A tragédia das 32 crianças da República Luminosa

O madrilenho Andrés Barba ganhou notoriedade nas letras espanholas quando lançou REPÚBLICA LUMINOSA por lá e venceu o Prêmio Herralde em 2017. O seu livro chegou ao Brasil este ano pela editora Todavia e quando comecei a ler, demorei um tempinho para entrar na vibe do autor. Li os três primeiros capítulos e fiquei desconfiado de que ele enrolaria muito para contar a história das 32 crianças que surgiram nas ruas de San Cristóbal e se refugiavam na floresta. Li os capítulos 4 e 5 e, ao fechar o livro para dar uma pausa, já estava totalmente ganho pela história e pelo autor. Não precisei nem chegar ao final da obra para ter certeza de que seria uma das três melhores coisas que li este ano.

A história é contada em primeira pessoa, da perspectiva de um homem, um profissional da gestão pública, que assume a pasta da Ação Social ou Desenvolvimento Social de San Cristóbal, uma cidade espanhola onde vivem muitos Ñeê, um povo característico ao que parece. Então 32 crianças começam a aparecer na cidade, sem origem muito definida, algumas são órfãs, outras fugiram de casa em outras cidades, mas ninguém sabe como é que começaram a se reunir.

O que se sabe é que estiveram em San Cristóbal, praticaram mendicância e pequenos roubos, incomodaram a princípio e depois viraram parte da paisagem, já que, como muitos excluídos em nossas ruas, fingimos que não estão lá. Mas é difícil não ver que são crianças. Como Barba escreve: “Por mais que as víssemos miseráveis, sujas e muitas vezes afetadas por doenças viróticas, já tínhamos nos imunizado contra a situação. Podíamos comprar uma orquídea delas ou um saquinho de limão sem nos alterarmos: aquelas crianças eram pobres e iletradas como a selva era verde, a terra era vermelha e o rio Eré carregava toneladas de lama.”

Sabemos também, desde o início, que uma tragédia vai acontecer com essas crianças. Não só com as 32, mas com algumas outras que vão se juntar ao bando também, o que só aumenta a tensão na cidade, atingindo em cheio as autoridades policiais e municipais.

E então você pensa em todas as coisas que você tem e elas não, e nas coisas que você faz e elas não podem fazer. Porque elas não têm uma casa. Nem comida. Nem cama. E, como não têm essas coisas, dormem com os olhos abertos para não sentir medo. E entram em você. E você é elas.

Andrés Barba conta a história de forma alinear. O narrador está à frente dos acontecimentos e vai revelando o coração dessa narrativa aos poucos, intercalando-o com fatos que se seguiram inclusive anos após a tragédia. Isso cria uma dimensão muito maior da tragédia e da barbárie, fazendo com que República Luminosa não seja um livro apenas sobre o que houve com as 32, e sim páginas repletas de reflexões filosóficas e investigações de cunho moral que só aumentam a tensão e o escopo do ocorrido. República Luminosa, dessa forma, parece ter muito mais história do que cabem em suas 160 páginas.

Foi como ler As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides, também. Tanto na estreia de Eugenides como neste de Barba, nunca temos a perspectiva de quem realmente é o centro das atenções. As irmãs Lisbon nunca tomam a palavra para contar a sua versão dos fatos, assim como as crianças também não falam conosco, nem com o narrador e nem deixam documento para termos um insight mais seguro sobre a história delas. Tudo o que é contado sobre elas parte de terceiros ou das elucubrações do próprio narrador, formando um quebra-cabeça muito interessante.

A história que Barba quer nos contar é boa. A forma como escolhe contá-la, é ótima. As reflexões que faz – sobre a história e sobre como nós, os leitores e os sancristobalenses respondemos a ela – é o verdadeiro ouro de República Luminosa. No meio do caos e do desespero, até as melhores intenções podem se traduzir em violência, física e social.

Mas as crianças não apareciam, as patrulhas policiais retornavam todos os dias ocultando a sua frustração, e cada vez que olhávamos para a selva parecia que aquela massa tinha se voltado contra nós para defender as crianças. Se não era uma fábula moral, tínhamos que reconhecer que era bem parecida com uma.

REPÚBLICA LUMINOSA
Andrés Barba
Tradução de Antônio Xerxenesky
Editora Todavia
160 páginas

Black Hole: uma das HQs mais estranhas que já li

Eu tinha a percepção de que BLACK HOLE era uma história em quadrinhos esquisita desde que foi publicada no Brasil pela primeira vez, mais de 10 anos atrás, pela pioneira editora Conrad. A capa de cada volume era um rosto sorridente. Um sorriso meio maníaco, meio doente, meio psicopata. Um sorriso menos exagerado que o do Coringa e, talvez por isso mesmo, muito mais preciso em seu mal-estar.

Tinha muita vontade de ler, mas sempre deixava a obra de Charles Burns de lado. Fui adquirir só recentemente essa graphic novel, e adquiri a nova edição lindona da editora Darkside, com a história na íntegra e tradução do escritor Daniel Pellizzari. Nesta altura do campeonato, já sabia da importância de Black Hole para os quadrinhos alternativos e autorais e de como alçou Burns para um patamar de maior destaque na área dos quadrinhos americanos, mas nunca soube absolutamente nada do enredo ou sobre algum de seus personagens até de fato começar a ler a edição brasileira. Ainda tenho a mesma impressão do sorriso na capa, mas comecei a ler como às vezes sou levado a ver um filme sem nem ter visto o trailer.

Black Hole é um dos quadrinhos mais estranhos que já li. Publicado originalmente entre 1995 e 2005 de forma seriada, representa uma juventude de meados dos anos 70 que está descobrindo amor, sexo, usando drogas, sentindo medo e tentando viver. Os pais existem mas não estão nessas páginas. Todos eles, independente das boas notas e da beleza, acabam todos virando párias. É uma história sobre outcasts por excelência, com um elemento fantástico: por algum motivo, o contato íntimo entre esses jovens acaba contaminando-os com alguma coisa que abre fendas em seus corpos, deformando partes ou até criando novos membros.

