Casa Que Jack Construiu é excelente em conseguir o que o diretor mais quer: público dividido, gente com nojo da humanidade, rostos retorcidos com a feiura daquilo que ele foi capaz de conceber como obra de arte e pessoas que vão olhar para o filme, ver o reflexo exagerado do diretor, e pensar que a mente que o concebeu deve ser tão doente quanto a do psicopata.

Lista: os Melhores na Música em 2018

Melhor álbum contra a angústia

Chastity – DEATH LUST |Uma banda nova que fez sua estreia em 2018 com Death Lust, Chastity foi um dos maiores acontecimentos par mim. Banda canadense de Whitby, pequena cidade próxima a Toronto, que vive entre o tédio e a falta de perspectiva, uma noção que faz parte de toda a angústia presente no álbum. Trafega por diversos estilos e vai da pancada que é “Children” até conseguir deixar entrar os primeiros raios de esperança em “Innocence”.

Álbum mais delicado

Lauren Auder – WHO CARRY’s YOU | Lauren Auder é um francês que fazia suas produções em casa e as postava no Soundcloud. Ainda estudava no ensino médio quando chamou a atenção de rappers e gravadoras. Ao se formar, foi para a Inglaterra. Who Carry’s You é seu primeiro EP e já demonstra maturidade, sensibilidade e boa mão para experimentar sem perder a ternura.

Tuyo – PRA CURAR | Trip hop brasileiro de qualidade, com lírica, ótima escolha de sons, de duetos, de contrastes de voz e com ótima atmosfera. Além disso, o trio do Tuyo mostrou uma maturidade bem grande em Pra Curar que não estava toda no EP Pra Doer. Falei mais de Pra Curar aqui.

Rubel – CASAS | O carioca Rubel fez um dos álbuns que mais ouvi este ano. Doce, contido, quente a sua maneira, poético. Uma trincheira onde deságua rap, MPB e folk, orquestrações e violões, cenas da vida real e espaço para a imaginação.

Melhor álbum feminista

U.S. Girls – IN A POEM UNLIMITED | Desde que U.S. Girls (nome do projeto solo de Meg Remy) lançou In a Poem Unlimited, o disco foi baixado na minha biblioteca do Spotify e não cogitei apagar. O disco é bom do começo ao fim. Funk rock, funk pop, levemente lisérgico e cheio de mensagens feministas, inclusive um tapão na cara do Barack Obama e uma história de vingança. Remy é americana e vive no Canadá, seu novo disco entretém e ilustra a luta, os medos e a esperança de diversas mulheres. O Dirty Computer de Janelle Monáe poderia figurar aqui também com tranquilidade, mas a voz de Remy no U.S. Girls precisa ser ouvida e destacada também.

Melhor disco nacional

Luiza Lian – AZUL MODERNO | A fluidez como Luiza Lian e seus músicos produzem uma obra sentimental e misturando referências que vão do funk ao pop e da música negra à eletrônica é incrível. Azul Moderno tem o que dizer e tem som para embalar sua meditação, sua magia, sua dança e até sua festa. Foi um ano de ótimos lançamentos nacionais e nada fácil escolher apenas um disco, mas foi este da Luiza Lian que quis sempre ter à mão desde que foi lançado. Falei mais de Azul Moderno aqui.

Álbum que achei que ia ouvir muito e ouvi bem pouco

Florence + The Machine – HIGH AS HOPE | Adoro Florence Welch e sua banda. Adoro sua voz e a forma efusiva como interpreta suas composições. Adoro inclusive que ela tenha algo de místico. Mas High As Hope me soou contemplativo demais e com pouca força. As letras são boas, as músicas são bonitas, está tudo certo, mas mesmo assim não é um disco que empolga. Quem sabe com o tempo a gente não redescobre este 4º álbum do Florence + The Machine, né?

