RDR2 – Sobre cavalos, amores e mulheres – Parte 4

Perdi o Marlon, meu cavalo de guerra. Não sei o que aconteceu, mas o equino que me acompanhou por mais de 100 horas simplesmente sumiu do meu estábulo, do meu mapa, do meu RDR2. Era um excelente cavalo. Praticamente sozinho, eu e ele completamos 8 desafios de Equitação do jogo. O nono é cavalgar de Van Horn até Blackwater sem tocar a água em menos de 17 minutos, uma tarefa que só poderei completar após terminar os seis capítulos da história principal.

Por sorte, tinha capturado um Nokota azulado, um cavalo de corrida. Cavalguei muito com ele, já que meu cavalo de guerra desapareceu. Até que precisei ir a uma região geladíssima para caçar um Bisão Lendário. Eis que me deparo com duas coisas: no alto de um morro de nove, um cara congelado, morto, mas preservado, com uma arma na mão. O jogo me diz que a arma eu poderia pegar, mas não me deixa interagir com ela. Não atirei e nem joguei uma garrafa incendiária para não quebrar o homem de gelo. A segunda coisa que encontrei foi uma égua Árabe Puro Sangue!

Os Árabes Puro Sangue são animais difíceis de encontrar, caros e muito bons. Apesar do Nokota ser um animal de corrida, o Árabe é mais rápido. Demorei quase 40 minutos até conseguir domar a égua branca, que batizei de Celeste. Provavelmente será minha companheira de viagem pelo resto do jogo. Com as selas bem evoluídas que já tenham, todos os status do animal estão no máximo. RED DEAD REDEMPTION não é Red Dead Redemption sem um cavalo. A gente se afeiçoa ao animal. ❤

Meu coração se parte toda vez que preciso alvejar com minha Carabina de Repetição um animal lendário. O Alce Lendário, grande, imponente, belo e branco como a neve, caminhando perto do riacho, foi uma das coisas mais velas que vi no jogo. Mas tarefas são tarefas.

Leia a 1ª parte da crônica RDR2 – Lá Vem a Morte

AMOR E MORTE

Antes que Hosea, John Marston, Dutch Van Der Linde e o resto da gangue acabasse com os Gray e com os Braithwaite, duas famílias rivais na região de Rhodes, eu fiz papel de pombo correio. Um jovem da clã Gray, Beau, se apaixonou por uma jovem do clã Braithwaite, Penelope. Tive que levar uma carta para ela, depois uma resposta para ele. Houve uma passeata em prol do direito das mulheres votarem nos EUA de 1899 e como Penelope ia participar, acabei pegando o trabalho de dirigir a carroça e protegê-la. Deu tudo certo. No fim das contas, após os dois massacres, os jovens sobreviveram (a garota com certeza, Beau não sei, mas não me lembro de ter pipocado seu peito com meu Rifle de Ferrolho). Mas não devem ter acabado juntos. A matriarca dos Braithwaite morreu em sua mansão. Após o incêndio é possível voltar ao local – para roubar umas barras de ouro dos destroços da casa grande – e ver seu corpo carbonizado.

No alto de uma montanha – que nem é tão alta assim e ainda tem um andaime – encontrei um arquiteto enforcado. A carta que achei com ele diz que foi por amor. Ou por falta de amor, na verdade. Aparentemente ele estava esculpindo o rosto da amada na pedra. Ficou pela metade, a obra e a vida. Em uma de minhas cobranças para o agiota Strauss, encontrei a família Downes. O pai estava doente e trabalhando a terra quando o achei. Insistiu que não tinha dinheiro para pagar o empréstimo, então não tive outra saída a não ser dar porrada nele. Não usei nenhuma arma, apenas os punhos, e foi suficiente para marcar seu rosto. A mulher e o filho apareceram e me impediram de “insistir” na cobrança. Fiquei com pena da situação, do garoto vendo seu pai ser esmurrado, da mulher vendo o marido dando duro e tendo que pagar esse preço. É em momentos assim que Red Dead Redemption 2 nos lembra que por mais honrados que queiramos ser com nosso Arthur Morgan, ainda somos um anti-herói capaz de coisas terríveis e de pouco peso na consciência.

Mas o personagem é só um monte de códigos de programação e uma modelagem 3D. Não há consciência mesmo. O incrível é como a Rockstar atinge a nossa em cheio, como se fosse a bala disparada de um Rolling Block.