De cara isso lembra um pouco os filmes de David Cronenberg, com aquele fundo filosófico a partir dos corpos e das mutações que ele sofre. Cronenberg faz intervenções muito mais radicais, de certa forma, o que o aproxima da ficção científica. É claro que Burns usa as mutações como uma metáfora para a juventude e suas transformações, mas foge do “tudo vai ficar bem”, colocando uma aura constante de inadequação, falta de perspectivas e de saídas. Eu já tinha lido 80% da obra e pensava que não fazia ideia de como aquilo poderia acabar.

Se a questão do corpo – de onde partem as cisões na vida dos personagens – lembra Cronenberg, o aspecto misterioso geral do livro fazia eu sentir como se estivesse vendo Donnie Darko novamente. Com certeza, é uma das coisas mais estranhas que já li nos quadrinhos. Perde apenas, talvez, para Uzamaki e Fragmentos do Horror de Junji Ito.

Mesmo sendo uma obra dos anos 90 retratando os anos 70, quando adolescentes não estavam colados aos seus celulares, Black Hole tem uma narrativa que se mantém atual até hoje, mais de 20 anos após seu início. As sombras sobre a juventude ainda são as mesmas. A arte de Burns, sem tons de cinza, abusa do nanquim para criar escuridão em 90% dos quadros, o que também quer dizer muitas coisas sobre como retrata esse público, como se algo sinistro ou oculto estivesse à espreita o tempo todo, mesmo quando Chris, Rob, Eliza e Keith tentam ser o mais afetuosos possível. Há ternura mesmo nas situações mais irracionais.

Algo de que gostei muito em Black Hole foi de como Charles Burns dispensou a procura por lógica. Os personagens “infectados” não vão ao médico, não conversam sobre suas mutações, não tentam encontrar um ponto de origem, não há busca por cura. Eles seguem vivendo, se conformando com o que viraram, se afastando do resto da sociedade e em alguns casos tentando imaginar uma vida possível idilicamente. Afinal, como é que se cura a adolescência, suas transformações e seu mal-estar? Pois é, isso não se cura.

Antes de ir para a Evergreen State College (inclusive ao mesmo tempo que Matt Groening, criador dos Simpsons, estava lá), o autor lia Batman e Superman, comprava as edições da MAD quando ainda eram sobre quadrinhos (em branco e preto e cheias de coisas “alternativas”) e Zap, de Robert Crumb, foi uma das HQs que logo tiveram impacto sobre ele. Antes de começar a escrever e publicar sua mais famosa história, Burns já estava às voltas com a ideia de falar sobre adolescentes e uma praga ou doença em histórias curtas. Quando começou Black Hole, concentrou-se muito mais em seus personagens, em como viajar para o interior deles, do que em aprofundar a trama em sim. Aliás, aprofundar os personagens é uma forma de aprofundar uma trama também, dar uma terceira dimensão a ela.

Desde 2005, quando a Pantheon Books publicou o livro completo com todas as edições de uma vez e o público da HQ foi ampliado com vendas em livrarias (e não apenas em comicshops), há o projeto de um filme. Neil Gaiman e Roger Avary (de Pulp Fiction) chegaram mesmo a escrever um roteiro, mas então a direção passou para David Fincher (de Clube da Luta) e outro teria que ser feito. Desde março de 2018, os direitos da adaptação estão com a Plan B, produtora do Brad Pitt, e sob os cuidados de Rick Famuyiwa, que lançou Dope em Sundance em 2015, como diretor e roteirista.

Impossível saber se o projeto vai vingar ou não no cinema, mas vale a pena aproveitar para ler Black Hole na íntegra. A experiência do branco e preto nas páginas de alta gramatura e capa dura da edição brasileira só aumenta o estranhamento dessa história.

BLACK HOLE
Charles Burns
Tradução de Daniel Pellizzari
Editora Darkside Books
368 páginas

David Bowie, Steven Wilson e Opeth ao vivo

DAVID BOWIE | ⭐⭐⭐⭐⭐😍

GLASTONBURY 2000 é o show do David Bowie no prestigioso festival inglês. Demorou só 18 anos para ser lançado, mas que bom que chegou até nós. É um disco duplo com 22 faixas e que passa a limpo a carreira de Bowie. Você coloca para tocar a primeira faixa e não tem a menor vontade de parar de dançar, cantar e sentir o seu pulso até que a última nota termine.

Grandes clássicos do cantor estão nesse disco, como “Heroes”, “Changes”, “Rebel Rebel”, “Ashes to Ashes”, “Starman”, “Station to Station” entre outras. Um repertório tão bem montado e uma banda tão boa que mesmo que você não tenha familiaridade com metade do setlist será possível entrar na vibe. É praticamente um The Best Of com a energia de quem foi gigante na arte, no palco, na discografia, na vida e até na morte.

Não consigo escolher melhores momentos. “Wild Is The Wind” inicia o show com uma categoria e elegância raras. “Life On Mars” é de arrancar o coração do peito. A performance vocal de Bowie é incrível. Seu inconfundível timbre de voz dá vazão a um vibrato poderoso e consciente que caso alguém não tenha reparado nas gravações de estúdio, esse show em Glastonbury faz questão de destacar. Os sete minutos de “Stay”, “Absolute Beginners” e “Let’s Dance” são um deleite, não uma enrolação. Quem sabe aproveitar o momentum ao vivo sabe como esticar as músicas sem parecer exagerado.E até as faixas da era mais eletrônica e drum’n’bass de Bowie ganham aquele boost rock’n’roll. Sem suma: um ao vivaço!

Bônus: tem “Under Pressure”, música composta por Bowie e pelo Queen. Neste momento em que a nostalgia pelo Queen voltou impulsionada pelo filme Bohemian Rhapsody, a faixa no show do Glastonbury em 2000 soa incrivelmente sentimental logo que o baixo toca as primeiras notas características da canção.

Em 2000, David Bowie foi headliner da noite de domingo no Glastonbury e fez uma noite histórica, tocando um repertório considerado dos melhores da história do festival. O show nunca antes havia sido lançado na íntegra, nem em áudio e nem em vídeo. Glastonbury 2000 já chega histórico em CD, vinil, plataformas digitais e com um DVD com o show completo.

STEVEN WILSON | ⭐⭐⭐⭐⭐

Steven Wilson é sem dúvida um dos artistas que mais tenho tido satisfação em acompanhar. Gosto de todos os seus álbuns solos a ponto de não conseguir escolher um preferido e compareci a todos os shows de suas turnês, podendo testemunhar como ele evoluiu como performer no palco, a cada turnê incrementando mais o espetáculo ao vivo sem perder a intimidade com o público, sem ser brega e sem jogar confete pra galera (tudo o que usa ao vivo, do telão às projeções holográficas, têm um sentido para estar ali).