Banda que ia lançar disco novo, não lançou e me frustrou

TOOL | Eu e toda uma legião de fãs do Tool estávamos esperando por um novo álbum em 2018. Eu e toda uma legião de fãs do Tool estamos esperando o 5º álbum da banda americana há mais de 10 anos. Ficou para 2019. O que sabemos é que a banda já gravou todas as músicas e só falta colocar a voz em tudo. Vários músicos – incluindo Tom Morello, Nergal Darski e o líder dos Melvins, entre outros – já puderam ouvir o que o Tool aprontou e todos dizem que é incrível.

Artista mais incompreendido de 2018

JACK WHITE | Passei boa parte de 2018 seguindo os passos de Jack White. Ele lançou o disco mais estranho da carreira, o menos roqueiro, é verdade, e finalmente usou edição digital para montá-lo. Contudo, Boarding House Reach foi extremamente incompreendido por boa parte do público e até da crítica. Cansei de ver textos sobre o álbum bem mal-informados, porque neste caso, a forma totalmente alinear como White compôs e gravou, determinou o resultado final, e a grande maioria da crítica analisou como se fosse um disco produzido de forma convencional. A turnê de Jack foi longa e ele registrou tudo em seu Instagram. Ao vivo, as canções ganharam peso rock e as performances do músico eram sempre entregas de corpo e alma. Continua sendo o embaixador do espírito rock’n’roll em nossos tempos, mesmo com um álbum esquisito e experimental.

Artista mais controverso de 2018

KANYE WEST | Kanye West, o rapper originalmente de Chicago, de onde veio o ex-presidente Obama, nunca foi parte do séquito de Obama. Querendo ter algum peso na Casa Branca, deu declarações polêmicas sobre escravidão e pareceu passar pano em Donald Trump. Sua saúde mental foi colocada em xeque e seu estado emocional foi brilhantemente sintetizado no clipe animado de “Feels Like Summer” de Childish Gambino. Se fechou no estúdio em 2018 e produziu 5 discos curtos de 5 rappers diferentes, incluindo um novo álbum próprio e um em parceria com Kid Cudi. Todos ficaram ótimos. Esse é o Kanye: ótimo por um lado e uma besta por outro.

Melhor capa

Blood Orange – NEGRO SWAN | Ouvi Negro Swan muito menos do que pretendia, mas ainda assim, que grande disco de R&B. Dev Hynes, o homem por trás de Blood Orange, disse que o tema geral da obra é a depressão negra. A capa, uma foto, é maravilhosa no que retrata e em como retrata. Há algo de absurdo, inda que profundamente humano, mesmo que remetendo a algo sobrenatural ou irreal em um ambiente urbano. O tipo de imagem que permite trocentas leituras, tantas que talvez seja melhor apenas apreciar e sentir, sem explicar muito.

Show mais esperado

RADIOHEAD no Allianz Parque | Não compareci àquele primeiro show do Radiohead em São Paulo em 2009 e por muito tempo me arrependi profundamente de não ter ido. Finalmente lavei a alma e conferi a banda no Soundhearts Festival, que teve também Aldo The Band, Junun e Flying Lotus. Gostei de todos os shows, mas o mais esperado era mesmo o do Radiohead, que tocou por 2h30, Thom Yorke estava animado e deu pra ver como  banda reproduz o máximo de sons possíveis ao vivo mesmo, sem recorrer a VS e trilhas disparadas por teclado ou notebook.

Show mais emocionante e suante

NICK CAVE AND THE BAD SEEDS no Espaço das Américas | Fazia quase 30 anos que Nick Cave não se apresentava em SP e pelo menos há 10 eu aguardava sua volta. O show único no Espaço das Américas foi anunciado no dia do meu aniversário e mais do que depressa me dei o ingresso de presente. Foi incrível. Não só esteve à altura das expectativas como superou todas elas. Já estive em muitos shows de rock e metal, dentro de festivais e fora, e nunca saí tão suado de uma apresentação como foi esse show do Nick Cave. Ele não parou um segundo no palco, a gente não parou lá embaixo também. Durante “Higgs Boson Blues”, toquei o coração do cantor, que riu para mim quando fiz isso. Falei mais do show dele aqui.

