Kurt Vile, Ministri e Morning Scales The Mountain

KURT VILE

Kurt Vile, ex-membro do The War On Drugs e que já está bem consolidado na carreira solo e indie, é extremamente autoconsciente no que faz. Gostei muito de seu álbum anterior (B’lieve I’m Going Down), que já mostrava um rock rural que tentava ser psicodélico a sua própria maneira, pra se diferenciar dos War On Drugs e dos Tame Impalas da vida.

BOTTLE IT IN, seu novo disco, é minimalista, lento e longo como um sexo triste, mas que estranhamente leva ao gozo. Não era nem 5h da manhã quando comecei a ouvi-lo pela primeira vez e tentava sair do estado de vigília para o estado de desperto enquanto um ônibus rodava pela estrada. Foi uma sensação boa, mas estranhamente boa.

“Loading Zones”, com aquele trabalho vistoso de cordas, é excelente para abrir Bottle It In. Mas o disco vai entrando numas vias mais minimalistas. O core da técnica que mistura rock, blues e country continua intacta na mão de Kurt Vile, mas ele faz isso de uma maneira mais minimalista, menos pop. Eu viajei no som, mas não é uma viagem feliz e cheia de cores. É mais como viajar olhando profundamente a estática da TV.

Com quase 1h20 e poucas músicas realmente diretas, muita gente deve desistir pelo meio do caminho. Mas é em canções exageradamente longas (para os padrões kurtvileanos) que pode ocorrer a hipnose por estática. É o caso de “Bassackwards” (dedilhado e sons tocados de trás para a frente), “Check Baby”, “Bottle It In” (que passa dos 10 minutos e tem uma sensação rítmica desconfortável, embora seja 4/4) e “Skinny Mini” (uma longa repetição de dois acordes, sempre os mesmos dois acordes, por 10 minutos).

Espero não ter afastado ninguém de Bottle It In, porque gostei mesmo do disco – embora tenha gostado mais como exercício de estilo do que como música para se divertir. Mas não desista dele tão rápido. Se você curte um Kurt Vile mais radiofônico, além de “Loading Zones” tem “Rollin With The Flow” que é show.

MINISTRI

O Eder Albergoni, que era parceiro lá do Escuta Essa Review, falou várias vezes em como a música pop italiana teve um passado vanguardista para se diferenciar do que era feito nos EUA e na Inglaterra (mercados muito maiores) mas acabou virando um pastiche do qual não se recuperou muito bem até hoje. Isso ficou cruamente evidente para mim ao ouvir FIDATEVI, novo álbum do power trio punk e hardcore Ministri.

Os italianos descem a mão para soarem bem fortes e roqueiros, mas os esquemas harmônicos e mais solares da música italiana continuam presentes, apenas estão envenenados por uma carga maior de distorção. Como o Ministri canta em italiano também, essas características do pop italiano e que hoje parece perdido “num túnel do tempo, e se parece com tudo que já foi feito” (como de fato me disse o amigo Eder), são bem evidentes.

Não é exatamente ruim, no entanto. Fidatevi é um disco roqueirão, mas que traz para o DNA italiano aquela vontade de soar maior que a vida que podemos ver em um Imagine Dragons, por exemplo, com a vantagem de que o Ministri é mais bem focado do que a banda americana. A música de abertura “La tre vite degli altri” e “Crateri” são bem nesse estilo mais modernão de rock que quer abraçar a vida. A segunda, “Fidatevi”, já te mostra que o Ministri bate um bolão no rock. E tem rock acessível, bem italianinho e tal? Tem sim, “Tienimi che ci perdiamo”.

A banda já teve um passado muito mais rebelde e com textos e subtextos muito mais políticos. Com a idade – e Fidatevi é um disco de rock jovem, mas que representa maturidade etária do Ministri -, o trio está mais voltado para o interior de si mesmo e mesmo preocupado com revolução. Esse lado mais soft é bem aparente e corresponde ao que é mais frustrante no disco. Ao ouvir, você identificará.

Bom, se não há muita vanguarda, pelo menos Fidatevi é recheado de rock encorpado e bem produzido, como o do Muse, cheio de melodias bonitas e refrãos poderosos.

MORNING SCALES THE MOUNTAIN

O selo brasileiro Sinewave colocou no mundo o disco MORNING SCALES THE MOUNTAIN, estreia da banda de mesmo nome. O grupo é uma colaboração entre o brasileiro André Ramiro (guitarra e baixo, membro da banda ruído/mm) e os americanos Tom Carter (guitarra) e John Allan Kennedy (bateria).

São apenas quatro músicas, bem longas e instrumentais. É uma mistura de drone e sintetizadores com dedilhados de guitarra e fills de bateria e percussão que lentamente vão construindo uma paisagem musical ao mesmo tempo mística e surreal. O pensamento musical do trio tem mais a ver com sensações do que com o formato canção. Quando uma nota da guitarra se destaca, ela faz você sentir sua presença. Quando a percussão ganha corpo, é para mexer com seus nervos e senso de expectativa.

Morning Scales The Mountain é cósmico e terreno ao mesmo tempo. Uma viagem astral ou de ácido dependendo do seu dia ou da sua preferência. Não é a música para tocar de fundo naquele churrasco, mas com certeza é o tipo de som que se ajusta muito bem entre os níveis consciente e inconsciente.

As quatro músicas são basicamente improvisos. Tom Carter já está muito bem acostumado a este tipo de approach na música, seja solo ou seja com os Charalambides. John Kennedy é parte da cena noise de Houston há algumas décadas e além da bateria tem longa experiência com música eletrônica. Já André Ramiro está totalmente aclimatado ao pós-rock, música lisérgica e experimental. Todas essas facetas aparecem na estreia do trio. É um discaço que pede para que você pegue seu instrumento e improvise com a banda.