O segredo como fantasma em A Maldição da Residência Hill

Estava um pouco cético quando comecei a assistir a A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting Of Hill House). Será que esse gênero de terror com casa mal assombrada ainda poderia render algo interessante? De todos os gêneros do terror, esse me parece um dos mais desgastados e só perde, talvez, para os zumbis.

Mas a série original da Netflix prova que o subgênero ainda pode ter fôlego. É aquela velha história: tudo depende de uma boa história para contar e ter o que dizer com ela. A favor da série contam também mais três fatores, os mais determinantes de todos: bons personagens pelos quais você aprende a se importar, bons atores adultos e mirins para dar vida a essas almas torturadas e um diretor que está à frente do projeto do começo ao fim.

Até o quarto episódio eu vi A Maldição da Residência Hill com curiosidade. A partir do quinto eu comecei a realmente ver como a estrutura daquilo tudo se desenhava. O sexto capítulo é maravilhoso, com todos aqueles longos planos sequência e detalhes minuciosos, uma prova da qualidade de todos os envolvidos, da sala de roteiristas à direção de arte, dos atores e do diretor Mike Flanagan à equipe de filmagem que precisou ensaiar todas as etapas do episódio 6 durante mais de um mês antes de sua realização. Fiquei pensando seriamente que a série teria chegado ao seu ápice nesse episódio. Afinal, depois daquela demonstração de verve narrativa, de interpretação e de arquitetura de uma cena em uma série de TV, haveria como se superar?

De fato, em termos de formato, não há como superar o sexto capítulo. Porém, o sétimo confirmou algo que eu vinha sentindo há algum tempo. A série não faz você pular de susto, mas também não fica escondendo que é um terror. Elementos sobrenaturais estão presentes desde o primeiro episódio, sempre em doses suficientes para que se instale uma tensão, e não para te desviar do drama familiar, que é o que realmente importa. Ao terminar o sétimo episódio, senti o ambiente ao meu redor gelado. Não estava arrepiado, mas minha coluna estava rígida. Eu fiquei tenso de verdade.

Aliás, a Residência Hill é rica em fantasmas. A velha e doente Hazel, a insana Poppy, o homem do relógio, Abigail, a mulher do pescoço torto e o homem alto são apenas aqueles que a série escolheu para conduzir a história da primeira temporada. Existem diversos outros que aparecem por brevíssimos momentos, escondidos em cantos escuros dos enquadramentos. Não são exatamente fáceis de ver, mas uma vez que os descobrimos lá, é mais fácil entender a “reunião” deles no último capítulo – além de dar um ar de ainda mais tensão no espectador.

O sobrenatural existe na Residência Hill, como manifestação de forças além de nossa compreensão e como sintomas de culpa e medo. O contraste entre os irmãos Steve e Luke é ótimo. De um lado, um cara que ganhou a vida falando de assombrações e ele mesmo nunca viu uma e nem acredita nessas coisas. É cético mesmo quando a irmã morta aparece na frente dele. E ele tem razão em não sucumbir à histeria. Luke tem uma ligação de gêmeo com Nellie, a irmã que falece. Ele quer ficar bem, quer ficar sóbrio (das drogas e da superstição), mas acredita na manifestação sobrenatural lá no fundo do seu eu. Steve e Luke somos todos nós, afinal, quando o desconhecido se apresenta. São fantasmas ou vestígios de alguma doença mental?

Doença mental é outro aspecto evocado a todo momento em A Maldição da Residência Hill – e não é evocado apenas para despistar as ocorrências sobrenaturais. Mike Flanagan, o criador, realmente deixa o tema fluir, como no episódio 3, focado em Theo, a psicóloga, que ilustra com muita habilidade como uma criança pode processar um abuso e transformá-lo em algo metafísico. A irmã Shriley representa sobriedade e controles brutais, mas desde cedo é possível perceber que algo não está exatamente certo com ela. E a assombração relacionada a ela é outro exemplo de manifestação gerada por uma culpa ocultada por seu orgulho e vergonha.