Melhor show que vi no YouTube

NINE INCH NAILS – Live: Black and Blue and Broken Bones | Filmado em Madri, na Espanha, em julho deste ano, este é só uma das várias apresentações que o Nine Inch Nails está disponibilizando online. Trent Reznor, Atticus Ross e toda a banda é de uma energia inesgotável no palco. A edição do vídeo e a câmera frenética só tornam tudo mais intenso. A certeza é que não quero perder outro show desses caras no Brasil como já perdi uma vez.

Melhores clipes

Rubel – COLÉGIO |Pode pegar qualquer novela ou série que se passa em escolas: RiverdaleSabrinaEliteBaby, MalhaçãoAmerican Vandal: nenhuma retratou o colégio e seus alunos de forma tão delicada, comovente e premente como Rubel no clipe de “Colégio”. Falei mais dele aqui.

Chastity – HEAVEN HELL ANYWHERE ELSE |Mais um clipe que tenta retratar a juventude, seu tédio, seu deslumbramento, sua autodestruição, o sentimento ruim de gritar que não sai do peito e que faz ser tão comum queimar uma igreja e andar numa roda gigante. O primeiro verso da música da banda Chastity já dá indícios suficientes: “Quem atou meus dias com a dor?”

Childish Gambino – THIS IS AMERICA | Childish Gambino pegou todo mundo de surpresa com esse clipe arrasa quarteirão e lotado de crítica, sarcasmo e ironia. Um dedo que parece um canhão apontado para o rosto dos EUA. Uma pena que grande parte do público ficou mais preocupado em pegar cada referência escondida na obra do que em absorver o que ela realmente quer dizer.

Melhor trilha sonora de série

REQUIEM – trilha de Dominik Scherrer e Natasha Khan | A série é uma produção da BBC e que foi comprada pela Netflix. Mortes misteriosas e espelhos negros levam a protagonista a um culto enoquiano, sigilos de John Dee e invocações angelicais. A trilha sonora é bem interessante em como tenta produzir suspense sem perder essa veia mágica. Não sei do perfil de Dominik Scherrer, mas Natash Khan (que talvez vcê conheça por Bat For Lashes), que empresta sua voz à trilha, tem familiaridade com o rolê oculto inglês.

Melhor trilha de filme que ainda não vi

SUSPIRIA – Thom Yorke | O filme de Luca Guadagnino não chegou ao Brasil e eu ainda não o assisti, mas a trilha sonora composta e interpretada por Thom Yorke, do Radiohead, é magnífica. A trilha do filme original de 1977 foi criada por uma banda prog chamada Goblin e Yorke sabia o que tinha nas mãos quando aceitou a empreitada. Tem assombro, tem delicadeza e sutilezas harmônicas para aficionados em partituras notarem e babarem. E é apenas a primeira trilha que Thom faz para cinema.

Música mais emocionante de filme

Kendrick Lamar & SZA – “All The Stars” | Da trilha de Pantera Negra, primeiro filme da Marvel que realmente se preocupou com a trilha sonora e trouxe Kendrick Lamar para cuidar dela e das ideias que a música poderia comunicar. “All The Stars”, com um emocionante refrão cantado pela SZA merece o Oscar e o Grammy a que foi indicada. Desculpa Lady Gaga e Bradley Cooper, mas a verdade tem que ser dita.

Melhor rock feito por não roquistas

Grimes feat. Hana Truly – “We Appreciate Power” | Grimes era indie pop, indie LSD, difícil de categorizar, mas não metaleira. Seu novo single traz a guitarra da parceira Hana Truly afinada em Drop D, tema cyberpunk, um peso e uma mensagem direta que nem mesmo o Muse conseguiu compor em 2018. Além disso, as buscas pelo significado do verbo “to capitulate” explodiram por causa da canção.

Disco que muita gente gosta e eu não tive interesse em ouvir

Twenty One Pilots – TRENCH | Não se trata de dizer que Trenché ruim. É que muita gente parou para ouvir o novo álbum do Twenty One Pilots e eu nem tive a curiosidade de salvar no Spotify. Aliás, a 5ª temporada de Bojack Horseman na Netflix faz uma piada sensacional com a banda.

