O segredo como fantasma em A Maldição da Residência Hill

Estava um pouco cético quando comecei a assistir a A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting Of Hill House). Será que esse gênero de terror com casa mal assombrada ainda poderia render algo interessante? De todos os gêneros do terror, esse me parece um dos mais desgastados e só perde, talvez, para os zumbis.

Mas a série original da Netflix prova que o subgênero ainda pode ter fôlego. É aquela velha história: tudo depende de uma boa história para contar e ter o que dizer com ela. A favor da série contam também mais três fatores, os mais determinantes de todos: bons personagens pelos quais você aprende a se importar, bons atores adultos e mirins para dar vida a essas almas torturadas e um diretor que está à frente do projeto do começo ao fim.

Até o quarto episódio eu vi A Maldição da Residência Hill com curiosidade. A partir do quinto eu comecei a realmente ver como a estrutura daquilo tudo se desenhava. O sexto capítulo é maravilhoso, com todos aqueles longos planos sequência e detalhes minuciosos, uma prova da qualidade de todos os envolvidos, da sala de roteiristas à direção de arte, dos atores e do diretor Mike Flanagan à equipe de filmagem que precisou ensaiar todas as etapas do episódio 6 durante mais de um mês antes de sua realização. Fiquei pensando seriamente que a série teria chegado ao seu ápice nesse episódio. Afinal, depois daquela demonstração de verve narrativa, de interpretação e de arquitetura de uma cena em uma série de TV, haveria como se superar?

De fato, em termos de formato, não há como superar o sexto capítulo. Porém, o sétimo confirmou algo que eu vinha sentindo há algum tempo. A série não faz você pular de susto, mas também não fica escondendo que é um terror. Elementos sobrenaturais estão presentes desde o primeiro episódio, sempre em doses suficientes para que se instale uma tensão, e não para te desviar do drama familiar, que é o que realmente importa. Ao terminar o sétimo episódio, senti o ambiente ao meu redor gelado. Não estava arrepiado, mas minha coluna estava rígida. Eu fiquei tenso de verdade.

Aliás, a Residência Hill é rica em fantasmas. A velha e doente Hazel, a insana Poppy, o homem do relógio, Abigail, a mulher do pescoço torto e o homem alto são apenas aqueles que a série escolheu para conduzir a história da primeira temporada. Existem diversos outros que aparecem por brevíssimos momentos, escondidos em cantos escuros dos enquadramentos. Não são exatamente fáceis de ver, mas uma vez que os descobrimos lá, é mais fácil entender a “reunião” deles no último capítulo – além de dar um ar de ainda mais tensão no espectador.

O sobrenatural existe na Residência Hill, como manifestação de forças além de nossa compreensão e como sintomas de culpa e medo. O contraste entre os irmãos Steve e Luke é ótimo. De um lado, um cara que ganhou a vida falando de assombrações e ele mesmo nunca viu uma e nem acredita nessas coisas. É cético mesmo quando a irmã morta aparece na frente dele. E ele tem razão em não sucumbir à histeria. Luke tem uma ligação de gêmeo com Nellie, a irmã que falece. Ele quer ficar bem, quer ficar sóbrio (das drogas e da superstição), mas acredita na manifestação sobrenatural lá no fundo do seu eu. Steve e Luke somos todos nós, afinal, quando o desconhecido se apresenta. São fantasmas ou vestígios de alguma doença mental?

Doença mental é outro aspecto evocado a todo momento em A Maldição da Residência Hill – e não é evocado apenas para despistar as ocorrências sobrenaturais. Mike Flanagan, o criador, realmente deixa o tema fluir, como no episódio 3, focado em Theo, a psicóloga, que ilustra com muita habilidade como uma criança pode processar um abuso e transformá-lo em algo metafísico. A irmã Shriley representa sobriedade e controles brutais, mas desde cedo é possível perceber que algo não está exatamente certo com ela. E a assombração relacionada a ela é outro exemplo de manifestação gerada por uma culpa ocultada por seu orgulho e vergonha.