É um bom terror pela tensão e por ser, acima de qualquer coisa, a história de uma família. De forma completamente alinear vamos juntando pedaços de histórias e entendendo quem é o que e quem fez o que e quando. Isso vale para os irmãos, para os pais, para alguns dos fantasmas e para a própria casa mal assombrada. É um labirinto pelo qual Flanagan nos conduz. Em seu final, é preciso estarmos atentos para perceber que a mãe Olivia – vivida pela ótima Carla Gugino – é a chave de tudo que nos intriga mais. Ou melhor, a maternidade e o peso de suas responsabilidades pode ser tanto uma benção como uma maldição (um tema que é bem comum em várias histórias de terror, como O Bebê Rosemary e Alien, o 8º Passageiro, entre tantos outros).

No oitavo episódio há um diálogo excelente entre Theo e Shirley após alguns eventos traumáticos. Theo tenta explicar à irmã o que é ser tomada pelo mais escuro vazio e sentir o mais absoluto nada. Isso ressoa na ideia em uma das ideias de terror mais profundas analisadas por Eugene Thacker em In The Dust Of This Planet. É interessante que A Maldição da Residência Hill acabe tentando por em palavras algo que é impossível de ser ilustrado, mas que está em sua história.

Várias dimensões do terror colidem na série. Os mortos assombram a família Crain. A doença mental também. Mas a metáfora usada que é a grande sacada dessa história são os segredos que a família guarda e que acabam virando fantasmas em suas vidas. Quase todos eles têm algo a esconder. E o que permanece oculto é o que castiga suas vidas. No caso de Steve, o cético, isso se manifesta como fim de um casamento. Para Shirley, que se preocupa em ser a fortaleza moral da família, seu segredo se manifesta como uma alucinação. Em alguns casos, como no dos gêmeos Luke e Nellie, há uma somatória de sobrenatural, segredo e doença mental.

Fantasmas escondidos nos enquadramentos, segredos e uma casa enorme com um quarto fechado. Uma série que te resume todo o drama logo no primeiro episódio, mas que precisa percorrer os outros nove para te dar um panorama mais completo. Roteiro e montagem, assim como aspectos da direção de arte, se comportam como um labirinto. O mesmo que está na abertura de Maldição da Residência Hill. Tudo isso sem pesar demais a mão e sem soar hermético, mas exige que você tenha atenção aos detalhes.

Sabrina contra o patriarcado e o “problema” da fé

Quem diria que um seriado adolescente como O MUNDO SOMBRIO DE SABRINA (Chilling Adventures of Sabrina) colocaria o dedo ardendo com as chamas do abismo na ferida aberta das religiões?

Embora seja baseada na personagem dos quadrinhos da Archie Comics, como aquela outra Sabrina Aprendiz de Feiticeira dos anos 90, esta nova Sabrina Spellman se baseia numa renovação mais encapirotada da garota. Além do nome, das duas tias (Zelda e Hilda) e do gato preto Salem, o clima, as aventuras e as magias são totalmente diferentes. A nova Sabrina da Netflix vai à floresta durante a noite para escrever seu nome – com seu próprio sangue – no Livro da Besta, conjura espíritos e cruza linhas entre a vida e a morte que a Aprendiz de Feiticeira jamais sonhou existir.

Sabrina é interpretada por Kiernan Shipka (quem acompanhou Mad Men viu essa menina crescer) que é uma fofa. Sua família é devotada à magia, falam de necromancia e citam o Demonomicon na mesa do café da manhã. Ela se lava com água e sabão como um tipo de banimento para afastar uma possível maldição e faz projeção astral. Embora exista algo de Harry Potter na série (a protagonista perdeu os dois pais e é tratada pelo próprio Satã como uma espécie de Escolhida em formação que precisa frequentar uma escola de bruxaria), existem características que fazem a personagem se destacar.