HOME INVASION: LIVE AT THE ROYAL ALBERT HALL é um ao vivo de sua mais recente turnê do álbum To The Bone (2017) gravado ao fim de uma residência de três dias no prestigioso teatro londrino. Toca o disco novo quase na íntegra e coloca diversas pérolas de outros álbuns, com destaque para a dobradinha perfeita “Home Invasion/Regret #9” e a longa “Ancestral”. Além disso, brinda os fãs recuperando algumas músicas do Porcupine Tree, como “The Creator Has a Mastertape” (que riffão foda, amigos), a balada “Lazarus”, “Even Less” (apenas Steven e sua guitarra) e a maravilhosa “Arriving Somewhere But Not Here”, entre outras.

Esse mesmo show está disponível não apenas em áudio, mas em vídeo também, com três canções a mais que não foram gravadas no terceiro show do Royal Albert Hall mas que vale a pena conferir também. Além de uma banda afiadíssima (com participação da cantora israelense Ninet Tayeb), a edição do material ficou muito boa, não repetindo a mesma e velha batida edição de shows ao vivo.

Home Invasion: Live At The Royal Albert Hall é para fãs, sem dúvida, mas atesta como esse artista do prog rock (e agora do prog pop também?) entrega o que promete ao vivo, conduzindo 3 horas de show cheio de dinâmica.

OPETH |⭐⭐⭐⭐

O Opeth é minha banda de death metal que virou prog metal preferida, mas ao vivo eles ainda são os mesmos suecos que mostram riffs incríveis, acordes soturnos, solos lindos e vocais guturais de antes. GARDEN OF THE TITANS é o show da última turnê, para o disco mais recente Sorceress (2016) e foi gravado em Red Rocks, nos Estados Unidos.

Do disco novo, apenas três músicas (incluindo o rock acelerado de “Era”). O restante é um breve passeio pela discografia, incluindo os death metals fodões “Ghost of Perdition”, “Heir Apparent” e “Demon of the Fall”, assim como a balada “In My Time of Need” e progressiva “The Devil’s Orchid”. Para fechar o show, e o disco, escolheram “Deliverance”, música que é death, prog e melodiosa tudo ao mesmo tempo e uma das preferidas do público.

Embora tenha apenas 10 músicas no repertório de Red Rocks, Garden of The Titans tem 1h30 de som. Três músicas passam dos 10 minutos e apenas duas ficam abaixo dos seis minutos de duração.

Talvez ano que vem já tenhamos um novo disco do Opeth de estúdio. Mikael Åkerfeldt, o compositor do grupo, já tem 12 novas músicas escritas. Fredrik Åkesson, o guitarrista, já tem vários solos prontos. Questão de tempo.

The 1975 foca no conceito e atira pra todo lado na música

A BRIEF INQUIRY INTO ONLINE RELANTIOSHIPS é o terceiro disco da jovem banda inglesa The 1975 que, ao que parece, substituiu o Arctic Monkeys no quesito “jovem banda inglesa” do indie, já que o AM não é mais tão jovem (e isso é bom, não é?). O tema do disco são os relacionamentos mediados pela internet ou como ela afeta nosso comportamento.

“TOOTIMETOOTIMETOOTIME”, por exemplo, é sobre trocar mensagens com outro alguém. Já “Love It If We Made It” é mais forte, colocando na conta da sociedade atual vários problemas de nossa vida existencialmente cansada e em constante perigo.

O The 1975 é indie rock e sempre esteve muito próximo ao pop, sem nunca esconder essa faceta. Enquanto o primeiro disco deles eu tenha achado um horror, adorei o segundo e entendi qual é a da banda. O terceiro é claramente uma evolução, ampliando muito mais os horizontes musicais do grupo até o ponto de a porção pop tomar muito mais espaço e a porção roqueira estar muito mais mastigada. Aí entra a música eletrônica que faz o papel de representar a internet no contexto da obra e também serve como um dos principais eixos por onde o The 1975 consegue apresentar novas ideias.

Matt Healy é o vocalista, guitarrista e líder da banda. Jovem, carismático, tem problemas com drogas e está em recuperação do uso de heroína. Um personagem clássico do mundo pop para ser admirado pelo que consegue fazer e pelas batalhas diárias que precisa travar consigo mesmo. Ele está ótimo nos novos vídeos da banda, que eu gostaria de comentar separadamente, mas vale a pena ver os clipes de 2018. São bem pertinentes.

O grande trunfo de A Brief Inquiry Into Online Relationships é tratar bem de um tema e ter ótimas músicas e mostrar uma banda que trafega do eletrônico ao trap, do pop/rock de protesto ao pop mais Maroon 5 possível, da balada sentimental ao pop com sopros e influência de jazz. O grande problema de ABIIOR é apontar para todos os lados e parecer uma obra meio desconjuntada: fácil de entender as músicas separadamente, mas uma após a outra dentro do álbum parecem não colar bem uma com as outras. Ter 15 faixas apenas amplia essa sensação de descolamento. Talvez, se tivessem parado em 10 faixas, retirando o que está ali apenas para validar o conceito da obra, teriam acertado melhor. Mas talvez Matty e sua banda não abram mão dos momentos mais conceituais porque são parte do que quer dizer com o disco, mesmo que sacrifique a coesão.

The 1975 é uma das atrações do Lollapalooza 2019 (pela segunda vez) e uma das que vale a pena ver ao vivo, quando a porção rock’n’roll tende a dominar o aspecto geral da apresentação. Confesso que gosto muito da porção mais animada da banda, independente do gênero musical que escolha (o jazzinho de “Sincerity is Scary” ou o pop feliz de “It’s Not Living”), mas as baladas da banda me soam quase sempre melosas demais e uma recuperação de músicas românticas soporíferas e cafonas de boybands dos anos 90. “Surrounded By Heads and Bodies” é a única exceção desse disco.

Muita gente esperava que A Brief Inquiry Into Online Relationships seria um dos álbuns do ano e, dado o status de banda queridinha do momento, não duvido que apareça em alguma lista. Da minha parte, diria que nem sempre a soma de excelentes partes resulta em algo extraordinário.