É um bom terror pela tensão e por ser, acima de qualquer coisa, a história de uma família. De forma completamente alinear vamos juntando pedaços de histórias e entendendo quem é o que e quem fez o que e quando. Isso vale para os irmãos, para os pais, para alguns dos fantasmas e para a própria casa mal assombrada. É um labirinto pelo qual Flanagan nos conduz. Em seu final, é preciso estarmos atentos para perceber que a mãe Olivia – vivida pela ótima Carla Gugino – é a chave de tudo que nos intriga mais. Ou melhor, a maternidade e o peso de suas responsabilidades pode ser tanto uma benção como uma maldição (um tema que é bem comum em várias histórias de terror, como O Bebê Rosemary e Alien, o 8º Passageiro, entre tantos outros).

No oitavo episódio há um diálogo excelente entre Theo e Shirley após alguns eventos traumáticos. Theo tenta explicar à irmã o que é ser tomada pelo mais escuro vazio e sentir o mais absoluto nada. Isso ressoa na ideia em uma das ideias de terror mais profundas analisadas por Eugene Thacker em In The Dust Of This Planet. É interessante que A Maldição da Residência Hill acabe tentando por em palavras algo que é impossível de ser ilustrado, mas que está em sua história.

Várias dimensões do terror colidem na série. Os mortos assombram a família Crain. A doença mental também. Mas a metáfora usada que é a grande sacada dessa história são os segredos que a família guarda e que acabam virando fantasmas em suas vidas. Quase todos eles têm algo a esconder. E o que permanece oculto é o que castiga suas vidas. No caso de Steve, o cético, isso se manifesta como fim de um casamento. Para Shirley, que se preocupa em ser a fortaleza moral da família, seu segredo se manifesta como uma alucinação. Em alguns casos, como no dos gêmeos Luke e Nellie, há uma somatória de sobrenatural, segredo e doença mental.

Fantasmas escondidos nos enquadramentos, segredos e uma casa enorme com um quarto fechado. Uma série que te resume todo o drama logo no primeiro episódio, mas que precisa percorrer os outros nove para te dar um panorama mais completo. Roteiro e montagem, assim como aspectos da direção de arte, se comportam como um labirinto. O mesmo que está na abertura de Maldição da Residência Hill. Tudo isso sem pesar demais a mão e sem soar hermético, mas exige que você tenha atenção aos detalhes.

Bojack Horseman: 5ª temporada é um pedido de ajuda

Nem sempre as temporadas mais bem estruturadas são as melhores. Acho que a quinta temporada de BOJACK HORSEMAN não supera a terceira em termos de como pode ser sombria e despirocada, mas é a temporada que, até agora, me parece a mais madura.

O seriado sempre teve a metalinguagem em seu DNA. Uma série na TV sobre um ex-astro de seriados da TV vivendo em Hollywoo(d) e tentando viver a vida de forma hedonista recheada de autossabotagem. Uma ironia meio surreal, como só desenhos conseguem fazer, da vida real de astros em Los Angeles e seus problemas. Piadas com atores reais são recorrentes.

Na quinta temporada, BoJack consegue finalmente um emprego em Philbert, uma nova série de TV policial. Aí a metalinguagem se completa: um seriado falando sobre um seriado e como ele é feito, com todas as inseguranças e incertezas, questões de ego e dificuldades criativas entre roteiristas, produtores e atores. Isso é muito bem feito ao longo da temporada, pois há piadas e ironias com todo o processo de criação de uma série. Nada escapa aos olhos do roteiro: desde os problemas para financiar uma produção e como se comporta o mundo de CEOs do entretenimento até o flagrante machismo e como ele acaba sustentado pelas atrizes que, embora expostas a isso, se apegam ao fato de terem um papel que pague as contas.

Mas para quem vinha acompanhando BoJack, vê-lo trabalhando é uma novidade. Por quatro temporadas tudo o que ele fez foi covardice e autossabotagem, agindo com cinismo e niilismo. É um homem/cavalo empático, mas abre mão da empatia em favor de seu egoísmo e idiossincrasias. Dessa vez, embora continue com suas bojackices, ele se propõe a fazer algo e vai até o fim. É ao final desse processo que a série deixa ele mais solto para ser a existência caótica de sempre. Mas senti um respiro nesta temporada. É o mesmo BoJack, mas menos previsível.

