Daughters, Marianne Faithfull e Jon Hopkins

DAUGHTERS | ⭐⭐⭐⭐⭐

O quarteto de Rhoade Island quebrou o silêncio de 8 oitos anos do jeito que qualquer fã do Daughters adora: com YOU WON’T GET WHAT YOU WANT, um disco forte e violento, que causa desconforto, mas uma certa fascinação também, como uma cena tensa em filme de suspense e terror no estilo Mandy.

O riffs são repetitivos, como é característico nesse tipo de rock alternativo praticado pelo Daughters e Swans. Mas as repetições são importantes, pois serve de mantra, uma forma de a cada volta enredar o ouvinte em uma espécie de ladainha profana que instiga algo dentro do ouvinte a cada compasso.

You Won’t Get What You Want é bad vibe pra caramba. As guitarras às vezes parecem serras, a bateria uma grande marreta e o vocal de Alexis Marshall não está preocupado com melodias. Tudo bem ao estilo daquele kautrock alemão. Um tipo bem específico de rock.

A banda estava espalhada pelos Estados Unidos e precisaram aprender a compor junta novamente, mandando arquivos demos de um lado para o outro até conseguirem gravar o trabalho final. Não houve receita, apenas a fé de que haveria disco novo se fizessem canções à altura do legado da banda.

Todo o processo demorou três anos, mas o Daughters mostra que está afiadíssimo e faz um dos grandes trabalhos do ano. “Long Roads, No Turns”, “Satan In The Wait” e “The Reason They Hate Me” são preciosidades de YWGWYW.

MARIANNE FAITHFULL | ⭐⭐⭐⭐⭐

NEGATIVE CAPABILITY mostra como a maturidade é uma coisa linda mesmo. Nem sempre os mais maduros são os mais inovadores em suas áreas, mas entregam obras dotadas de uma sensibilidade que só quem não tem mais paciência para papo furado é capaz de conceber.

A cantora folk e atriz inglesa Marianne Faithfull vai direto ao ponto e preenche canções delicadas com letras sobre amor, solidão, morte (inclusive a sua própria) e temas mais gerais, como a chacina extremista no Bataclan em Paris em 2015. Tudo de peito aberto e de forma poética, sim, mas com honestidade pungente. “To die a good death, is my dream“, ela canta em “Born to Die”.

Várias faixas parecem improvisadas, como se Faithfull e banda encontrassem seus tempos on the fly. E boa parte do álbum combina um clima onírico de sintetizadores com levadas de violão, ambos sobrepostos pela voz rouca da cantora. Estrutura simples, mas produção sofisticada. Se essas características lembra os últimos discos de Nick Cave And The Bad Seeds, não é por acaso. Cave coescreveu “The Gypsi Faerie Queen” com Marianne e Warren Ellis, grande responsável pelo som contemporâneo do australiano, é um dos produtores de Negative Capability.

Há músicas completamente novas (dentre essas, destaco “In My Own Particular Way” e o rock soturno “They Come At Night”, em parceria com Mark Lanegan) e releituras como “It’s All Over Now, Baby Blue”, “Witches Song” e a histórica “As Tears Go By” que, caso você não conheça as versões originais, vão passar como músicas novas de Negative Capability, tamanha é a coesão estética do projeto. “Loniest Person” é um cover do Pretty Things de 1968.

Assim como Leonard Cohen em seus últimos álbuns, Marianne Faithfull faz agora uma espécie de canto do cisne. Não queremos que signifique e nem marque seu fim, mas se assim for, ela sairá por cima. É um álbum de sensações que só quem já viveu muito consegue exprimir.

JON HOPKINS | ⭐⭐⭐⭐⭐

O produtor inglês Jon Hopkins dá continuidade ao seu projeto de música eletrônica iniciado com o disco anterior, Immunity (2013), e consegue superá-lo com SINGULARITY, o quinto de sua carreira.

