Tá na hora de conhecer Tash Sultana

Depois de muitos singles, um bom EP e de apresentações com muita energia e improviso, a australiana Tash Sultana lança FLOW STATE, um disco imperdível. A música flui por seus dedos, pela cintura, pelas ondas nos cabelos, por seus pés. Ela faz base de reggae, dedilhados, solos de extremo bom gosto. Conhece e sabe a hora de usar cada pedal, como pesar a mão e faz praticamente tudo sozinha. Com a Fender na mão, sola feito um John Frusciante, caso ele tivesse sido criado nos anos 2000 com uma vasta gama de influências, que vão do reggae (“Mellow Marmalade”) ao rock psicodélico (“Big Smoke”), do R&B (“Cigarettes”) ao dream pop.

Tash toca pelo menos 20 instrumentos e há vídeos de suas apresentações no YouTube em que, sozinha, faz a música acontecer diante de seus olhos e ouvidos com uma fluidez incrível. Os pedais de loop dão uma bela ajuda nesse esquema de banda de uma mulher só, mas vale a pena ver como os pés da australiana são ágeis ao acionar cada um.

Voodoo chute
Why don’t you tie the noose
From circus through to senseless way

Toda a energia do ao vivo está em Flow State. Apesar de todas características que fazem dela uma presença marcante, ela compôs músicas que possuem potencial comercial e soam como o pop radiofônico que temos aí no momento. “Salvation”, uma faixa que flerta com pop e R&B, e desemboca num solo no melhor estilo Prince.

Uma guitar hero nata, simplesmente não consegue deixar de solar em praticamente todas as faixas, mudando andamento e contexto se for preciso. E são todos excelentes no timbre, na emoção, na variedade técnica e ainda ajudam a construir uma clara imagem do que ela é capaz.

Como muitos primeiros álbuns, Flow State parece se obrigar a ser diverso em seus ritmos e climas. Ela aproveita que está estreando agora no formato álbum e se coloca à prova de tudo que pode caber em seu caldeirão, como se estivesse mostrando um portfólio. É provável que no futuro os álbuns de Tash Sultana sejam mais coesos no som. Embora seja um trabalho longo, com mais de uma hora, a australiana dá vida a cada uma de suas faixas com diversas tendências da música atual.

“Harvest Love” e “Pink Moon”, por exemplo, são sua contribuição ao estilo de rock/pop praticado por nomes como Snail Mail e Soccer Mommy. Mas enquanto as duas citadas deixam seus álbuns bem acomodados dentro das músicas sentimentais, a australiana vai mais longe, estilisticamente falando. E “Blackbird”, com 9 minutos, tem um trabalho nas seis cordas do violão digno de uma virtuose. Um lado que eu, até ouvir a faixa, não sabia que a Sultana tinha.

De uma nova leva de mulheres compositoras e autoras, Tash é a mais variada e que destila qualidade técnica. Ela é compositora de todas as canções, a responsável por todos os solos, pela produção de Flow State e também tocou todos os instrumentos que ouvimos ao longo do disco. Uma artista para acompanhar de perto!