Melhor disco cheio de ruído

Low – DOUBLE NEGATIVE | Que obra maravilhosa! O Low, 25 anos de estrada, ainda criativo, se reinventando, dessa vez usando a música eletrônica para fazer sons que parecem um erro  de programação, ou como a música que havia nessas faixas tivesse sido estragada por sinais magnéticos. Há algo de espectral e de metafísico, como se a alma viajasse pelos cabos da rede de força. Falei mais de Double Negative aqui.

Melhor disco de rap pra ouvir no repeat

Baco Exu do Blues – BLUESMAN |O baiano Baco Exu do Blues ressignificou o blues e fez um disco rápido e que defende mais uma vez a cultura negra e toda a sua importância, resgatando o valor de sua luta e seu pensamento. Bluesman é divertido, importante e variado. Falei mais sobre ele aqui.

Pusha T – DAYTONA |Um dos cinco álbuns de 2018 produzidos por Kanye West, em Daytona Pusha T manda um rap direto, com influências do old school e bastante instigante. Como tem a duração de um EP, o repeat é necessário par não sair vibe muito rápido.

Melhor disco antifascista

Behemoth – I LOVED YOU AT YOUR DARKEST | O Behemoth tomou a política de seu país, a Polônia, como pano de fundo de toda a vociferação raivosa de I Loved You At Your Darkest. O governo do país é de extrema direita e chegou ao poder por vias democráticas. Não bastasse isso, o governo é profundamente influenciado pelo catolicismo que, por sua vez, também está alinhado à extrema direito, junto ao partido que hoje comanda a Polônia. É contra a política e contra a religião que o Behemoth direciona seu blackened death metal. Não tenta superar o anterior, The Satanist, mas faz um metal tão vigoroso quanto.

Melhor disco feito em casa / DIY

Nithael – ATLANTIS | Nithael mergulhou fundo mesmo na experimentação musical para dar cara e cor ao seu disco Atlantis. Seu trabalho anterior era apenas vocal e me surpreendeu o quanto ele testou de sons, camadas e texturas, algumas bem experimentais, para fazer seu álbum ter um conceito de fato. Ele não usou músicos ou aparelhagem de estúdio, apenas o próprio conhecimento, a própria voz e a indômita vontade de fazer música. Falei mais sobre Atlantis aqui.

Melhor indicação que o @o_eder me deu

ELVIS PRESLEY ao vivo | Elvis Presley é uma figura americana tão marcante na cultura dos EUA que está associado a tudo: roupas extravagantes, carros com cauda, topetes, vozeirão, beleza, branco roubando o brio de negros na música, cinema, polêmicas, sucesso que vai além de sua própria vida e invade a morte. O @o_eder me mandou vídeos do Elvis ao vivo e pude lembrar como ele era grande, porque era o Rei. 

Melhor disco para ouvir internado

Manoel Magalhães – CONSERTOS EM GERAL | Eu não fiquei internado em 2018. No máximo saí mais cedo do trabalho um dia por causa de uma gripe. Mas o @o_eder ficou, após um acidente sério, e teve conforto na música. Consertos em Geral, do Manoel Magalhães, foi um disco que ele ouviu enquanto habitava o hospital.

Melhor álbum para puxar ferro

Daughters – YOU WON’T GET WHAT YOU WANT |Um disco de rock bem nervoso e enervante de uma banda que não tocava junta há muitos anos. A fúria passa pelos seus ouvidos e atinge a corrente sanguínea, dando aquele impulso venenosa no seu treino de cada dia. Bom álbum, cheio de sentimentos pesados para que você lide com seus próprios pesos na academia e, quem sabe, na vida. Falei mais de You Won’t Get What You Want aqui.

Melhor álbum para dormir ouvindo

LIMINAL | A playlist infinita do pessoal do Sigur Rós é um dos projetos mais legais e inovadores de 2018 na música. A música de Liminal, contudo, não sei é para todos os gostos, mas caso goste de sons novos, timbres esquisitos, uma interconexão entre o acústico e o eletrônico, o melodioso e o ruidoso, vá fundo noite adentro.