Para começar, Sabrina Spellman é uma bruxa que veio para contestar o status quo – no mundo mágico e profano. Ela tem uma amiga negra, uma amiga com disforia de gênero (que não se identifica com seu corpo biológico) e um primo feiticeiro abertamente gay e que não é representado em momento algum de forma caricata. Juntos, questionam o patriarcado na escola, em suas vidas particulares e em suas religiões. Há um diálogo logo nos primeiros episódios em que a tia Zelda pergunta se o namorado de Sabrina à deflorou, pois as bruxas devem comparecer ao seu peculiar batismo com a virgindade preservada para o Senhor das Trevas. A garota retruca: “Por que ele tem que decidir o que faço com meu corpo?”

Os dogmas e as fés cegas são colocadas em xeque também. Se a sua igreja cristã ainda mantém regras rígidas e vetustas a serem seguidas, o coven da Igreja da Noite do Mundo Sombrio de Sabrina também tem suas regrinhas doutrinárias e moralistas que parecem incidir com especial peso sobre as mulheres. Mas Sabrina contesta essas regras, um misto da petulância adolescente e crítica social/religiosa.

– Mas eu quero as duas coisas. Quero liberdade e poder.
– (risos) Ele nunca te dará isso. O senhor das trevas. A ideia de você ou qualquer uma de nós ter isso o aterroriza.
– Por quê?
– Ele é homem, não é?

Essa inversão de polos é realmente interessante. Embora a religião das bruxas seja um pouco estereotipada, há uma parte dela bastante chocante para quem assiste esperando emoções mais amenas para o público jovem. Há canibalismo, há decapitações, há assassinato, há tia Zelda dizendo “Satã seja Louvado”, há uma enorme estátua de Baphomet bem no meio do pátio da escola. Pais conservadores e cidadãos de bem, escondam seus filhos! Ainda assim, essa religião das bruxas é representada como uma contraparte das religiões monoteístas mainstream.

Existe um momento, logo no terceiro episódio do seriado, em que parece que toda a parte mais encapetada vai se resolver na moral cristã, o que tornaria o sombrio mundo de Sabrina muito menos diabólico. Mas como é um seriado dos mesmos produtores de Riverdale, temos alguns subterfúgios mal planejados e desenvolvidos às pressas para colocar o roteiro no trilho que desejam (não dá pra exigir o mesmo nível sofisticação de Better Call Saul em tudo que a Netflix lança, afinal). Porém, há pelo menos quatro situações em que Sabrina escolhe o caminho das bruxas e da magia negra – e não o do cristianismo – para resolver seus problemas.

CHILLING ADVENTURES OF SABRINA

Em um deles, ela precisa fazer um exorcismo, mas exorcismo é coisa de padre católico, bruxas não são ordenadas para isso. Achei realmente que ela recorreria a um sacerdote, mas encontraram uma forma de realizar o ritual (a série é cheia de rituais, aliás) apenas com bruxas. E bruxas mulheres invocando outras bruxas mulheres, reais ou fictícias. Uma das cenas mais emocionantes da série do ponto de vista de contestação do patriarcado.

As tias de Sabrina, Hilda (Lucy Davis) e Zelda (Miranda Otto) me lembraram demais o temperamento de Caim e Abel em Sandman, do Neil Gaiman. Elas são parte essencial da atração, seja para a comédia funcionar, principalmente com Hilda, ou para o dogma da Igreja da Noite se fazer presente e atuante na casa da família Spellman – função que cabe a Zelda. Já a Sra. Wardwell (Michelle Gomez) desempenha um papel extremamente ambíguo que é muito bem-vindo, embora pareça conveniente demais em boa parte da trama.