Contudo, o quarto disco do grupo já está pronto e deve chegar em maio de 2019. Se chamará Notes On a Conditional Form e espero que Matt Healy e banda consigam encaixar melhor as peças e explorem outras ideias, não sendo somente uma continuação previsível de ABIIOR.

Baco Exu do Blues, Hekla e The Good, The Bad & The Queen

BACO EXU DO BLUES | ⭐⭐⭐⭐

Com Esú, o baiano Baco Exu do Blues entrou para o cânone do rap brasileiro. O álbum foi muito elogiado e muito ouvido, embora ele tivesse mais momentos memoráveis – dada a mensagem e à energia transmitida – do que pela originalidade. BLUESMAN, segundo disco do rapper Diogo Álvaro Ferreira Moncorvo, consolida o bom momento do artista e vai além das fronteiras anteriormente determinadas.

O cara é esperto. Isso já era claro em Esú, mas Bluesman expande essa percepção para a música como um todo. Love songs e blues, hip hop e R&B dividem espaço entre si e com alguns experimentos bem legais. A maior complexidade de produção musical é um dos principais méritos do disco como continuação de uma investida de sucesso.

Mas o que fica para mim é o atrevimento do rapper. Acredito que a arte deve balançar nossas certezas, contestar o mundo que aí que está e, se possível, propor novos olhares. “Bluesman”, que abre o disco, se resolve em “BB King”, que fecha os 30 min de som do álbum. O discurso de Baco Exu dos Blues, tendo a tenacidade de re-significar o blues como ferramenta de resistência, oposição e contra-opressão, é forte, premente e original.

Na primeira, ele diz: “Sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos. Primeiro Ritmo que tornou pretos livres. […] A partir de agora considero tudo blues. O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues, o funk é blues, o soul é blues, eu sou Exu do Blues. Tudo que quando era preto era do demônio e depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de blues. É isso, entenda. Jesus é blues”. Na última, arremata: “O que é ser bluesman? É ser o inverso dos que os outros pensam. É ser contra a corrente. Ser a própria força, ser sua própria raiz. É saber que nunca fomos uma reprodução automática da imagem que foi criada por eles. Foda-se a imagem que vocês criaram.”

Esú já tinha uma bela provocação em sua capa, usando o nome de Jesus para isso. O rap ágil que valorizava o povo negro – com sua cultura, religiosidade, origens africanas, papel social e musicalidade – já estavam presentes. Bluesman continua nessa mesma pegada. Baco Exu do Blues é um cara com uma missão, realizando-a por meio da música. Fico feliz que esteja sendo reconhecido e encontrar uma forma de ser comercial sem sacrificar a verve contestadora do hip hop.

Fizeram um filme oficial muito bem filmado e muito bem montado para acompanhar o lançamento do disco.

HEKLA | ⭐⭐⭐

Hekla e seu álbum Á é a dose de música estranha e diferentona da semana. Eletrônica, evanescente, sombria, fugaz e profunda. É quase ambiente e pode ser bastante desconfortável para quem não está muito acostumado. É música para os sentidos, para deixá-los aflorar, fazer a mente vagar. Os instrumentos são vaporosos e o teremim ganha protagonismo. A voz é um dos únicos traços de humanidade. Há algo de espiritual em Á, mas é mais próximo ao senso de alma deixando o corpo do que dos spirituals da música gospel.

Hekla é o projeto musical de Hekla Magnúsdóttir, uma islandesa baseada em Berlim atualmente que compõe a partir dos timbres que tira de seu teremim. É um instrumento que precisa de treino dos ouvidos, pois não há nada para tocar e dele extrair as notas e frequências necessárias. É uma antena que responde com som conforme sua mão se aproxima dela. Quanto mais perto, mais agudo o som. E apesar da liberdade de forma em Á, dá para notar que Hekla não toca qualquer nota.

Hekla também é o nome de um vulcão ativo no sul da Islândia desde o ano 1104. É conhecido entre os nativos da ilha como “Portal para o Inferno”. Já a música de Hekla, embora seja um pouco assombrada, não diria que leva ao inferno, mas com certeza é possível imaginar um meio termo entre nosso plano material e algum outro.

THE GOOD, THE BAD & THE QUEEN | ⭐⭐⭐

Faz alguns anos – 10 anos talvez? – que tudo o que Damon Albarn toca acaba saindo com uma qualidade acima da média. Tem ópera, tem trilha para uma reencenação de Alice nos País das Maravilhas, tem participação em show ao vivo de uma orquestra do Oriente Médio, tem Gorillaz (com ênfase para o The Now Now) e tem seu primeiro e único disco solo, o lindo e triste Everyday Robots. A volta do supergrupo The Good, The Bad & The Queen, com MERRIE LAND, não podia ser diferente.

No caso, esperava um álbum ainda mais marcante, mas OK, porque Merrie Land é bem bonito, redondo, elegante, muito bem arranjado e carrega aquele DNA político que tem dominado a cabeça de Albarn e de tantos outros britânicos atualmente. Mas falta um pouco mais de verve e de substância, mais força para demonstrar o descontentamento.

Além de Albarn (Gorillaz e Blur), a banda conta com o guitarrista Simon Tong (ex-The Verve), o baixista Paul Simonon (The Clash) e o baterista nigeriano Tony Allen. Todos mostrando o peso da década que se passou desde o primeiro disco, mas tocando muito, como gente grande.

Não vai entrar nas listas de melhores do ano, mas ainda assim é um destaque de 2018, seja para quem se interessa pelo trabalho de Albarn, pela música pop, folk e rock com fundo político ou quer apenas ouvir a boa e velha música inglesa rica em melodias.

Os pênaltis de Bohemian Rhapsody

BOHEMIAN RHAPSODY está longe de ser uma biografia do Queen ou de Freddie Mercury, seu protagonista. Contudo, a trajetória do grupo inglês é tão interessante e suas músicas tão boas que é fácil sair do cinema deslumbrado. Afinal, o filme foi calculado para ter um roteiro que reduz a trajetória da banda a uma fórmula de ascensão, problematização da fama e dos relacionamentos pessoais, derrocada e enfim, redenção.
Apesar de parecer muito redondinho e inspirador, é preciso não cair nas armadilhas da sétima arte. Listei seis tópicos para discutir os pênaltis do filme, suas decisões narrativas e artísticas.