O disco saiu em maio e de lá para cá colecionou elogios. Ele merece mesmo. Com muitas faixas longas, duas acima dos 10 minutos e três acimas dos 6, ele se deu espaço suficiente para fazer composições que servem tanto para a pista de dança quanto para o cérebro. “Emerald Rush” é um excelente single! Ouvi Singularity durante uma manhã de trabalho intensa essa semana e me peguei virando a cabeça ao ritmo hipnótico de “Everything Connected” enquanto tentava encontrar uma solução para o que a tela do computador me mostrava. Estava motivado e não era por conta do trabalho – e nem por causa do café, que não bebo.

Singularity está cheio de camadas e imaginação. Batidas ritmadas podem sofrer interferências, podem se dissolver em música ambiente, oferecer alívio como uma faixa noturna de dinâmica mais baixa (como a linda “Feel First Life”), e podem voltar a soar grandes e poderosas sem precisar de grandes refrãos. Hopkins é um dos grandes caras do techno atual há alguns anos e Singularity o mantém nesse posto com folga.

Richard Ashcroft, SHT GHST e MØ

RICHARD ASHCROFT

Gosto muito de Richard Ashcroft. Ele é muito importante na minha formação musical, sobretudo por causa do The Verve, mas é importante notar que seu som em carreira solo é bem menos ambicioso e muito mais açucarado. As canções se baseiam em ciclos de quatro ou cinco acordes bem comuns. Contudo, o britânico sabe fazer boas melodias e faz parecer que fazer música é fácil. De certa forma, a julgar pelo que ele vem fazendo em carreira solo, é fácil mesmo. A música tem que ser bonita e isso basta.

NATURAL REBEL é uma coleção de canções bem redondas, bem acabadas, e sem nenhuma ambição artística. É Richard, um violão e uma banda de apoio que ele pode dispensar para tocar – com muita emoção, inclusive – suas músicas sozinho num palco.

Para quem o conheceu nos anos 90, suas músicas de agora podem soar às vezes como o do roqueiro que envelheceu e ficou mais acomodadão. De fato, um Noel Gallagher da vida é muito mais explorador e arrojado ainda hoje, mas por mais que pareça cafona ver Richard se derretendo, há momentos em Natural Rebel que tocam o ouvinte, como em “That’s How Strong” e em “A Man in Motion”. As orquestrações que ele planta em cada faixa ajudam a dar aquele empurrãozinho em nossa empatia por elas.

Mas é isso. A gente é manipulado emocionalmente por táticas bem conhecidas. Não há real rebeldia para ser vista ou sentida em Natural Rebel. A salvação em “Money Money” – essa sim mais roqueira – chega tarde demais. Ashcroft tem uma excelente voz e ouvido para melodias, mas virou um projeto suave e autoindulgente demais para nossos tempos turbulentos.

SHT GHST

O psicodelismo sempre tem um espaço aqui, né? Dessa vez indico o segundo disco do SHT GHST, o 2: PHOTOS OF BREAD. É um som viajante e poderoso, moderno, que te parece estranhamente familiar e alien ao mesmo tempo.

Apesar de os músicos se apresentarem todos vestidos em spandex branco, com aqueles óculos em espiral, a parte musical é realmente séria. São bons músicos que produzem muita coisa legal a partir de improvisos.

A banda é de Seattle e fez vários shows baseados em experimentações e longas jam sessions de rock e jazz com ênfase ora no ritmo, ora na viagem. Dizem que ninguém sabe quem são as pessoas que realmente estão por trás das máscaras. Em 2017 lançaram 1: The Creation, álbum com poucas faixas, mas todas bem longas, reproduzindo essa forma de tocar e criar que já demonstravam no palco. 2: Photos of Bread é a prova de que eles também conseguem fazer músicas mais planejadas, com começo, meio e fim.

O KEXP definiu assim o álbum: “2: Photos of Bread se constrói a partir da ambição deixada pelo álbum anterior, encontrando inspiração no oceano, galáxias distantes, e na condição humana da perspectiva de um ser urgente e curioso que tenta apreender o sentido disso tudo.” Se joga!