Em Sabrina, a protagonista é impetuosa e acha que tudo vai se curvar à sua vontade. E em boa parte das vezes, ela acha a forma de fazer valer seu desejo e o que julga certo, mesmo que para isso tenha que usar métodos do lado sombrio da força. Contudo, ela é uma heroína que falha e que precisa aprender com os erros. E mesmo seu maior erro de cálculo humano e mágico na primeira temporada abre a porta para a transformação que Sabrina precisa para preparar o terreno narrativo do segundo ano. Ao que tudo indica, a luta contra o patriarcado vai voltar com ainda mais força e propósito.

Não é um seriado perfeito. Ao mesmo tempo que o roteiro tenta encontrar saídas mais adequadas ao tal “mundo sombrio” de Sabrina, às vezes toma atalhos incômodos. Contudo, mesmo que seus personagens religiosos sejam de uma igreja satânica, a demonstração da moral religiosa e da fé que molda pessoas e dá sentido a tantas existências é o há de mais acertado na série. Afinal, a dualidade entre obediência à liturgia e seguir a vontade individual existe em todas as comunidades religiosas. De forma espelhada – ou invertida, como é mais o estilo do diabo – O Mundo Sombrio de Sabrina fala a qualquer um que sentiu o peso da ideologia (da cruz, da lua, da estrela, da Nova Era, do pentagrama) e, por isso, o programa serve à sua mesa os problemas da fé na modernidade.

A princípio, Sabrina seria um seriado irmão de Riverdale. Além do mesmo produtor, a mesma equipe que trabalhou atrás das câmeras em um, assumiu as filmagens do outro. Mas ao ser adquirido pela Netflix, o cordão umbilical entre as duas foi cortado. Embora um crossover não esteja confirmado, a primeira temporada de Sabrina já deixa claro que está no mesmo universo de Riverdale.

Bojack Horseman: 5ª temporada é um pedido de ajuda

Nem sempre as temporadas mais bem estruturadas são as melhores. Acho que a quinta temporada de BOJACK HORSEMAN não supera a terceira em termos de como pode ser sombria e despirocada, mas é a temporada que, até agora, me parece a mais madura.

O seriado sempre teve a metalinguagem em seu DNA. Uma série na TV sobre um ex-astro de seriados da TV vivendo em Hollywoo(d) e tentando viver a vida de forma hedonista recheada de autossabotagem. Uma ironia meio surreal, como só desenhos conseguem fazer, da vida real de astros em Los Angeles e seus problemas. Piadas com atores reais são recorrentes.

Na quinta temporada, BoJack consegue finalmente um emprego em Philbert, uma nova série de TV policial. Aí a metalinguagem se completa: um seriado falando sobre um seriado e como ele é feito, com todas as inseguranças e incertezas, questões de ego e dificuldades criativas entre roteiristas, produtores e atores. Isso é muito bem feito ao longo da temporada, pois há piadas e ironias com todo o processo de criação de uma série. Nada escapa aos olhos do roteiro: desde os problemas para financiar uma produção e como se comporta o mundo de CEOs do entretenimento até o flagrante machismo e como ele acaba sustentado pelas atrizes que, embora expostas a isso, se apegam ao fato de terem um papel que pague as contas.

Mas para quem vinha acompanhando BoJack, vê-lo trabalhando é uma novidade. Por quatro temporadas tudo o que ele fez foi covardice e autossabotagem, agindo com cinismo e niilismo. É um homem/cavalo empático, mas abre mão da empatia em favor de seu egoísmo e idiossincrasias. Dessa vez, embora continue com suas bojackices, ele se propõe a fazer algo e vai até o fim. É ao final desse processo que a série deixa ele mais solto para ser a existência caótica de sempre. Mas senti um respiro nesta temporada. É o mesmo BoJack, mas menos previsível.

O Sr. Peanutbutter (ou Manteiga de Amendoim) passa por algo parecido. É o mesmo cachorro de sempre, mas pela primeira vez senti um aprofundamento de sua consciência sobre o que fez e o que ainda faz. Tem todo o imbróglio com sua nova namorada e aquele maravilhoso episódio das festas de Halloween (“Mr. Peanutbutter’s Boos”) que, pelo menos para mim, colocou uma nova camada sobre a personalidade dele, melancolicamente, acabou fazendo com que pelo menos eu me identificasse em algum grau e enxergasse meus próprios erros.