1. DOCUMENTÁRIO

Neste filme, ninguém canta nada, ninguém não toca nada – mas todos interpretam muito. Se já foi legal e emocionante para muita gente ver a dublagem, imagina um documentário! Em vários momentos eu fui tirado da imersão do cinema ao ver os atores e desejar ardentemente que fosse um vídeo de arquivo da banda original no lugar. Todos os atores que interpretaram Freddie Mercury (Rami Malek), Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzelo) estão ótimos, mas uma cena documental teria o poder de dobrar a emoção.

2. HÉTERO, BI OU GAY?

O filme suaviza tanto, mas tanto a homossexualidade de Freddie Mercury que fica parecendo que ele foi bissexual durante toda a vida. Na verdade, o filme deixa claro que ele era gay (e não havia se dado conta, quando até sua esposa já sabia), mas Bohemian Rhapsody força tanto a relação dele com Mary (Lucy Boynton) que muita gente saiu do cinema achando que o cantor realmente era bi, mesmo após a separação. E quem achou ruim as cenas de beijo gay, faça-me o favor de parar de ser preconceituoso e mimizento. Até nisso o filme suavizou. As únicas cenas em que o ator aparece de forma mais sexy ou exposto são as contracenadas com Lucy. Durante as festanças em que Freddie teria ficado com vários homens, como diz seu ex-empresário, não temos no filme nem festas e nem uma cena que ilustrar isso. Ou seja: o filme DIZ que tais eventos ocorreram, mas se acovarda na hora de usar imagens para contar essa parte da história.

3. POUT-POURRI

Bohemian Rhapsody é um grande amontoado de momentos da banda. Não acredito que fosse necessário contar a história de cada música de sucesso ou de cada álbum – e de fato o filme não segue esse caminho, mas passa rapidamente por cada fase do Queen, reduzindo demais diversos contextos. É um pout-pourri. O máximo da forçação de barra foi colocar a apresentação no primeiro Rock In Rio, que ocorreu em 1985, como se tivesse acontecido em algum ponto entre 1976 e 1979. Um grande sacrifício da cronologia histórica, servindo apenas como desculpa para falar da relação de Mercury com Mary. Pelo menos a histórica apresentação de “Love of My Life” (cantada por centenas de milhares no Brasil) foi valorizada.

4. CHAPA BRANCA

O filme tem aprovação de Brian May (guitarrista da banda) e Roger Taylor (baterista), que ganharam créditos como produtores do longa. Isso explica porque é um filme tão chapa branca, que coloca o empresário como vilão, em parte responsável pelos desvios de Freddie. De outra forma, todos os membros da banda são representados como caras legais, que nunca disseram uma palavra atravessada aos outros, que nunca causaram uma briga, que nunca tiveram grandes egos. O ególatra, o estrelinha, o problema é Freddie, o cara que morreu e que não está aqui para aprovar o material e contar sua versão dos fatos. Pelo menos não esconderam a origem iraniana da família do cantor, um detalhe biográfico que muita gente que foi ver o filme não fazia nem ideia.

5. BIOGRAFIA

Assistir a Bohemian Rhapsody acende a vontade de ler a biografia da banda para saber exatamente o que aconteceu e quando aconteceu. O filme realmente recupera a memória e a importância do Queen, mas não o faz com rigor. É bem generalista e toma as liberdades de sempre para contar sua história, ajustando os fatos numa ordem que sirva à ficcionalização. Portanto, não confie no filme cegamente. Busque mais fontes, pois opções não faltam: tem A Verdadeira História do Queen de Mark Blake, Freddie Mercury – A Biografia Definitiva de Lesley-Ann Jones e Queen nos Bastidores, de Peter Hince e Maria Elizabeth H. Neilson.

6. RADIO GAGA & UNDER PRESSURE

Difícil escolher o melhor momento, visto que cada um pode sentir e ter maior ou menor conexão com uma ou outra canção da banda. Mas diria que em termos de apresentação musical, o momento de “Radio Gaga” no Live Aid em 1985 foi o que mais me tocou (e ainda que estivesse muito bem filmado e interpretado por todos os atores, senti falta de cenas reais do show). A última cena de Freddie com seu pai, antes de ir ao Live Aid, também foi bem bonita. “Under Pressure” marcou presença apenas como música de fundo, mas bem que poderia ter ganho seu momento, afinal foi o segundo hit da banda que chegou ao topo da parada inglesa. Além disso, voltando ao primeiro item desta lista, um documentário sobre a banda não perderia a chance de mostrar a colaboração do Queen com David Bowie.

Tuyo, Noname e Sleep Party People

TUYO | ⭐⭐⭐⭐⭐

A mistura de trip hop com dream pop e MPB me pegou totalmente desprevenido. A proposta do trio curitibano Tuyo em PRA CURAR, o primeiro disco do grupo, é de uma delicadeza notável e originalidade ímpar. Em o site Noize este ano, Tuyo foi categorizado com afrofolk futurista, o que parece fazer bastante sentido também, já que o apelo imagético do trio é bem forte, tão trabalhado quanto seu som.
As irmãs Lay e Lio já participaram do The Voice Brasil (como Lílian e Layane). Não venceram, o que, paradoxalmente, é sempre ótimo.

Geralmente, é quem não vence esses programas que acaba fazendo a música que importa. A voz de ambas nas faixas de Pra Curar é coisa de louco. Elas cantam e usam as cordas vocais como instrumentos, acrescentando diversos detalhes vocais que enriquecem os arranjos de cada faixa. “Vidaloca” é a indicação mais óbvia para reparar nisso.

Vozes, batidas, sintetizadores, efeitos eletrônicos e violão são os principais ingredientes do som do Tuyo, que tem em Jean seu terceiro membro. Mas diria que a mixagem do disco é aquele elemento definitivo que faz Pra Curar ser tão coerente, tão tridimensional e sensível, trazendo sons à superfície enquanto outros parecem crescer do infinito. Coisa fina!

Pra Curar é mais um álbum que se encaixa na definição: lindas melodias dizendo coisas terríveis. Uma de suas faixas é chamada ” :'( “, o que já denota muito do tipo de sentimentos que vamos encontrar. Não se deixe levar pelo nome do disco. Tuyo ainda está na vibe do primeiro EP Pra Doer.