Melhor disco de artista muito veterano

Marianne Faithfull – NEGATIVE CAPABILITY | Marianne Faithfull chamou o Warren Ellis para produzir seu novo disco. Nick Cave participa. Mark Lanegan, também. O disco é precioso. Uma senhora de idade avançada refletindo sobre amor, falta de amor, solidão, morte, solidão de novo, mais morte, terrorismo, e fazendo algumas releituras de sua própria obra. É cortante a honestidade como retrata a si mesma nessa fase da vida. Falei mais de Negative Capability aqui.

A tragédia das 32 crianças da República Luminosa

O madrilenho Andrés Barba ganhou notoriedade nas letras espanholas quando lançou REPÚBLICA LUMINOSA por lá e venceu o Prêmio Herralde em 2017. O seu livro chegou ao Brasil este ano pela editora Todavia e quando comecei a ler, demorei um tempinho para entrar na vibe do autor. Li os três primeiros capítulos e fiquei desconfiado de que ele enrolaria muito para contar a história das 32 crianças que surgiram nas ruas de San Cristóbal e se refugiavam na floresta. Li os capítulos 4 e 5 e, ao fechar o livro para dar uma pausa, já estava totalmente ganho pela história e pelo autor. Não precisei nem chegar ao final da obra para ter certeza de que seria uma das três melhores coisas que li este ano.

A história é contada em primeira pessoa, da perspectiva de um homem, um profissional da gestão pública, que assume a pasta da Ação Social ou Desenvolvimento Social de San Cristóbal, uma cidade espanhola onde vivem muitos Ñeê, um povo característico ao que parece. Então 32 crianças começam a aparecer na cidade, sem origem muito definida, algumas são órfãs, outras fugiram de casa em outras cidades, mas ninguém sabe como é que começaram a se reunir.

O que se sabe é que estiveram em San Cristóbal, praticaram mendicância e pequenos roubos, incomodaram a princípio e depois viraram parte da paisagem, já que, como muitos excluídos em nossas ruas, fingimos que não estão lá. Mas é difícil não ver que são crianças. Como Barba escreve: “Por mais que as víssemos miseráveis, sujas e muitas vezes afetadas por doenças viróticas, já tínhamos nos imunizado contra a situação. Podíamos comprar uma orquídea delas ou um saquinho de limão sem nos alterarmos: aquelas crianças eram pobres e iletradas como a selva era verde, a terra era vermelha e o rio Eré carregava toneladas de lama.”

Sabemos também, desde o início, que uma tragédia vai acontecer com essas crianças. Não só com as 32, mas com algumas outras que vão se juntar ao bando também, o que só aumenta a tensão na cidade, atingindo em cheio as autoridades policiais e municipais.

E então você pensa em todas as coisas que você tem e elas não, e nas coisas que você faz e elas não podem fazer. Porque elas não têm uma casa. Nem comida. Nem cama. E, como não têm essas coisas, dormem com os olhos abertos para não sentir medo. E entram em você. E você é elas.

Andrés Barba conta a história de forma alinear. O narrador está à frente dos acontecimentos e vai revelando o coração dessa narrativa aos poucos, intercalando-o com fatos que se seguiram inclusive anos após a tragédia. Isso cria uma dimensão muito maior da tragédia e da barbárie, fazendo com que República Luminosa não seja um livro apenas sobre o que houve com as 32, e sim páginas repletas de reflexões filosóficas e investigações de cunho moral que só aumentam a tensão e o escopo do ocorrido. República Luminosa, dessa forma, parece ter muito mais história do que cabem em suas 160 páginas.

Foi como ler As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides, também. Tanto na estreia de Eugenides como neste de Barba, nunca temos a perspectiva de quem realmente é o centro das atenções. As irmãs Lisbon nunca tomam a palavra para contar a sua versão dos fatos, assim como as crianças também não falam conosco, nem com o narrador e nem deixam documento para termos um insight mais seguro sobre a história delas. Tudo o que é contado sobre elas parte de terceiros ou das elucubrações do próprio narrador, formando um quebra-cabeça muito interessante.