Eu passei pelo mesmo quando o meu pai morreu e estou passando pelo mesmo agora. É tipo aquela série Becker, com o Ted Danson. Eu vi a série inteira achando que ia melhorar, mas não melhorou. Tinha tudo pra dar certo, mas fizeram dar errado. Quando cancelaram, fiquei muito chateado. Não por gostar da série, mas por saber que podia ser bem melhor.

Mas já era, e perder os pais é assim.

A Princesa Carolyn é outra que desde a quarta temporada tem tido um arco bem interessante e que chega ao completo destaque agora. Workaholic pra caramba, ela tenta manter a carreira em dia e lida com a vontade de exercer a maternidade. Ganha um episódio só seu praticamente (“The Amelia Earhart Story”) e vemos, sem sombra nenhuma de dúvidas, como ela já é uma mãe para todos aqueles adultos que ficam no pé dela e não sabem lidar com aspectos de sua vida. Mas isso não é ser mãe. Isso são os outros não sendo adultos ou bem resolvidos ou confiantes o suficiente.

E aí temos o “Free Churro”. O longo monólogo de BoJack ao lado do caixão da mãe. 20 minutos de câmera congelada no Cavalo-Homem. A gente acha que vai ser de partir de o coração, e é mesmo, mas no meio o personagem não consegue nem na morte da mãe deixar de fazer bojackice. A gente entende a mágoa dele que leva ao cinismo e percebe que o cinismo dá lugar ao buraco que ficou ali no lugar do peito durante a vida dele. E aí o roteiro dá aquela virada nos últimos segundos, só para nos lembrar que estamos no mundo do desenho animado BoJack Horseman. Se cabe algo derivado dos Grandes Dramas da TV, cabe algo de surreal das sitcoms mais manjadas.

Não achei a quinta temporada tão pesada quanto à quarta, mas não é porque o roteiro não lide com questões difíceis e deprês. É que os episódios estão melhor estruturados para contrapor uma sensação à outra. Ou então uma situação, por pior que seja, é enquadrada com um humor retardado de desenho animado. Mas há cenas que tratam de coisas seríssimas que acabam fugindo a essa regra. Uma delas é a da nudez frontal de BoJack na série que está gravando. Outra é a da briga com sua parceira de cena, Gina Cazador, que prefere deixar o cavalo escroto se safar para não virar mais uma vítima aos olhos do público e da indústria do entretenimento.

Os personagens apresentam desenvolvimento, mas não resolução. A imagem de Diane dirigindo ao final é icônica, emoldurada pela canção “Under The Pressure” do The War On Drugs. Peanutbutter deixa sua personalidade falar mais alto que sua razão e que seu coração. BoJack acaba aceitando seu problema de saúde mental, mas conhecendo a figura, já podemos prever como seu cinismo tratará seu corpo e sua mente na sexta temporada.

A crítica ao entretenimento americano, aos seus personagens da vida real e aos seus meios de produção, está mais aguda do que nunca, já que a metalinguagem atinge seu ponto máximo. Diria que é uma crítica ao “way of life” americano também, mas isso quase todas as séries dramáticas conseguem ser também. Agora penso que cada passo em falso de BoJack é um pedido de ajuda e que nós, se nos identificarmos um pouco que seja com ele, também precisamos de ajuda.

Bojack. I see you!

Strange Angel, Ciência e Magia Sexual

Se você é um interessado em magia e não é um babaca, provavelmente tem algum interesse em ciência também. Jack Parsons, uma figuraça do século 20, teve um curioso papel na ciência de foguetes dos Estados Unidos e na Thelema, a religião ou filosofia oculta criada por Aleister Crowley e que tinha uma célula de seguidores em Los Angeles nas décadas de 30 e 40. De homem da ciência, com uma inabalável fé na possibilidade de colocar o homem na órbita da Terra, passou a ser um reconhecido thelemita e acabou inclusive associado ao criador da Cientologia.