É triste, mas as músicas de em FOREVER NEVERLAND se sucedem e uma se parece com a outra e com alguma outra coisa que já ouvimos por aí. Triste porque a estreia dela foi bem interessante, parecia uma voz nova do pop que tinha uma abordagem artística que tentava ser mais pessoal – e um tantinho ambiciosa – mas ainda acessível.

A dinamarquesa MØ foi ficando cada vez mais comercial e hoje é mais uma artista do pop escandinavo tentando soar como… uma artista do pop escandinavo que precisa soar como uma estrela produzida para pistas de NY, LA ou Miami. A faixa final, “Purple Like The Summer Rain”, é a que parece evocar melhor o lado mais original dela.

A voz de MØ continua sendo uma atração por si própria. Ela não é do tipo que faz agudos ou sustain anormais. Nada disso. É o timbre dela que é bem gostoso mesmo. Um pouco rouco e altamente adaptativo, seja ao pop mais europeu, a uma batida mais próxima do Miami bass misturada com indie (como em “Blur”). Apesar de vir de terras frias, o álbum é bem solar, para o verão, para dançar. “I Want You” não me deixa mentir.

Tem “feat.” com Charli XCX, mas é só parte do jogo se associar a nomes relevantes para um determinado público. As outras participações resultam em música melhores, como a balada “Mercy” (com What So Not e Two Feet) e Red Wine (feat. Empress Of), com seu reggae e sopro oriental, parecido com algo que o Gorillaz poderia fazer anos atrás. “Sun In Our Eyes”, com Diplo, é a faixa comercial por excelência. Os feat. são importantes para ela. Embora ela sozinha seja interessante, foi com DJ Snake e Major Lazer que a dinamarquesa conseguiu reconhecimento mundial em “Lean On”.

No Mythologies To Follow foi um marco em 2014 e apresentou MØ como um promessa do indie pop escandinavo. Forever Neverland é apenas o seu segundo disco completo e, se não a coloca no centro nervoso do pop mundial e mainstream, certamente tenta se aproximar dele mantendo alguma coisa da verve da estreia.

Justice, The Pineapple Thief, E A Terra Nunca me Pareceu Tão Distante

JUSTICE

WOMAN WORLDWIDE é o novo ao vivo do duo francês Justice. Quase 1h30 de música e lotado de bons momentos. A maioria deles têm a ver com a forma esperta como encaixam uma música na outra. É sensacional logo na primeira faixa como “Safe and Sound” antecipa “DANCE” e como “Love S.O.S” brilha lá no fim do álbum/show mesmo tendo sido antecipada em “Canon”.
E há ainda os crossovers de “Pleasure x Newjack x Civilization” e o de “DANCE x Fire x Safe and Sound”.

Woman Worldwide é um registro que mostra bom gosto para cruzar faixas, uma das maiores características da cultura DJ e que Gaspard Augé e Xavier de Rosnay, a dupla de franceses que é Justice, executam com perfeição. Além disso, conseguem fazer improvisações e manter ora o caráter pop de sua discografia e ora o caráter mais eletronicozão de respeito, passando pelos 3 discos de estúdio e variando bastante a dinâmica.

Aquele som de baixo legal que mistura rock, funk e disco soa muito bem ao vivo, um dos melhores traços do DNA do Justice, seja nas faixas mais dançantes (“Fire”) ou nas mais nervosas, como “Genesis” ou a tensa “Stress”. “Randy”, uma das faixas mais acessíveis do último disco, Woman, ganhou uma versão estendida cheia de energia, trazendo elementos mais pesados que estavam no substrato da original para uma longa seção de improviso ao vivo.

Os cruzamentos de canções faz com que Woman Worldwide seja diferente dos outros dois ao vivo do Justice e dá nova perspectiva de como suas músicas podem soar. Para ouvir bem alto.