Passeando por uma fazendo de porcos (mas sem muitos porcos), encontrei um casal simpático, os irmãos Aberdeen. Ele é grande e corpulento. Ela é uma mulher com tudo em cima. São estranhos, porém. Ela sentou no colo dele e sem cerimônias o cara alisou a bunda dela. Comi e bebi com eles até passar mal e acordar sem dinheiro, com minha vida por um fio, em uma vala de lama cheia de outros corpos. Tomei um tônico e voltei à casa dos irmãos incestuosos. Encontrei a mulher no andar de baixo e a amarrei no chão. Assim que o grandão apareceu, meti um balote de escopeta em seu crânio, que foi debulhado pelo projétil. O corpo do homem sem cabeça caiu bem ao lado da irmã, que berrava imóvel no chão. Vasculhei a casa e peguei tudo o que podia, inclusive encontrei todo o meu dinheiro atrás de um quadro. Levei a mulher para o quarto dela no andar de cima. Joguei-a na cama, acendi uma dinamite bem ao lado dela e esperei pelo espetáculo. O grito de morte da senhora Aberdeen foi seco. Esperava que o corpo explodisse pelo quarto, o que não aconteceu. Fiquei decepcionado.

Leia a 2ª parte da crônica RDR2 – Mas Será o Cthulhu?

O’DRISCOLLS E MULHERES

Ao longo da história principal do jogo – que eu não tenho comentado muito nessas crônicas, mas quando me aproximar de seu final comentarei – estabeleceu-se uma richa entre a gangue Van Der Linde e a de Colm O’Driscoll. Algo a ver com Dutch ter matado o irmão de Colm e, como vingança, o líder dos O’Driscolls assassinou o interesse amoroso de Dutch. Agora a gangue inteira está no meio desse fogo cruzado, inclusive mulheres e crianças.

Logo no início do game, Kieran, um jovem pobre coitado que acabou se tornando um O’Driscoll, é capturado pelos Van Der Lindes. Ele salva a vida de Arthur durante uma investida contra sua antiga gangue e ganha o respeito e parcial confiança do grupo, podendo circular pelos acampamentos, trabalhar, comer e dormir como um novo integrante. A certa altura do capítulo 4, ele some do acampamento e vários personagens começam a questionar onde Kieran teria ido. Mary-Beth é uma das que mais se importam com o rapaz. Talvez rolasse algo entre eles.

Pois bem. Eis que o jogo te ludibria, mandando você conversar com a Sadie, uma mulher fodona do grupo, como se uma missão com foco nela fosse começar. No entanto, após alguns poucos diálogos, Red Dead Redemption 2 mostra um cavaleiro entrando lentamente no acampamento. Ele está com a cabeça decepada, segurando o crânio com as mãos em seu colo. É Kieran. Pobre Kieran, deve ter sido capturado pelos seus antigos colegas de gangue e torturado até revelar onde estava o acampamento de Dutch. Pagou um preço alto por mudar de lado – como se ele tivesse alguma escolha caso quisesse sobreviver mais algum tempo.

Atrás desse cavaleiro-sem-cabeça veio um enxame de O’Driscolls atirando para matar. Eu morri duas vezes durante essa invasão, mas quando completei a missão nenhum companheiro, mulher ou criança havia se ferido. Foi um dos tiroteios mais intensos que RDR2 ofereceu ao seu gameplay até agora na história principal. Em dado momento, precisei abandonar a casa que estava defendendo para ajudar Sadie. Ao chegar ao local onde ela estava, vi a mulher lutar com três O’Driscolls de uma vez e abater cada um deles. A mulher é fodona mesmo!

Sadie juntou-se ao grupo logo no primeiro capítulo de Red Dead Redemption 2, quando Arthur Morgan, Dutch e outros da gangue seguem os O’Driscolls até uma casa no meio da neve. A casa era de Sadie e seu marido, que acaba executado pela gangue invasora. Durante essa missão, limpamos a área da presença da turma de Colm e encontramos Sadie em choque com a morte a sangue frio do marido. No meio do tiroteio, sua casa, seu único patrimônio nesse oeste americano selvagem, é incendiada. Ela também entra para o grupo como forma de sobreviver. A princípio, ela é arredia e fica distante de todos do grupo em nossos diversos acampamentos de fugitivos da lei. Ela se integra de verdade quando tem a chance de portar uma espingarda e vestir camisa e calça. Ela é uma caçadora, uma mulher de ação.