NONAME | ⭐⭐⭐⭐

Eu estava ouvindo o novo FM! e planejava falar de Vince Staples, mas terminou o disco dele, achei meio morno, e começou a tocar “Blaxploitation” da Noname, muito mais interessante e fora da casinha. Aqui está então a indicação de ROOM 25, novo álbum dessa rapper de Chicago que faz um hip hop bem moderno, com elementos de jazz, funk e soul, preferindo uma abordagem mais orgânica, com uma boa banda, do que eletrônica.

Room 25 é seu segundo disco e foi gravado inteiramente ao longo de um mês, após Noname se mudar para Los Angeles e logo depois de terminar sua primeira turnê.

Com Lauryn Hill e Andre 3000, do Outkast, como grandes inspirações, e ex-participante de slams de poesia e noites de improviso, ela sabe mandar um recado. Seu flow é direto e mais falado do que cantado, sua música é ágil e não parece fazer muitas concessões para ser mais comercial.

SLEEP PARTY PEOPLE | ⭐⭐⭐⭐

Já viu aquela banda cujos integrantes estão vestidos de coelho, né? É o projeto musical do dinamarquês Brian Batz, o Sleep Party People, que lançou o quinto álbum, LINGERING PT. II.

Entre a fofura do dream pop e os outbursts sonoros do post-rock, o Sleep Party People continua a fazer uma música de sensações. Viajante na medida, uma produção bem acabada e melodias que não são pegajosas, mas agradam fácil. Os discos de Batz sempre tiveram entre tiveram mais de 40 e menos de 50 minutos. Lingering Pt. II, no entanto, acaba em pouco mais de 30 minutos. É rápido, mas não fica a impressão de que poderia ser maior. Como não há uma diversidade tão grande assim no disco, 30 minutos é tempo suficiente para o dinamarquês mostrar seu ótimo pop psicodélico.


BlacKKKlansman é o retrato de uma nação

E se o primeiro negro da força policial de Colorado Springs, nos Estados Unidos de 1978, se infiltrasse na Ku Klux Klan, o mais notório grupo supremacista branco da América? A ideia é tão boa que poderia virar filme. E virou o ótimo INFILTRADO NA KLAN (BlacKKKlansman), do diretor Spike Lee. Mas é uma história real, baseada nas investigações de um detetive negro, Ron Stallworth, que escreveu um livro sobre o caso, mesmo após o chefe de seu departamento ter mandado destruir todos os documentos e provas de que a operação ocorreu.

Pois é, censura oficial ocorre mesmo em países liberais e com democracia sólida, afinal.

A trama é basicamente o seguinte: Stallworth (John David Washington) se candidata para um posto na polícia de Colorado Springs. O chefão do lugar está disposto a contratá-lo para mostrar o progressismo do departamento, não porque Ron lhe pareça qualificado para o trabalho. Ron sabe o mundo racista em que vive, mas não é politizado. Ele vê um anúncio da KKK no jornal local recrutando novos membros (apenas o primeiro dos absurdos dessa história) e resolve se candidatar. Quando resolvem conhecer o tal Stallworth pessoalmente, o detetive envia o parceiro Flip (Adam Driver) em seu lugar.

Assim se arquiteta o plano. Por telefone, Stallworth mantém contato com os membros da KKK até chegar a David Duke, o Grande Mago da organização baseado na Louisiana, que está usando cargos públicos como meio de permear sua ideologia na política e legislação estadunidense. Pessoalmente, Flip, descendente de judeus, enfrenta a escória da extrema direita em meio a tiros e discursos abertamente xenófobos, racistas e homicidas.

É sempre muito complicado quando um diretor faz de sua obra um panfleto. Ao invés da história conter os elementos que nos levam a reflexão, ele toma uma posição bem demarcada e advoga abertamente por uma “causa”. Spike Lee realmente conta uma boa história com BlacKKKlansman, mas ativista como é, faz questão de colocar várias cenas na história que servem muito mais para traçar um paralelo com os EUA da era Trump do que necessárias para contar a história do negro que se infiltrou no grupo dos gorros brancos.

Embora muita gente possa considerá-lo um filme menor por esse viés mais “partidário”, eu diria que é totalmente compreensível e que aumenta, como um microcosmo, a importância do filme. É uma delícia ver os supremacistas serem enganados daquela forma, mas é terrível ao mesmo tempo acompanharmos as cenas finais de BlacKKKlansman, com filmagens documentais de marchas supremacistas e atentados ocorridos nos últimos dois anos nos Estados Unidos. Há 40 anos ainda havia grupos de ódio prontos para exterminar negros, homossexuais e judeus caso isso fosse possível. Hoje em dia, eles ainda existem e saíram da toca, sentindo-se legitimados pela ideologia do novo ocupante da Casa Branca.

– Mas também, sabe, estou atrás de camaradagem na Klan.
– Que merda cê falou?
– Camaradagem?
– Não, a outra palavra.
– A Klan?
– Sem “Klan.” É “A Organização.” O Império Invisível conseguiu permanecer invisível por um motivo. Nunca use essa palavra. Entendeu?

Aliás, o David Duke que aparece no filme como o cabeça da KKK, também aparece, ainda hoje, como o cabeça da organização, fazendo discurso público aos americanos extremados em Charlottesville.

Se BlacKKKlansman é um bom filme com um fundo panfletário, podemos lembrar do controverso clássico O Nascimento de Uma Nação (1915), filme do começo do século 20 que trouxe uma série de inovações para o cinema e é considerado um épico americano. Contudo, é um filme panfletário também, uma propaganda da KKK. Qual a diferença entre eles, então? Bem, a KKK (e seu filme) divulga uma ideologia homicida. Já o filme de Spike Lee denuncia a existência ontem e hoje dessa ideologia homicida e faz um apelo pelo respeito aos cidadãos, qualquer que seja a cor, a religião ou opção sexual deles.