E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE

FUNDAÇÃO é uma experiência muito boa de ouvir. O pós-rock nacional realmente conserva as características do gênero, mas dá o pulo do gato para se diferenciar, em nível planetário, colocando elementos diversos em sua música. 
A banda faz música instrumental e abre com uma pedrada grave, “Karoshi”, que é tudo o que um fã de pós-rock pode querer. Porém, ao longo do disco,vamos descobrindo novos sons, uma mistura de timbres que são muito próprios do gênero com outros bastante presentes no rock nacional contemporâneo.

A banda é formada por Lucas Theodoro, Luccas Vilella, Luden Viana e Rafael Jonke. Juntos, fizeram composições muito redondas para Fundação que ao mesmo tempo que podem remeter para outras bandas nacionais, como o Macaco Bong, também remetem a nomes como Explosions In The Sky e Mogwai antes das trilhas sonoras.

Há constante movimento em suas músicas. Bateria e baixo cuidam para manter o vigor da banda sempre presente, dando aquela sensação de vai chegar em algum lugar. E aí solos, fills, riffs e dedilhados de guitarra tratam de adornar cada composição. “Se Fosse Assim, Onde Iríamos Parar” tem aquele grave pecado de ser muito boa, porém muito curta. Será que ao vivo ela ganha uma versão estendida?

E falando em ao vivo, Fundação tem aquela qualidade de ser muito bom nos fones de ouvido, no carro e num aparelho de som bonzão. Porém, qualquer fã de shows fica sedento para ver como ficariam em cima do palco, ver uma música como “Como Aquilo Que Não se Repete” ganhar corpo e levar o quarteto do suspense à explosão roqueira.

Fundação foi produzido e mixado por Gabriel Alex e masterizado por Fernando Sanches. Trabalho de captação e mixagem de primeira. Timbres bonitos e uma ambiência que realmente dá um aspecto 3D à gravação.

THE PINEAPPLE THIEF

Por muito tempo, tive um tipo de bode com o The Pineapple Thief, a banda inglesa de rock liderada por Bruce Soord. Ouvia e achava apenas OK, sem nada demais, nenhum diferencial. Além disso, ele tentar entrar no rolê progressivo me incomodava, já que era mínimos os elementos prog em seu som. 
O último disco da banda, Your Wilderness, me fez reconsiderar. 
A qualidade das composições foi elevada e embora não tivesse nada de novo no cenário do rock, eram músicas boas.

Admiti então que não devia ouvir esperando um progressivo e isso me fez curtir bastante o que a banda tinha de melhor. Apliquei o mesmo pensamento ao novo álbum, DISSOLUTION, e percebo que venci finalmente minha resistência com o The Pineapple Thief.

Todas as vezes que deu play em Dissolution consegui ouvir fluidamente até o fim, sem querer pular faixa nenhuma e sem ansiedade para que alguma determinada música chegasse logo. Há vários pontos altos, bons refrãos (como em “Threatening War” e “Far Below”), uma seção rítmica consistente e uma banda que nunca pesa muito a mão no rock, mas cria dinâmicas muito bem.

Bruce Soord está cantando cada vez melhor e fazendo faixas cada vez mais redondas. “White Mist” tem 11 minutos e em momento algum senti que parecia enrolar ou que poderia ser menor. Ela faz valer cada minuto. A cereja do bolo é a presença, mais uma vez, do grande baterista Gavin Harrison (King Crimson, Porcupine Tree). Não exigido dele que pegue pesado, que seja extremamente ágil ou que comande compassos excêntricos, mas é nos detalhes e sutilezas que Harrison deixa suas marcas e eleve a qualidade geral da rítmica, como fica claro em “All That You’ve Got”, por exemplo. E ele sabe encaixar seus maneirismos onde eles cabem, sem ficar chamando a atenção para si.