O Sr. Peanutbutter (ou Manteiga de Amendoim) passa por algo parecido. É o mesmo cachorro de sempre, mas pela primeira vez senti um aprofundamento de sua consciência sobre o que fez e o que ainda faz. Tem todo o imbróglio com sua nova namorada e aquele maravilhoso episódio das festas de Halloween (“Mr. Peanutbutter’s Boos”) que, pelo menos para mim, colocou uma nova camada sobre a personalidade dele, melancolicamente, acabou fazendo com que pelo menos eu me identificasse em algum grau e enxergasse meus próprios erros.

Eu passei pelo mesmo quando o meu pai morreu e estou passando pelo mesmo agora. É tipo aquela série Becker, com o Ted Danson. Eu vi a série inteira achando que ia melhorar, mas não melhorou. Tinha tudo pra dar certo, mas fizeram dar errado. Quando cancelaram, fiquei muito chateado. Não por gostar da série, mas por saber que podia ser bem melhor.

Mas já era, e perder os pais é assim.

A Princesa Carolyn é outra que desde a quarta temporada tem tido um arco bem interessante e que chega ao completo destaque agora. Workaholic pra caramba, ela tenta manter a carreira em dia e lida com a vontade de exercer a maternidade. Ganha um episódio só seu praticamente (“The Amelia Earhart Story”) e vemos, sem sombra nenhuma de dúvidas, como ela já é uma mãe para todos aqueles adultos que ficam no pé dela e não sabem lidar com aspectos de sua vida. Mas isso não é ser mãe. Isso são os outros não sendo adultos ou bem resolvidos ou confiantes o suficiente.

E aí temos o “Free Churro”. O longo monólogo de BoJack ao lado do caixão da mãe. 20 minutos de câmera congelada no Cavalo-Homem. A gente acha que vai ser de partir de o coração, e é mesmo, mas no meio o personagem não consegue nem na morte da mãe deixar de fazer bojackice. A gente entende a mágoa dele que leva ao cinismo e percebe que o cinismo dá lugar ao buraco que ficou ali no lugar do peito durante a vida dele. E aí o roteiro dá aquela virada nos últimos segundos, só para nos lembrar que estamos no mundo do desenho animado BoJack Horseman. Se cabe algo derivado dos Grandes Dramas da TV, cabe algo de surreal das sitcoms mais manjadas.

Não achei a quinta temporada tão pesada quanto à quarta, mas não é porque o roteiro não lide com questões difíceis e deprês. É que os episódios estão melhor estruturados para contrapor uma sensação à outra. Ou então uma situação, por pior que seja, é enquadrada com um humor retardado de desenho animado. Mas há cenas que tratam de coisas seríssimas que acabam fugindo a essa regra. Uma delas é a da nudez frontal de BoJack na série que está gravando. Outra é a da briga com sua parceira de cena, Gina Cazador, que prefere deixar o cavalo escroto se safar para não virar mais uma vítima aos olhos do público e da indústria do entretenimento.

Os personagens apresentam desenvolvimento, mas não resolução. A imagem de Diane dirigindo ao final é icônica, emoldurada pela canção “Under The Pressure” do The War On Drugs. Peanutbutter deixa sua personalidade falar mais alto que sua razão e que seu coração. BoJack acaba aceitando seu problema de saúde mental, mas conhecendo a figura, já podemos prever como seu cinismo tratará seu corpo e sua mente na sexta temporada.

A crítica ao entretenimento americano, aos seus personagens da vida real e aos seus meios de produção, está mais aguda do que nunca, já que a metalinguagem atinge seu ponto máximo. Diria que é uma crítica ao “way of life” americano também, mas isso quase todas as séries dramáticas conseguem ser também. Agora penso que cada passo em falso de BoJack é um pedido de ajuda e que nós, se nos identificarmos um pouco que seja com ele, também precisamos de ajuda.

Bojack. I see you!

Sharp Objects e as palavras

As grandes metrópoles que nos deem licença. Por mais que seus becos, suas periferias pouco vigiadas e metrôs cheios de gente e de indiferença sejam ótimos subterfúgios para crimes e toda sorte de situação estranha, nada parece mais insólito do que as pequenas cidades. SHARP OBJECTS, minissérie da HBO que adapta Objetos Cortantes, o romance de Gillian Flynn, vem engrossar o caldo de cidadezinhas do interior com suas próprias idiossincrasias, aristocracias, senso de justiça e segredos lúgubres.