Como todos os filmes baseados em fatos reais, Infiltrado na Klan toma liberdades para fazer o filme se ajustar melhor à telona e não precisar ter 3 horas de duração. Uma das diferenças que vale a pena mencionar é que enquanto o Ron Stallworth interpretado por John Washington é realmente bem parecido com o Stallworth da vida real, o personagem de Adam Driver pode não ser. Primeiro porque ninguém sabe ainda quem foi o detetive branco que se infiltrou pessoalmente na KKK nesse caso. No livro, ele é Chuck, um codinome apenas, e não Flip. E o fato de Flip ser um judeu não praticante serve para aumentar a carga dramática, já que não há evidência de que Chuck era judeu.

22 de Julho, o mediano filme de Paul Greengrass sobre o atentado extremista de direita na Noruega em 2011, deixa claro que atualmente existem grupelhos radicais espalhados por todo o mundo. Enquanto alguns partem para as vias de fato e outros são para agitação ideológica, há aqueles que esperam impactar a sociedade de dentro das instituições. Eles não querem plantar bombas na casa do presidente para tomar o poder. Querem influenciar a opinião pública e aí sim serem eleitos para mudarem as leis e os rumos de suas nações. No final da década de 1970, a investigação que originou BlacKKKlansman também averiguou a mesma coisa: David Duke estava na política e havia, naquela célula em que Ron Stallworth se infiltrou, pelo menos dois membros do Exército.

É um interessantíssimo caso em Colorado Springs que só pudemos saber que existiu em 2014, quando o Ron da vida real se aposentou da força policial e escreveu seu livro. Spike Lee toma esse episódio da história de uma cidade e o transforma em retrato de seu país. De diversas formas é também retrato do que vem ocorrendo ao mundo.

O segredo como fantasma em A Maldição da Residência Hill

Estava um pouco cético quando comecei a assistir a A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting Of Hill House). Será que esse gênero de terror com casa mal assombrada ainda poderia render algo interessante? De todos os gêneros do terror, esse me parece um dos mais desgastados e só perde, talvez, para os zumbis.

Mas a série original da Netflix prova que o subgênero ainda pode ter fôlego. É aquela velha história: tudo depende de uma boa história para contar e ter o que dizer com ela. A favor da série contam também mais três fatores, os mais determinantes de todos: bons personagens pelos quais você aprende a se importar, bons atores adultos e mirins para dar vida a essas almas torturadas e um diretor que está à frente do projeto do começo ao fim.

Até o quarto episódio eu vi A Maldição da Residência Hill com curiosidade. A partir do quinto eu comecei a realmente ver como a estrutura daquilo tudo se desenhava. O sexto capítulo é maravilhoso, com todos aqueles longos planos sequência e detalhes minuciosos, uma prova da qualidade de todos os envolvidos, da sala de roteiristas à direção de arte, dos atores e do diretor Mike Flanagan à equipe de filmagem que precisou ensaiar todas as etapas do episódio 6 durante mais de um mês antes de sua realização. Fiquei pensando seriamente que a série teria chegado ao seu ápice nesse episódio. Afinal, depois daquela demonstração de verve narrativa, de interpretação e de arquitetura de uma cena em uma série de TV, haveria como se superar?

De fato, em termos de formato, não há como superar o sexto capítulo. Porém, o sétimo confirmou algo que eu vinha sentindo há algum tempo. A série não faz você pular de susto, mas também não fica escondendo que é um terror. Elementos sobrenaturais estão presentes desde o primeiro episódio, sempre em doses suficientes para que se instale uma tensão, e não para te desviar do drama familiar, que é o que realmente importa. Ao terminar o sétimo episódio, senti o ambiente ao meu redor gelado. Não estava arrepiado, mas minha coluna estava rígida. Eu fiquei tenso de verdade.

Aliás, a Residência Hill é rica em fantasmas. A velha e doente Hazel, a insana Poppy, o homem do relógio, Abigail, a mulher do pescoço torto e o homem alto são apenas aqueles que a série escolheu para conduzir a história da primeira temporada. Existem diversos outros que aparecem por brevíssimos momentos, escondidos em cantos escuros dos enquadramentos. Não são exatamente fáceis de ver, mas uma vez que os descobrimos lá, é mais fácil entender a “reunião” deles no último capítulo – além de dar um ar de ainda mais tensão no espectador.

O sobrenatural existe na Residência Hill, como manifestação de forças além de nossa compreensão e como sintomas de culpa e medo. O contraste entre os irmãos Steve e Luke é ótimo. De um lado, um cara que ganhou a vida falando de assombrações e ele mesmo nunca viu uma e nem acredita nessas coisas. É cético mesmo quando a irmã morta aparece na frente dele. E ele tem razão em não sucumbir à histeria. Luke tem uma ligação de gêmeo com Nellie, a irmã que falece. Ele quer ficar bem, quer ficar sóbrio (das drogas e da superstição), mas acredita na manifestação sobrenatural lá no fundo do seu eu. Steve e Luke somos todos nós, afinal, quando o desconhecido se apresenta. São fantasmas ou vestígios de alguma doença mental?

Doença mental é outro aspecto evocado a todo momento em A Maldição da Residência Hill – e não é evocado apenas para despistar as ocorrências sobrenaturais. Mike Flanagan, o criador, realmente deixa o tema fluir, como no episódio 3, focado em Theo, a psicóloga, que ilustra com muita habilidade como uma criança pode processar um abuso e transformá-lo em algo metafísico. A irmã Shriley representa sobriedade e controles brutais, mas desde cedo é possível perceber que algo não está exatamente certo com ela. E a assombração relacionada a ela é outro exemplo de manifestação gerada por uma culpa ocultada por seu orgulho e vergonha.

É um bom terror pela tensão e por ser, acima de qualquer coisa, a história de uma família. De forma completamente alinear vamos juntando pedaços de histórias e entendendo quem é o que e quem fez o que e quando. Isso vale para os irmãos, para os pais, para alguns dos fantasmas e para a própria casa mal assombrada. É um labirinto pelo qual Flanagan nos conduz. Em seu final, é preciso estarmos atentos para perceber que a mãe Olivia – vivida pela ótima Carla Gugino – é a chave de tudo que nos intriga mais. Ou melhor, a maternidade e o peso de suas responsabilidades pode ser tanto uma benção como uma maldição (um tema que é bem comum em várias histórias de terror, como O Bebê Rosemary e Alien, o 8º Passageiro, entre tantos outros).