Emma Ruth Rundle, Lenine, Ólafur Arnalds

EMMA RUTH RUNDLE

ON DARK HORSES é o que de mais próximo ao doom a Emma Ruth Rundle já se permitiu. O single “Light Song”, que não é nada leve, poderia ser uma faixa “light” da Chelsea Wolfe. O clima denso e misterioso de suas faixas, um universo entre PJ Harvey e Mark Lanegan, dá o tom do novo álbum, que vem cheio de guitarras com afinações baixas e arroubos sonoros que são intercalados com sua boa mão para melodias melancólicas e emotivas.

Emma é mais uma artista que pega o seu (o nosso) lado mais sombrio e o transforma em algo belo. “Dead Set Eyes” e “You Don’t Heave To Cry” não me deixam mentir.

Nos últimos anos, ela tem sido uma luz para minhas trevas. Marked For Death, seu álbum anterior, já tinha despertado sentimentos fortes em mim, assim como me apresentou uma artista talentosa no comando de uma boa banda. Ano passado, sua balada “The Distance” foi, sem dúvida, a música que mais ouvi no ano, isoladamente. A delicadeza, a profundidade, a sobriedade me acalentaram em diversos momentos. On Dark Horses têm uma pegada mais dark e com certeza o lado roqueiro dela está mais aflorado do que nunca. Nada de baladas acessíveis ou músicas mais comerciais. “Races”, a única que não pesa a mão, é arrastadinha também.

Pessoas noturnas e que gostam de sentimentos pesados, que parecem desabar sobre você podem se jogar nas costas desse cavalo de oito faixas e aproveitar a catarse. Emma Ruth Rundle fica feliz em ajudar.

LENINE

Lenine nunca foi um cara de uma música só. De um estilo só. No cenário da música popular brasileira, é um dos mais inventivos, transitando entre temas de novela e músicas com uma boa dose de experimentação, entre letras de amor e de crítica política, social e ambiental. Ao vivo, sua banda sempre soa mais rock ‘n’ roll. Lenine mesmo não é do tipo que fica paradinho na frente do microfone. Ele agita. 

E principalmente quando o repertório passa por músicas de álbuns como Labiata, Chão e Carbono, o guitarrista Tostoi dá uma cara de post-rock a tudo que contrasta de uma forma interessantíssima com aquelas levadas de violão tão próprias e brasileiras de Lenine.

EM TRÂNSITO é um disco de músicas inéditas do Lenine, mas que ele gravou ao vivo. Ao longo da versão deluxe (com 1h20) há canções antigas também, mas o grosso do álbum é de composições novas. Para quem já teve o prazer de vê-lo ao vivo nas últimas turnês, perceberá que as músicas novas soam bastante como várias das antigas. No palco, a MPB se mistura bem com o rock e resolvem tudo com a banda, sem overdubs, sem as adições de instrumentos e camadas que são comuns em estúdio. Em Trânsito é uma forma de Lenine experimentar um novo jeito de gravar novas composições e, de quebra, serve como registro de como sua banda soa ao vivo ultimamente.

Tem rock (“Virou Areia”), tem experimental (“Lá Vem a Cidade”), tem uma linda balada de piano (“Lua Candeia”), ritmos que eu chamo de radioheadianos (“Lá e Lô”, “Sublinhe e Revele”) e tem até música dançante (“Que Baque é Esse?”). Lenine não se reinventa. Nada que ele faça está a 180 graus do que ele produzira no passado. Mais do que sua voz, há uma forma característica de como suas músicas se comportam. Depois de dois álbuns que consumiram um bom tempo em estúdio, Em Trânsito é uma vigorosa e criativa banda fazendo alquimia musical no ato.

ÓLAFUR ARNALDS

Ólafur Arnalds é um dos meus compositores preferidos da Islândia. RE:MEMBER só mostra como sua versatilidade estilística é enorme. Erudito e eletrônico dão as mãos em seu novo trabalho, abrindo espaço para o ruído e para aquela profundida emocional tão típica da música islandesa, que congrega graça e harmonia com uma ponta de melancolia e dissonância.