Amy Adams, com uma atuação acima da média, é a jornalista Camille Preaker, convidada pelo seu editor do jornal da grande St. Louis, na divisa do Missouri com Illinois, a passar uns dias em sua cidade natal, Wind Gap, no interior profundo, para investigar a morte de uma adolescente e o desaparecimento de uma segunda. A jornalista é meio ferrada na vida: passou anos se cortando para aliviar a dor mental e, agora que já consegue não se automutilar, bebe pra caramba para aliviar a ansiedade e o sofrimento. O problema é que ao voltar para Wind Gap e confrontar a mãe, o padrasto e o quarto vazio da irmã que morreu quando Camille ainda era pré-adolescente, muitas memórias e muita dor recaem sobre a jornalista que não vê a hora de cair fora dali.

Logo após chegar a Wind Gap e começar a acompanhar o caso – muito a contragosto das autoridades locais e de sua mãe, dona da indústria de carne suína que movimenta a economia local -, Camille reencontra sua irmã mais nova, a adolescente Amma Crellin, interpretada com uma vivacidade incrível por Eliza Scanlen.

– Quando ouve o que as pessoas dizem todos estão loucos ou são maus. Apenas a metade é verdade.
– Isso é o que me preocupa. Estamos vendo a metade errada.

Com apenas oito episódios de uma hora cada, ouvi comentários de que a série poderia enrolar para chegar a seu final. Não é o caso. O assassinato e o novo desaparecimento, que logo se confirma como mais um homicídio hediondo, nunca perdem espaço na série. Mas o que os roteiristas e o criador Marti Noxon fazem é dar espaço para que se desenvolva a relação de Camille com sua mãe, Adora Crellin (Patricia Clarkson, uma perfeita mulher do sul dos EUA) que nunca foi das melhores e continua não sendo, sua relação com os homens, sua relação com os lugares de Wind Gap, e sua relação consigo mesma.

Não são poucas as cenas em que acompanhamos Camille em seu Volvo 240 GL dos anos 80, quase sempre com o celular conectado ao sistema de som e rolando um bom Led Zeppelin (suspeito que boa parte do orçamento de Sharp Objects tenha sido queimada com o licenciamento das músicas do quarteto inglês). A princípio, essa cenas de Camille rodando pela cidade podem parecer enrolação, mas aos poucos se tornam um espaço para vir à tona lembranças, emoções e reflexões.

PALAVRAS E IMAGENS

Dois elementos visuais são incrivelmente marcantes e fugazes na série. O primeiro, impossível não notar, é a edição que coloca microssequências de alucinações ou de memórias de Camille no meio de uma cena linear da narrativa principal. Piscou, perdeu. Em diversos momentos voltei a cena e fui assistindo frame a frame para ver melhor todos os vultos e fantasmas que assombram a jornalista.

Todas essas lembranças que piscam na tela e todas aquelas relações que vão se desenvolvendo paralelamente à investigação dos crimes são importantes para o desfecho, acredite. A pasmaceira não é só efeito estético ou enrolação. É parte de uma criação sofisticada de plot.

O segundo elemento visual pode ter passado despercebido. Tratam-se de palavras que podem ser encontradas ao longo da série nos mais insuspeitos locais. Caçá-las nos enquadramentos é como procurar pelos easter eggs de jogos de vídeo-game. O diretor canadense Jean-Marc Vallée e os diretores de fotografia Yves Bélanger e Ronald Plante resolveram seguir a metodologia “esconder em plena vista”.

Essas imagens espalhadas pela série às vezes estão mesmo escritas onde aparecem. Outras vezes, é a mente de Camille as colocando lá. Um quadro onde se lia “Hope” muda para “Hurt“; “Scared” (com medo) na porta de um carro muda para “Sacred” (sagrado); o logo da Caterpillar vira “Catfight“; o sinal de “Open” (aberto) em uma loja vira “Omen” (presságio). De todo modo, servem como uma parte do design da série. As palavras nos dão pistas e nos dão sentido, assim como as palavras que estão marcadas no corpo da protagonista.