A história que Barba quer nos contar é boa. A forma como escolhe contá-la, é ótima. As reflexões que faz – sobre a história e sobre como nós, os leitores e os sancristobalenses respondemos a ela – é o verdadeiro ouro de República Luminosa. No meio do caos e do desespero, até as melhores intenções podem se traduzir em violência, física e social.

Mas as crianças não apareciam, as patrulhas policiais retornavam todos os dias ocultando a sua frustração, e cada vez que olhávamos para a selva parecia que aquela massa tinha se voltado contra nós para defender as crianças. Se não era uma fábula moral, tínhamos que reconhecer que era bem parecida com uma.

REPÚBLICA LUMINOSA
Andrés Barba
Tradução de Antônio Xerxenesky
Editora Todavia
160 páginas

Black Hole: uma das HQs mais estranhas que já li

Eu tinha a percepção de que BLACK HOLE era uma história em quadrinhos esquisita desde que foi publicada no Brasil pela primeira vez, mais de 10 anos atrás, pela pioneira editora Conrad. A capa de cada volume era um rosto sorridente. Um sorriso meio maníaco, meio doente, meio psicopata. Um sorriso menos exagerado que o do Coringa e, talvez por isso mesmo, muito mais preciso em seu mal-estar.

Tinha muita vontade de ler, mas sempre deixava a obra de Charles Burns de lado. Fui adquirir só recentemente essa graphic novel, e adquiri a nova edição lindona da editora Darkside, com a história na íntegra e tradução do escritor Daniel Pellizzari. Nesta altura do campeonato, já sabia da importância de Black Hole para os quadrinhos alternativos e autorais e de como alçou Burns para um patamar de maior destaque na área dos quadrinhos americanos, mas nunca soube absolutamente nada do enredo ou sobre algum de seus personagens até de fato começar a ler a edição brasileira. Ainda tenho a mesma impressão do sorriso na capa, mas comecei a ler como às vezes sou levado a ver um filme sem nem ter visto o trailer.

Black Hole é um dos quadrinhos mais estranhos que já li. Publicado originalmente entre 1995 e 2005 de forma seriada, representa uma juventude de meados dos anos 70 que está descobrindo amor, sexo, usando drogas, sentindo medo e tentando viver. Os pais existem mas não estão nessas páginas. Todos eles, independente das boas notas e da beleza, acabam todos virando párias. É uma história sobre outcasts por excelência, com um elemento fantástico: por algum motivo, o contato íntimo entre esses jovens acaba contaminando-os com alguma coisa que abre fendas em seus corpos, deformando partes ou até criando novos membros.

De cara isso lembra um pouco os filmes de David Cronenberg, com aquele fundo filosófico a partir dos corpos e das mutações que ele sofre. Cronenberg faz intervenções muito mais radicais, de certa forma, o que o aproxima da ficção científica. É claro que Burns usa as mutações como uma metáfora para a juventude e suas transformações, mas foge do “tudo vai ficar bem”, colocando uma aura constante de inadequação, falta de perspectivas e de saídas. Eu já tinha lido 80% da obra e pensava que não fazia ideia de como aquilo poderia acabar.

Se a questão do corpo – de onde partem as cisões na vida dos personagens – lembra Cronenberg, o aspecto misterioso geral do livro fazia eu sentir como se estivesse vendo Donnie Darko novamente. Com certeza, é uma das coisas mais estranhas que já li nos quadrinhos. Perde apenas, talvez, para Uzamaki e Fragmentos do Horror de Junji Ito.

Mesmo sendo uma obra dos anos 90 retratando os anos 70, quando adolescentes não estavam colados aos seus celulares, Black Hole tem uma narrativa que se mantém atual até hoje, mais de 20 anos após seu início. As sombras sobre a juventude ainda são as mesmas. A arte de Burns, sem tons de cinza, abusa do nanquim para criar escuridão em 90% dos quadros, o que também quer dizer muitas coisas sobre como retrata esse público, como se algo sinistro ou oculto estivesse à espreita o tempo todo, mesmo quando Chris, Rob, Eliza e Keith tentam ser o mais afetuosos possível. Há ternura mesmo nas situações mais irracionais.