Falando em mulheres fodas, a partir do capítulo 2, em um salloon de Valentine, você pega a missão paralela de ajudar um escritor a coletar relatos dos mais lendários pistoleiros do velho oeste sobre Jim Boy Calloway. Então lá vai Arthur Morgan e seu cavalo rodar o mapa de RDR2 atrás de quatro pistoleiros. São três homens e uma mulher. Dois desses homens não querem conversa, pois são procurados pela lei e por caçadores de recompensa, então quando eu apareço sou logo obrigado a enfiar um projétil no corpo deles. Já que eles não falaram nada de Jim Boy, fotografo o corpo sem vida deles para entregar ao escritor. O terceiro pistoleiro já teve dias mais gloriosos. Atualmente, no jogo, ele cuida de um sitiozinho e vive cheirando a bosta de porco. Ele acaba contando que Jim Boy era um covardão do cacete. A gente se desentende e foi preciso passar a faca nesse cara também. Tiro foto do corpo. A última da minha lista é a mulher pistoleira. Ela vive numa cabana no meio do pântano no Bayou. Me recebe desconfiada, mas quando caçadores de recompensa aparecem atrás do prêmio por sua cabeça, me uno a ela e, juntos, despachamos a corja. Foi uma batalha bem sangrenta que deixou muitos cadáveres para servir de alimento para jacaré. Ela, já idosa mas ainda mortal, posou para uma foto e contou que as história do pistoleiro Calloway não passam de histórias. Em seu bando, qualquer um(a) tinha mais coragem e iniciativa que ele.

Ela acaba abandonando sua cabana, já que seu paradeiro foi descoberto. Coloca uma trouxa de roupas em um ombro e pendura o rifle no outro. Nunca mais devo encontrá-la, mas aí está uma personagem que poderia render muitas aventuras e diálogos deliciosos.

Leia a 3ª parte da crônica RDR2 – Cadê o Gavin? Cadê a Miriam?

RDR2 – Mas será o Cthulhu? – Parte 2

Não tive mais notícias do serial killer de RED DEAD REDEMPTION 2 desde os eventos relatados na primeira parte deste diário. Encontrei uma cabana, no alto de um morro cercado de campos floridos, bem suspeita. Não havia ninguém nela e pude dar uma boa olhada (ou seja: roubar) em tudo que os sujeitos deixaram ali. Há um galpão abaixo da cabana lotado de equipamentos de caça. Me deixou com a pulga atrás da orelha, mas às vezes são apenas caçadores que vivem ali mesmo. Talvez eu nunca saiba.

O que eu sei é que enquanto procurava um urso lendário encontrei uma comprida casa decrépita. Madeira envelhecida e teias de aranha para todo lado, à beira de uma lagoa. Dentro dela encontrei fileiras de beliches, cada cama com um esqueleto humano deitado. Apenas alimentos podres e ratos, além dos cadáveres. Havia uma carta também que deixava claro que havia uma crença muito forte ali em algo cósmico e grande. Não devia ser Deus. Ou talvez seja um deus, mas um dos Antigos lovecraftianos. A forma como os corpos estão nas beliches me faz pensar que nessa cabana ocorreu um suicídio em massa.

Já tivemos um assassinato horrendo assinado com frase de Shelley. Será que agora temos adoradores de Cthulhu antes mesmo de um único conto sobre ele ser escrito?

SECUNDÁRIOS

Red Dead Redemption 2 tem personagens interessantes, ainda que suas participações na história sejam minúsculas. Em duas ocasiões, vi um coice levar a vida de um infeliz. Eles estavam pedindo ajuda e tentando recolocar a ferradura de seus cavalos. O cavalo deu um coice fatal antes que eu pudesse me aproximar para ajudar. A cena foi meio triste e meio patética e me vi sem outra alternativa a não ser saquear o corpo dos dois e os alforjes em seus animais.

Tem a mulher que sabe-se lá como conseguiu detonar sua carroça e matar seu cavalo no meio na estrada entre Emerald Ranch e Valentine e ficou debaixo de uma árvore frondosa esperando passar alguém que lhe desse carona. Subiu na minha garupa e fomos conversando durante todo o caminho. A vida dela é muito parecida com a vida de muitas mulheres de 2018. O marido não foi exatamente um grande marido e ela resolveu criar os filhos sozinha. Ia de um lado para outro em busca de emprego. O cavalo vai lhe fazer falta, mas se ficasse ali naquela estrada até anoitecer um destino ainda mais terrível poderia lhe aguardar, como ser comida por um lobo ou coiote. Ou cruzar com um cowboy mal intencionado.