E as palavras ditas em alto e bom som também dão pistas. Embora a identidade do assassino só seja descoberta no último episódio, quando você menos espera, eu pude apostar todas as fichas em um dos personagens logo a partir do segundo episódio. Quem prestar atenção às palavras ditas – não nas que estão “escondidas” no ambiente – notará uma relação difícil de ignorar, uma escolha de termos que não é por acaso. O enredo cria várias circunstâncias que dificultam descobrirmos qual dos suspeitos é o bicho-papão de mocinhas, mas confiar nas palavras provou ser uma forma de foreshadowing (antecipação de uma revelação ou acontecimento) bem interessante.

Sharp Objects dá a Amy Adams um papel de destaque pelo qual ela pode ser lembrada e, de fato, ela parece perfeita na pela da jornalista. Eliza Scanlen é uma jovem que sai da série com um portfólio incrível para conseguir novos trabalhos. Ela mostra presença, confiança, doçura, atitude e habilidade com a patinação. Fica trás só de Adams.

Abaixo temos algumas das palavras que aparecem ao longo das cenas. Algumas estão lá mesmo, outras são substituídas, outras não estão, outras se disfarçam de frases totalmente dentro de seus contextos (como as da clínica). Mas nenhuma delas é inocente e todas querem nos dizer algo. Há muitas outras pela série.

Falling
Faith
Sacred
Bitch
Yelp

Não há série como The Handmaid’s Tale na TV

Entre 2017 e 2018, poucas séries foram tão impactantes e trouxeram temas tão importantes à tona quanto THE HANDMAID’S TALE, baseado no livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Por mais complexidade e elegância que Westworld tenha trazido à TV e por mais que Games of Thrones esteja chegando ao fim e excitando os espectadores com suas intrigas palacianas, a história de June/Offred (Elisabeth Moss) em Gillead é aquela que te faz olhar ao seu redor, no incrível agora, e ver como diversos temas, violências objetivas e subjetivas retratadas no mundo distópico da série estão ao nosso redor.

Afinal, quem nunca viu um homem citando versículos bíblicos para controlar e determinar o comportamento de uma mulher? Quem não vive em uma sociedade em que homens e mulheres são tratados de forma diferente e geralmente colocando as mulheres em posições de submissão?
A segunda temporada de The Handmaid’s Tale continua aprofundando os mecanismos perversos usados pela nação teocrata de Gillead, que substituiu os Estados Unidos, para tomar o controle da situação, colocando a palavra da Bíblia acima da razão, ou misturando as duas coisas.

Na realidade em que se passa a história, a taxa de natalidade caiu, o que levou a um golpe de estado em que um novo regime foi instaurado: mulheres ainda capazes de engravidar são aias (serviçais) que além de fazer as compras da semana, são estupradas e servem de parideiras para homens poderosos do governo de Gillead. Os filhos resultantes dessa violência são tratados como filhos dos casais poderosos, enquanto a aia, que deu a luz, é passada a outro chefão do pedaço, repetindo um ciclo desesperador. O que vai ficando claro é que o problema na taxa de natalidade pode não estar na ovulação das mulheres, como o novo governo teocrata acredita, mas sim nos homens.

Photo by: George Kraychyk/Hulu

É BRUTAL

Se a primeira temporada foi pesada, a segunda conseguiu ser tão brutal quanto. Não há um episódio em que algo revoltante não ocorra. Quando os roteiristas dão um jeito de tornar a vida de June/Offred mais suportável, logo depois algo ocorre para termos certeza de que não há lado bom em Gillead.

A segunda temporada aprofunda a personagem de Serena Waterford (interpretada pela australiana Yvonne Strahovski). Chegamos mesmo a sentir pena e a entender o lado dela, mas a humanidade dela esbarra em seus próprios desejos e em sua crença política e religiosa. Leva quase toda a temporada para que June, após sofrer todo o tipo de violência física, mental e sexual, consiga mostrar como Gillead, o estado que ela ajudou a criar, é nocivo para as mulheres. E embora a gente torça para que o castigo da personagem venha de June, é o próprio marido e o sistema de Gillead que lhe dá uma pequena amostra de como opera uma ditadura cristã.

– Nós acreditamos que nossos filhos e nossas filhas… deveriam aprender a ler.
– Essa é uma proposta radical, Sra. Waterford.