Algo de que gostei muito em Black Hole foi de como Charles Burns dispensou a procura por lógica. Os personagens “infectados” não vão ao médico, não conversam sobre suas mutações, não tentam encontrar um ponto de origem, não há busca por cura. Eles seguem vivendo, se conformando com o que viraram, se afastando do resto da sociedade e em alguns casos tentando imaginar uma vida possível idilicamente. Afinal, como é que se cura a adolescência, suas transformações e seu mal-estar? Pois é, isso não se cura.

Antes de ir para a Evergreen State College (inclusive ao mesmo tempo que Matt Groening, criador dos Simpsons, estava lá), o autor lia Batman e Superman, comprava as edições da MAD quando ainda eram sobre quadrinhos (em branco e preto e cheias de coisas “alternativas”) e Zap, de Robert Crumb, foi uma das HQs que logo tiveram impacto sobre ele. Antes de começar a escrever e publicar sua mais famosa história, Burns já estava às voltas com a ideia de falar sobre adolescentes e uma praga ou doença em histórias curtas. Quando começou Black Hole, concentrou-se muito mais em seus personagens, em como viajar para o interior deles, do que em aprofundar a trama em sim. Aliás, aprofundar os personagens é uma forma de aprofundar uma trama também, dar uma terceira dimensão a ela.

Desde 2005, quando a Pantheon Books publicou o livro completo com todas as edições de uma vez e o público da HQ foi ampliado com vendas em livrarias (e não apenas em comicshops), há o projeto de um filme. Neil Gaiman e Roger Avary (de Pulp Fiction) chegaram mesmo a escrever um roteiro, mas então a direção passou para David Fincher (de Clube da Luta) e outro teria que ser feito. Desde março de 2018, os direitos da adaptação estão com a Plan B, produtora do Brad Pitt, e sob os cuidados de Rick Famuyiwa, que lançou Dope em Sundance em 2015, como diretor e roteirista.

Impossível saber se o projeto vai vingar ou não no cinema, mas vale a pena aproveitar para ler Black Hole na íntegra. A experiência do branco e preto nas páginas de alta gramatura e capa dura da edição brasileira só aumenta o estranhamento dessa história.

BLACK HOLE
Charles Burns
Tradução de Daniel Pellizzari
Editora Darkside Books
368 páginas

David Bowie, Steven Wilson e Opeth ao vivo

DAVID BOWIE | ⭐⭐⭐⭐⭐😍

GLASTONBURY 2000 é o show do David Bowie no prestigioso festival inglês. Demorou só 18 anos para ser lançado, mas que bom que chegou até nós. É um disco duplo com 22 faixas e que passa a limpo a carreira de Bowie. Você coloca para tocar a primeira faixa e não tem a menor vontade de parar de dançar, cantar e sentir o seu pulso até que a última nota termine.

Grandes clássicos do cantor estão nesse disco, como “Heroes”, “Changes”, “Rebel Rebel”, “Ashes to Ashes”, “Starman”, “Station to Station” entre outras. Um repertório tão bem montado e uma banda tão boa que mesmo que você não tenha familiaridade com metade do setlist será possível entrar na vibe. É praticamente um The Best Of com a energia de quem foi gigante na arte, no palco, na discografia, na vida e até na morte.

Não consigo escolher melhores momentos. “Wild Is The Wind” inicia o show com uma categoria e elegância raras. “Life On Mars” é de arrancar o coração do peito. A performance vocal de Bowie é incrível. Seu inconfundível timbre de voz dá vazão a um vibrato poderoso e consciente que caso alguém não tenha reparado nas gravações de estúdio, esse show em Glastonbury faz questão de destacar. Os sete minutos de “Stay”, “Absolute Beginners” e “Let’s Dance” são um deleite, não uma enrolação. Quem sabe aproveitar o momentum ao vivo sabe como esticar as músicas sem parecer exagerado.E até as faixas da era mais eletrônica e drum’n’bass de Bowie ganham aquele boost rock’n’roll. Sem suma: um ao vivaço!