No oitavo episódio há um diálogo excelente entre Theo e Shirley após alguns eventos traumáticos. Theo tenta explicar à irmã o que é ser tomada pelo mais escuro vazio e sentir o mais absoluto nada. Isso ressoa na ideia em uma das ideias de terror mais profundas analisadas por Eugene Thacker em In The Dust Of This Planet. É interessante que A Maldição da Residência Hill acabe tentando por em palavras algo que é impossível de ser ilustrado, mas que está em sua história.

Várias dimensões do terror colidem na série. Os mortos assombram a família Crain. A doença mental também. Mas a metáfora usada que é a grande sacada dessa história são os segredos que a família guarda e que acabam virando fantasmas em suas vidas. Quase todos eles têm algo a esconder. E o que permanece oculto é o que castiga suas vidas. No caso de Steve, o cético, isso se manifesta como fim de um casamento. Para Shirley, que se preocupa em ser a fortaleza moral da família, seu segredo se manifesta como uma alucinação. Em alguns casos, como no dos gêmeos Luke e Nellie, há uma somatória de sobrenatural, segredo e doença mental.

Fantasmas escondidos nos enquadramentos, segredos e uma casa enorme com um quarto fechado. Uma série que te resume todo o drama logo no primeiro episódio, mas que precisa percorrer os outros nove para te dar um panorama mais completo. Roteiro e montagem, assim como aspectos da direção de arte, se comportam como um labirinto. O mesmo que está na abertura de Maldição da Residência Hill. Tudo isso sem pesar demais a mão e sem soar hermético, mas exige que você tenha atenção aos detalhes.

Daughters, Marianne Faithfull e Jon Hopkins

DAUGHTERS | ⭐⭐⭐⭐⭐

O quarteto de Rhoade Island quebrou o silêncio de 8 oitos anos do jeito que qualquer fã do Daughters adora: com YOU WON’T GET WHAT YOU WANT, um disco forte e violento, que causa desconforto, mas uma certa fascinação também, como uma cena tensa em filme de suspense e terror no estilo Mandy.

O riffs são repetitivos, como é característico nesse tipo de rock alternativo praticado pelo Daughters e Swans. Mas as repetições são importantes, pois serve de mantra, uma forma de a cada volta enredar o ouvinte em uma espécie de ladainha profana que instiga algo dentro do ouvinte a cada compasso.

You Won’t Get What You Want é bad vibe pra caramba. As guitarras às vezes parecem serras, a bateria uma grande marreta e o vocal de Alexis Marshall não está preocupado com melodias. Tudo bem ao estilo daquele kautrock alemão. Um tipo bem específico de rock.

A banda estava espalhada pelos Estados Unidos e precisaram aprender a compor junta novamente, mandando arquivos demos de um lado para o outro até conseguirem gravar o trabalho final. Não houve receita, apenas a fé de que haveria disco novo se fizessem canções à altura do legado da banda.

Todo o processo demorou três anos, mas o Daughters mostra que está afiadíssimo e faz um dos grandes trabalhos do ano. “Long Roads, No Turns”, “Satan In The Wait” e “The Reason They Hate Me” são preciosidades de YWGWYW.

MARIANNE FAITHFULL | ⭐⭐⭐⭐⭐

NEGATIVE CAPABILITY mostra como a maturidade é uma coisa linda mesmo. Nem sempre os mais maduros são os mais inovadores em suas áreas, mas entregam obras dotadas de uma sensibilidade que só quem não tem mais paciência para papo furado é capaz de conceber.

A cantora folk e atriz inglesa Marianne Faithfull vai direto ao ponto e preenche canções delicadas com letras sobre amor, solidão, morte (inclusive a sua própria) e temas mais gerais, como a chacina extremista no Bataclan em Paris em 2015. Tudo de peito aberto e de forma poética, sim, mas com honestidade pungente. “To die a good death, is my dream“, ela canta em “Born to Die”.

Várias faixas parecem improvisadas, como se Faithfull e banda encontrassem seus tempos on the fly. E boa parte do álbum combina um clima onírico de sintetizadores com levadas de violão, ambos sobrepostos pela voz rouca da cantora. Estrutura simples, mas produção sofisticada. Se essas características lembra os últimos discos de Nick Cave And The Bad Seeds, não é por acaso. Cave coescreveu “The Gypsi Faerie Queen” com Marianne e Warren Ellis, grande responsável pelo som contemporâneo do australiano, é um dos produtores de Negative Capability.

Há músicas completamente novas (dentre essas, destaco “In My Own Particular Way” e o rock soturno “They Come At Night”, em parceria com Mark Lanegan) e releituras como “It’s All Over Now, Baby Blue”, “Witches Song” e a histórica “As Tears Go By” que, caso você não conheça as versões originais, vão passar como músicas novas de Negative Capability, tamanha é a coesão estética do projeto. “Loniest Person” é um cover do Pretty Things de 1968.

Assim como Leonard Cohen em seus últimos álbuns, Marianne Faithfull faz agora uma espécie de canto do cisne. Não queremos que signifique e nem marque seu fim, mas se assim for, ela sairá por cima. É um álbum de sensações que só quem já viveu muito consegue exprimir.

JON HOPKINS | ⭐⭐⭐⭐⭐

O produtor inglês Jon Hopkins dá continuidade ao seu projeto de música eletrônica iniciado com o disco anterior, Immunity (2013), e consegue superá-lo com SINGULARITY, o quinto de sua carreira.

O disco saiu em maio e de lá para cá colecionou elogios. Ele merece mesmo. Com muitas faixas longas, duas acima dos 10 minutos e três acimas dos 6, ele se deu espaço suficiente para fazer composições que servem tanto para a pista de dança quanto para o cérebro. “Emerald Rush” é um excelente single! Ouvi Singularity durante uma manhã de trabalho intensa essa semana e me peguei virando a cabeça ao ritmo hipnótico de “Everything Connected” enquanto tentava encontrar uma solução para o que a tela do computador me mostrava. Estava motivado e não era por conta do trabalho – e nem por causa do café, que não bebo.

Singularity está cheio de camadas e imaginação. Batidas ritmadas podem sofrer interferências, podem se dissolver em música ambiente, oferecer alívio como uma faixa noturna de dinâmica mais baixa (como a linda “Feel First Life”), e podem voltar a soar grandes e poderosas sem precisar de grandes refrãos. Hopkins é um dos grandes caras do techno atual há alguns anos e Singularity o mantém nesse posto com folga.