Para este álbum, ele estreia um software de processamento chamado Stratus que transforma o som do piano em algo único, com timbres até então nunca usados. Ao lado do baterista e cientista da computação Halldór Eldjárn, ele passou dois anos programando o software. No entanto, ele entrega composições com uma ampla gama artística e, assim, o timbre do Stratus de forma alguma é a única estrela de re:member.

Enquanto algumas músicas flertam com o pop (“inconsist”), outras são mais calcadas no piano clássico (“nyepi”). Mas nada é sagrado. Arnalds borra as fronteiras e nos dá uma música fluida, do popular ao clássico, acessível e ainda assim misteriosamente complexa (“they sink” e “undir”). Difícil de categorizar por estilos, mas enraizada na sensibilidade do homem que a fez, um compositor que já fez erudito, música eletrônica a quatro mãos, rodou seu país natal a procura de diferentes parceiros musicais para capturar a variedade folclórica da música islandesa e que também faz trilhas sonoras.

Combinando sua habilidade no piano às novas possibilidades criada pelo Stratus, Ólafur Arnalds segue se desafiando e exercendo a criatividade.

Tá na hora de conhecer Tash Sultana

Depois de muitos singles, um bom EP e de apresentações com muita energia e improviso, a australiana Tash Sultana lança FLOW STATE, um disco imperdível. A música flui por seus dedos, pela cintura, pelas ondas nos cabelos, por seus pés. Ela faz base de reggae, dedilhados, solos de extremo bom gosto. Conhece e sabe a hora de usar cada pedal, como pesar a mão e faz praticamente tudo sozinha. Com a Fender na mão, sola feito um John Frusciante, caso ele tivesse sido criado nos anos 2000 com uma vasta gama de influências, que vão do reggae (“Mellow Marmalade”) ao rock psicodélico (“Big Smoke”), do R&B (“Cigarettes”) ao dream pop.

Tash toca pelo menos 20 instrumentos e há vídeos de suas apresentações no YouTube em que, sozinha, faz a música acontecer diante de seus olhos e ouvidos com uma fluidez incrível. Os pedais de loop dão uma bela ajuda nesse esquema de banda de uma mulher só, mas vale a pena ver como os pés da australiana são ágeis ao acionar cada um.

Voodoo chute
Why don’t you tie the noose
From circus through to senseless way

Toda a energia do ao vivo está em Flow State. Apesar de todas características que fazem dela uma presença marcante, ela compôs músicas que possuem potencial comercial e soam como o pop radiofônico que temos aí no momento. “Salvation”, uma faixa que flerta com pop e R&B, e desemboca num solo no melhor estilo Prince.

Uma guitar hero nata, simplesmente não consegue deixar de solar em praticamente todas as faixas, mudando andamento e contexto se for preciso. E são todos excelentes no timbre, na emoção, na variedade técnica e ainda ajudam a construir uma clara imagem do que ela é capaz.

Como muitos primeiros álbuns, Flow State parece se obrigar a ser diverso em seus ritmos e climas. Ela aproveita que está estreando agora no formato álbum e se coloca à prova de tudo que pode caber em seu caldeirão, como se estivesse mostrando um portfólio. É provável que no futuro os álbuns de Tash Sultana sejam mais coesos no som. Embora seja um trabalho longo, com mais de uma hora, a australiana dá vida a cada uma de suas faixas com diversas tendências da música atual.

“Harvest Love” e “Pink Moon”, por exemplo, são sua contribuição ao estilo de rock/pop praticado por nomes como Snail Mail e Soccer Mommy. Mas enquanto as duas citadas deixam seus álbuns bem acomodados dentro das músicas sentimentais, a australiana vai mais longe, estilisticamente falando. E “Blackbird”, com 9 minutos, tem um trabalho nas seis cordas do violão digno de uma virtuose. Um lado que eu, até ouvir a faixa, não sabia que a Sultana tinha.