É essa trajetória que o seriado STRANGE ANGEL, da CBS, busca retratar baseando-se no livro de mesmo nome que é a biografia de Parsons. O seriado é muito interessante para qualquer tipo de público adulto, mas para quem tem algum interesse ou conhecimento mesmo que superficial em magicka, Strange Angel adquire um paladar mais doce e curioso.

Contudo, não vá esperando que a série seja uma introdução didática em Thelema. O roteiro é bem construído o suficiente para colocar os temas da religião em pauta, frases bem conhecida d’O Livro da Lei, símbolos, fotos e termos que estudantes ou praticantes de magia notarão com prazer, mas nada panfletário e nenhum ritual ali é mostrado de forma redundante. Mark Heyman, o showrunner, tomou o cuidado de alicerçar tudo no drama de Jack Parsons com sua esposa, com seu amigo Richard e com a comunidade científica, com seu novo e impetuoso vizinho Ernst Donovan e com sua vontade de fazer um foguete funcionar e revolucionar a ciência.

Uma das características mais conhecidas da Thelema é a sua prática fundamentada em magia sexual, o que talvez leve a crer que o seriado apostaria muito em cenas quentes – o que não ocorre com a frequência que poderia se esperar. Mas devo dizer que apesar de raras, todas as cenas de rituais são belamente filmadas, sobretudo a que ajuda a fechar o 10º episódio. Mas não espere nada muito explícito.

Mas antes de seguir o caminho da magia, Parsons, vivido pelo ator Jack Reynor, é um aspirante a cientista e Strange Angel gasta bastante tempo com a ciência. Na década de 30, a ciência de foguetes era coisa de ficção e ninguém tinha ideia de como torná-la realidade. Parsons não era acadêmico o suficiente para merecer credibilidade. O seriado também nos faz pensar em quais eram as dificuldades de se construir um foguete e, pelo menos eu, não fazia ideia de que o tipo de combustível era tão determinante nessa história. Você se pega, no meio do seriado, entendendo qual é o desafio teórico e técnico e como a eclosão da Segunda Guerra ajuda a impulsionar Parsons e seu time de desenvolvedores.

AMOR SOB VONTADE

Vale lembrar que, alguns séculos atrás, ciência e magia eram campos de estudos sobrepostos que levavam o homem a conhecer e entender os mecanismos da natureza. A racionalização extrema ainda não havia separado as duas áreas. Hoje vivemos uma época em que diversos pesquisadores já entendem os limites da ciência e qual é o papel de saltos de fé que talvez uma teoria física não seja capaz de mover corações humanos, mas a ressignificação mitológica ou religiosa, sim. Strange Angel aproveita esse momento e também costura o fazer científico com a magia. Não chega a misturar as duas coisas, mas deixa implícito como cada uma alimenta o conhecimento humano a seu modo.

René Descartes relatou que, uma noite, teve uma visão de três fantasmas e isso mudou o seu jeito de pensar. Ele era um matemático francês que você provavelmente conheça das aulas de Filosofia e da máxima “Penso, logo existo”. Essa mudança acabou mudando a forma como a ciência era encarada. Ironicamente, o que começou com a interferência de seres sobrenaturais levou ao início de um mundo [e uma ciência] mais racional. E a crença no racionalismo, levada a cabo pelo projeto do Iluminismo, falhou, como sabemos. O avanço científico e da razão transformou nosso mundo, e nem sempre de maneiras boas. Ou melhor: se o propulsor a jato era o sonho de levar o homem à Lua, foi desenvolvido com a missão de criar mísseis e caças mais potentes, chegando a ser o tipo de propulsor de armas nucleares.