Bônus: tem “Under Pressure”, música composta por Bowie e pelo Queen. Neste momento em que a nostalgia pelo Queen voltou impulsionada pelo filme Bohemian Rhapsody, a faixa no show do Glastonbury em 2000 soa incrivelmente sentimental logo que o baixo toca as primeiras notas características da canção.

Em 2000, David Bowie foi headliner da noite de domingo no Glastonbury e fez uma noite histórica, tocando um repertório considerado dos melhores da história do festival. O show nunca antes havia sido lançado na íntegra, nem em áudio e nem em vídeo. Glastonbury 2000 já chega histórico em CD, vinil, plataformas digitais e com um DVD com o show completo.

STEVEN WILSON | ⭐⭐⭐⭐⭐

Steven Wilson é sem dúvida um dos artistas que mais tenho tido satisfação em acompanhar. Gosto de todos os seus álbuns solos a ponto de não conseguir escolher um preferido e compareci a todos os shows de suas turnês, podendo testemunhar como ele evoluiu como performer no palco, a cada turnê incrementando mais o espetáculo ao vivo sem perder a intimidade com o público, sem ser brega e sem jogar confete pra galera (tudo o que usa ao vivo, do telão às projeções holográficas, têm um sentido para estar ali).

HOME INVASION: LIVE AT THE ROYAL ALBERT HALL é um ao vivo de sua mais recente turnê do álbum To The Bone (2017) gravado ao fim de uma residência de três dias no prestigioso teatro londrino. Toca o disco novo quase na íntegra e coloca diversas pérolas de outros álbuns, com destaque para a dobradinha perfeita “Home Invasion/Regret #9” e a longa “Ancestral”. Além disso, brinda os fãs recuperando algumas músicas do Porcupine Tree, como “The Creator Has a Mastertape” (que riffão foda, amigos), a balada “Lazarus”, “Even Less” (apenas Steven e sua guitarra) e a maravilhosa “Arriving Somewhere But Not Here”, entre outras.

Esse mesmo show está disponível não apenas em áudio, mas em vídeo também, com três canções a mais que não foram gravadas no terceiro show do Royal Albert Hall mas que vale a pena conferir também. Além de uma banda afiadíssima (com participação da cantora israelense Ninet Tayeb), a edição do material ficou muito boa, não repetindo a mesma e velha batida edição de shows ao vivo.

Home Invasion: Live At The Royal Albert Hall é para fãs, sem dúvida, mas atesta como esse artista do prog rock (e agora do prog pop também?) entrega o que promete ao vivo, conduzindo 3 horas de show cheio de dinâmica.

OPETH |⭐⭐⭐⭐

O Opeth é minha banda de death metal que virou prog metal preferida, mas ao vivo eles ainda são os mesmos suecos que mostram riffs incríveis, acordes soturnos, solos lindos e vocais guturais de antes. GARDEN OF THE TITANS é o show da última turnê, para o disco mais recente Sorceress (2016) e foi gravado em Red Rocks, nos Estados Unidos.

Do disco novo, apenas três músicas (incluindo o rock acelerado de “Era”). O restante é um breve passeio pela discografia, incluindo os death metals fodões “Ghost of Perdition”, “Heir Apparent” e “Demon of the Fall”, assim como a balada “In My Time of Need” e progressiva “The Devil’s Orchid”. Para fechar o show, e o disco, escolheram “Deliverance”, música que é death, prog e melodiosa tudo ao mesmo tempo e uma das preferidas do público.

Embora tenha apenas 10 músicas no repertório de Red Rocks, Garden of The Titans tem 1h30 de som. Três músicas passam dos 10 minutos e apenas duas ficam abaixo dos seis minutos de duração.

Talvez ano que vem já tenhamos um novo disco do Opeth de estúdio. Mikael Åkerfeldt, o compositor do grupo, já tem 12 novas músicas escritas. Fredrik Åkesson, o guitarrista, já tem vários solos prontos. Questão de tempo.