De uma nova leva de mulheres compositoras e autoras, Tash é a mais variada e que destila qualidade técnica. Ela é compositora de todas as canções, a responsável por todos os solos, pela produção de Flow State e também tocou todos os instrumentos que ouvimos ao longo do disco. Uma artista para acompanhar de perto!

Warmest Winter revive o pós-punk brasileiro

Está entre nós THE WORLD IS A TERRIBLE PLACE YET I’M TERRIFIED OF DYING, primeiro disco completo da banda Warmest Winter, de Niterói (RJ).

Assim que coloco o álbum para tocar, as duas primeiras músicas parecem evocar o Nick Cave dos anos 80: é como se a banda colocasse uma bomba no subsolo e nos convidasse a ficar para ver tudo ir pelos ares. Já a terceira, “We Should Go Out Tonight”, muda totalmente o clima. Cancelaram o apocalipse, pelo jeito, e agora todos dançam uma espécie de Morrissey.

Curiosamente, no Bandcamp do grupo, nem Cave e nem Morrissey/Smiths são citadas como influências. The Cure sim. Interpol, Bauhaus e Sonic Youth também. Faz muito sentido realmente, mas Nick Cave ainda fala alto, principalmente na faixa-título, lembrando clássicos do australiano como “Stagger Lee” e “The Mercy Seat”.

Tem muito de Joy Division no som do Warmest Winter. Muito mesmo. A voz de Tiago Duarte Dias vem de locais escuros e melancólicos, geralmente deixando o rigor técnico de lado para dar o que a música precisa em seu sentido mais romântico ou barroco. “Mother” faz você pensar que está mesmo ouvindo algo que ficou perdido ali no pós-punk do final dos anos 80. O baixista Luiz Badia é um show a parte. Encontra brechas para poder soar melódico ou então ataca com riffs em primeiro plano, como em “Rotten Apples on an Untended Chard”.

O final de “I Mght Be Losing Control” é quase anticlimático. A música é boa, mas deixa uma ponta solta, uma sensação de não satisfação. Afinal, são só 8 canções, 35 minutos de áudio. O jeito é colocar o álbum para rodar de novo. Após todas aquelas referências anos 80, a melancolia, a voz embargada e o reverb, só mesmo “Inferno Multicor” e a paulada “The World Is a Terrible Place Yet I’m Terrified of Dying” para saciar nosso senso de encerramento, liberando a energia de forma catártica, com Tiago e Denny Visser no comando das guitarras pesadas e vociferações.

Um ano antes de The World Is a Terrible Place Yet I’m Terrified of Dying ser lançado, o vocalista da banda me procurou pelo Facebook e me falou de dois singles que já estavam disponíveis. Ouvi e fiquei bastante intrigado com “Mary Ann”. O disco ia, a princípio, sair em novembro de 2017, ao que parece, e já estava me preparando para fazer uma bela resenha para o Escuta Essa Review. Pensava até em uma pauta para o podcast do site. Mas o disco não saiu naquele ano e fiquei órfão de uma nova banda brasileira. Quando vi a divulgação do álbum semanas atrás, fiquei bastante feliz. O som deste primeiro trabalho de fato remete ao contraste que já está no nome da banda. Assim como no Interpol, há canções que não chafurdam na tristeza, mas mesmo assim há um clima melancólico que perpassa todas as canções.

Bandas legais aparecem constantemente por aí, mas nem sempre encontramos alguma que além de bater com nosso gosto pessoal é também uma versão brasileira de um som que pouco se desenvolveu por aqui. E foi justamente isso que mais curti no Warmest Winter. De certa forma, eles fazem parte de um cena aqui no Brasil, mas não há uma banda para citar que já tenha feito algo parecido. Mesmo que eu ouça algumas coisas do Legião Urbana e saiba que Joy Division tenha sido uma das inspirações, o som resultante do grupo liderado por Renato Russo tem acenos ao estilo dos ingleses, mas ainda é fundamentalmente uma banda de rock brasileira. Warmest Winter trouxe o pós-punk como estética mesmo, mesmo em suas faixas mais solares. A voz de Tiago e o jeito como se expressa, aliás, talvez não seja do tipo que receba as palmas necessárias para passar à próxima etapa de um programa como Superstar, o que é uma pena, pois ele canta bem, mas o público aplaudente global parece valorizar se impressionar apenas com vocais que sobem oitavas, não com quem tem personalidade. É isso que faz dele uma proposta original por aqui. Arriscada e visceral.