Essa mulher trabalhava em Emerald Ranch e me disse que o lugar é OK, mas o dono do rancho é meio esquisito. É a segunda vez que alguém cita isso durante minhas perambulações pela área. Preciso investigar isso aí. Talvez termine em tiroteio ou pelo menos comigo sacando meu laço para amarrar o tal patrão esquisitão.

Em outra oportunidade, um senhor me pediu para ajudá-lo. Sua carroça estava debulhada no chão de terra batida na beira da estrada e o cavalo, morto. Ele queria ir até Strawberry, o povoado mais próximo, para pegar outra carroça, voltar até ali e recuperar a carga antes que seu chefe ficasse muito furioso. Concordei em ficar guardando a carga até que ele voltasse. Embora Arthur Morgan seja um bandido – orgulhoso de seu status de fora da lei do velho oeste – eu realmente tentei fazer o certo. Mas passaram-se 20 minutos e o cara não voltava. Saqueei o que ainda cabia em minha bolsa e fui embora. Espero que tudo tenha corrido bem para ele.

Contudo, me pergunto se ele me recompensaria pelo meu favor. Muitas vezes quem não te recompensa com dinheiro ou produtos acaba passando informações. Um dos homens que ajudei bem no início de minha jornada acabou me reencontrando do lado de fora do Armeiro em Valentine. Como ele não tinha grana quando nos vimos pela primeira vez, resolveu me fazer uma benesse: que eu fosse até o armeiro e escolhesse a arma que eu quisesse que ele pagaria. Foi assim que adquiri um Rifle Springfield que me ajudou demais a caçar e a pipocar inimigos há uma distância segura.

HISTÓRIAS HUMANAS

No acampamento da bandidagem do Dutch Van der Linde é possível ouvir muitas histórias curiosas. Tantas que nem cabem aqui. É necessário também manter relacionamento com as pessoas da gangue, mesmo com as que Arthur tem certos problemas. Entre os membros, dois me chamam a atenção em particular. O Reverendo Swansson é um cara que substituiu a fé pela bebedeira e pelas drogas injetáveis. Quando o encontrei entre jogadores de pôquer, ele tava alucinado no álcool. No acampamento, ele vive trêbado. Triste mesmo foi quando abri a Bíblia do Reverendo e vi que não era um livro de verdade, mas sim um estojo para suas drogas injetáveis.

Dutch é um cara interessante. Em 1899, essa coisa de Oeste sem lei nos Estados Unidos já começa a cair. O governo federal está colocando ordem no quintal. Dutch não quer se dobrar às autoridades, mas sabe que seu way of life está com os dias contados. Arthur passa por questionamentos parecidos. São parte de um grupo que um dia se orgulhou de não viver sob a régua do Estado, mas que agora veem a impotência de se manterem assim por muito mais tempo. O que eles enxergam é que não há grandeza em ser fora-da-lei, apenas o ideal romântico sobrevive. Os EUA estão mudando e essa mudança vai engoli-los. Ou matá-los. É questão de tempo e oportunidade.

Red Dead Redemption 2 é realmente um jogo interessante. O cômico e o macabro andam lado a lado, mas como todo jogo de seu tamanho, há muita passagens comoventes para se ver, mesmo que sejam detalhes minúsculos no escopo da jornada. Encontrei uma cabana no alto de um morro em Grizzles. Estava nevando e a porta estava trancada por fora. Arrombei a fechadura com uma gazua. Entrei no humilde casebre e encontrei dois jovens mortos. Deviam ter entre 10 e 14 anos. Um garoto com o corpo recostado na cama e uma garota, sobre a cama. Não dava para saber se tinham pele clara ou escura originalmente, pois a putrefação já estava adiantada. Havia pouca coisa para saquear, no entanto achei uma carta assinada pela “mãe”. Ela saíra para buscar mantimentos na cidade mais próxima e trancou os meninos em casa, selando as janelas com tábuas, para que ninguém lá de fora fizesse mal a eles. Disse que deixava água e comida suficiente para quatro dias e voltaria antes disso.

Queria que fosse possível pelo menos enterrar os corpos das crianças que encontrei. Nunca vou saber o que aconteceu com essa mãe.

Leia a primeira parte da crônica RDR2 – Lá Vem a Morte