Emily, a personagem de Alexis Blendel (vencedora de um Emmy pelo papel na primeira temporada), ganhou sobrevida. Por meio dela, conhecemos os tóxicos campos de trabalho forçado que haviam sido apenas sugeridos na temporada anterior. Tão esmagada pelo sistema quanto June, acompanhamos o desabrochar de seu instinto assassino.

A segunda temporada deixa claro também como de todas as séries recentes, nenhuma expressou uma qualidade estética tão marcante. Vermelho para as aias; verde-azulado para as esposas de generais; cinza para as martas; preto para os homens e figuras de autoridade; e há ainda aquele leve filtro esverdeado que contamina todas as cenas no presente de Gillead. Os olhos verde-água de Elisabeth Moss e Bledel, filmados no contra-luz, reforçam ainda mais a preciosidade estética da fotografia da série.

Assim, na mente de quem vê a série, um vestido vermelho deixa de ser só o vestuário das aias e se torna um símbolo de papel social, de submissão, de resistência ao verde das mulheres de generais. No entanto, ao mesmo tempo em que o verde é a cor “oposta” ao vermelho na roda das cores, ele é também a sua cor complementar. E a segunda temporada da série gasta a paciência de June (vermelha) tentando mostrar a Serena (verde) que ambas são mulheres e que, apesar da diferença na hierarquia, a luta de uma é a luta da outra também.

Se Game of Thrones repete a fórmula de Família Soprano (você não sabe quem vai morrer, mas sabe que muitos personagens importantes vão dessa pra melhor), The Handmaid’s Tale prefere matar seus personagens um pouquinho por episódio. Assim vamos entendendo o que essa forma misógina de pensar faz com a cabeça de uma mulher, até ser totalmente justificado que Emily tenha sede de vingança e impulsos homicidas em sua falta de esperança de que algo mude. Episódio por episódio, vemos como o mundo pode ser não mais cruel, mas cruel em tantas formas diferentes, como se perder a família e ter seus direitos anulados já não fosse o suficiente.

Photo by: Take Five/Hulu

É POLÍTICA

The Handmaid’s Tale levanta assuntos importantes. Até mesmo uma piada por meio de um trechinho de um episódio de Friends no segundo capítulo tem função política ali, fazendo uma crítica ao modo como as mulheres são encaradas. Em um mundo em que os EUA elegem um presidente que certamente tem um comportamento repreensível quanto às mulheres, justamente no momento histórico em que mulheres de várias áreas reivindicam o cumprimento de seus direitos, não é algo para se ignorar.

O Brasil não escapa a este cenário. Quando as mulheres mais querem ter voz, é quando mais tentam abafá-las, e com a ajuda de uma boa parcela da população que, neste momento, às vésperas da eleição, temos um candidato a presidente misógino, defensor de um “Brasil grande novo” com “Deus acima de todos”, com maior intenção de votos no primeiro turno. Felizmente, a rejeição a este candidato por parte das mulheres é grande. De outro modo, vejo amigos cristãos declarando votos em candidatos que abertamente defendem a liberação de armas, como se Jesus, em algum trecho do livro sagrado para eles próprios, defendesse essa ideia. Sei que meus amigos não defendem a liberação de armas, mas como Serena na série, fingem que esse assunto não está no pacote do candidato. E assim vai-se moldando o futuro e como escolhemos ver apenas o que nos interessa.

Se June reage, não é apenas à Gillead, é ao nosso planeta em 2018 mesmo. Se Serena é uma mulher cínica, que finge não ver o que ocorre bem debaixo de seu nariz, é porque reflete tantas mulheres que conscientemente escolheram acreditar em alguma “verdade superior”; e/ou reflete as mulheres que não entenderam que só porque um abuso ainda não foi cometido contra ela não quer dizer que não possa acontecer caso os direitos de todas as mulheres não sejam garantidos.

Poucas são as séries que se mantêm incrivelmente relevantes até o final, mantendo o mesmo fôlego. Das mais recentes, Breaking Bad é a única que me vem a mente. Mas mesmo a série de Vince Gilligan, cujos méritos já foram bastante explorados ao longo da última década, não levou ao audiovisual uma conotação política tão aguda e urgente. É por isso que, a julgar pelas duas primeiras temporadas, falo com tranquilidade que hoje não há série tão importante quanto The Handmaid’s Tale na televisão. Não há programa que cause maior perplexidade em sua audiência.