Vale a pena conhecer a estreia do Warmest Winter, banda que já chega ganhando o selo “Beautiful Melodies Telling Us Terrible Things” de aprovação.

Crappy Jazz é sonzeira de respeito

Só tem baixo, melodia, bateria e gritaria. VÉSPERA é o primeiro disco da dupla Crappy Jazz lá de Londrina. Silva Leonel no baixo e nos ruídos. Yuri Muller nas baquetas, percussão, eventuais pianos e voz.

O formato dupla no rock e na música pop tem se alastrado pelo mundo e rendeu bons grupos, sejam eles com dois nomes principais e outros músicos contratados [como no Best Coast ou no The Black Keys] ou apenas dois caras capazes de fazer uma barulheira tremenda. Yuri e Leonel seguem os passos de Jack e Meg White e, principalmente talvez, de Mike Kerr e Ben Thatcher, do Royal Blood, e sozinhos fazem de Véspera um dos discos mais legais para uma estreia brasileira que ouvi este ano.

Tem noise rock, tem uma veia punk, tem muito stoner e tem até vocais guturais de vez em quando muito bem colocados. O mais legal é que o Crappy Jazz canta tudo em português, contrariando mais uma vez aquela velha lei de que rock pesado só fica bem em inglês. Várias linhas de baixo e de percussão remetem à música brasileira também, lembrando boas bandas de rock que este país já teve que misturavam ritmos regionais e baladas ao poder dos power chords, como Raimundos e Nação Zumbi. Dessa forma, conseguem ser roqueiros e agressivos, mas não dispensam a melodia e nem soam sisudos demais.

Além de bons músicos que se bastam e sabem conduzir muito bem a dinâmica ao longo dos 34 minutos de Véspera, a dupla se preocupou muito com a qualidade da apresentação do álbum. A capa é assinada pelo artista plástico americano Jesse Draxler, que fez também a capa do disco New Bermuda do Deafheaven e criou uma interessante intervenção em um retrato do rapper Kendrick Lamar para o NY Times Magazine.

É impossível não reparar na mixagem, que consegue dar todo o peso que o baixo precisa para preencher as faixas e não deixar tudo clean demais. Sobra bastante sujeira, deixando deliciosos vestígios de garage rock. O responsável por essa mix é o próprio Yuri Muller, que inclusive assina a produção do álbum. A cereja em cima do bolo fica por conta da masterização de Chris Hanzsek, que tem no currículo trabalhos com Far From Alaska, Melvins e Soundgarden. O Crappy Jazz não está pra brincadeiras!

O que eu mais gostei em Véspera é a energia que o álbum passa ao ouvinte, da primeira à última faixa. Energia que pode ser comparada a uma dose de pó de guaraná, caso você curta ouvir música para ficar motivado, ou então comparada a raiva, caso esteja precisando de um estímulo auditivo para colocar pra fora alguma frustração. Embora o formato duo esteja se tornando cada vez mais comum, o Crappy Jazz mostra que tem personalidade. Tem os elementos punk, roqueiros e até de nu metal que várias bandas também têm, mas as influências de música brasileira são um acerto quando se trata de musicalidade e de punch, pois essas influências ajudam a manipular a dinâmica.

A banda realmente se destaca no cenário roqueiro nacional e apresentações ao vivo com muita energia, para fazer jus ao que ouvimos no primeiro álbum de Yuri e Leonel, devem impulsioná-los ainda mais.