A divagação do parágrafo anterior não está, ainda, na primeira temporada da série que terminou na semana passada. Mas serve como uma contextualização. Também não quero dar a impressão de que a série prega a junção dos dois campos, porque não é isso o que ela faz. Os primeiros 10 episódios costuram, isso sim, na figura de Parsons, como a magia thelemita o ajudou a ver com mais clareza – ou o induziu a isso – o que precisava fazer e no que insistir para realizar seu sonho, sua vontade. O episódio final é soberbo em como justapõe uma conquista de Parsons e um ponto de mudança enorme para sua esposa, Susan, interpretada pela atriz Bella Heathcote.

Jack Parsons tem duas biografias. Sex and Rockets, de John Carter, e Strange Angel, de George Pendle. É nesta última que a série da CBS se baseia. Coisas que aconteceram no espaço de alguns anos na vida de Parsons são rearranjados para ocorrerem concomitantemente durante os episódios da série. O envolvimento do homem com o marxismo, por exemplo, não faz parte da série. Nomes também foram alterados. A esposa de Jack é Helen, não Susan. A irmã de Susan, que teria importância mais para a frente nessa trama, é Sara, mas na série mudaram para Patty. O Magus da loja thelemita Ágape chamava-se Wilfred, e no programa foi transformado em Alfred.

Ernst Donovan, o vizinho interpretado pelo talentoso Rupert Friend que recruta Jack para a religião de Crowley, nunca existiu na vida real, mas foi uma criação interessante para mexer as peças. Qualquer um que tenha lida o Lieber Null do magista Peter J. Carroll e que tenha prestado atenção ao que o autor diz sobre a risada de uma mago verá que Donovan foi muito bem concebido. Outra ponte que o personagem de Friend faz com a Thelema tem a ver com a disposição de não só não se importar com relações entre pessoas do mesmo sexo, mas saber que elas são necessárias também dentro do caminho mágico estabelecido por essa doutrina.

Elizabeth Lippman/CBS ©2018 CBS Interactive

AD ASTRA PER ASPERA

Strange Angel não é um sucesso de público, mas é uma série muito bem feita e que tratou com muito carinho seu primeiro arco, desenvolvendo muito bem seus personagens até um ponto de transformação e até mesmo a ciência de foguetes dá um passo além. Não sabemos onde vai o seriado, mas sabemos como termina a história de Parsons.

Seguindo a biografia, na próxima temporada, talvez vejamos como Jack e seus amigos cientistas fundam a ou as empresas de propulsores a jato e como ele se torna o líder da loja Ágape e como seus rituais de magia sexual, tão característicos da Thelema, vão ser sua ruína na própria empresa. Talvez L. Ron Hubbard, escritor de ficção-científica e criador da Cientologia, dê as caras e a relação com a esposa e a cunhada mude gradualmente.

Mark Heyman concebeu Strange Angel como uma história em 5 arcos, ou cinco temporadas. Mas talvez o show não chegue tão longe. Tomando alguns atalhos, consigo pensar em 4 ou até 3 temporadas como suficientes para chegar ao final da história de Parsons e, quem sabe, preparar um spin off que conecte à Cientologia.

Foi no fim da década de 1990 que as redes de TV americanas, principalmente as de cabo, perceberam que poderiam fazer boa televisão com histórias sofisticadas. Família Soprano foi a grande revelação. De lá para cá, várias embarcaram nessa. A CBS All Access, sua divisão de streaming, começou com dois seriados novos, The Good Fight e Star Trek: Discovery, mas ambos derivados de ideias já conhecidas. Strange Angel, originalmente na AMC, é a primeira série totalmente original do canal. Jordan Peele [diretor de Corra], inclusive, está ressuscitando The Twilight Zone (Além da Imaginação) para a rede. Strange Angel é a tentativa do canal de ter o seu grande e reconhecido conteúdo original.

Eu gostei bastante da primeira temporada e vou fazer esse ritual do Rupert Friend aí para garantir que a CBS renove para a segunda temporada. 🙂