Quanto há de Nick Cave em The Sick Bag Song?

Nick Cave pinta o cabelo de preto até parecer as asas de um corvo. O veículo que transporta os Bad Seeds fica parado na estrada enquanto um corpo é removido. Ao passar pelo local do acidente, Nick vê o corpo decapitado pela janela. Quando chega ao hotel e percebe que tem gente esperando para vê-lo assim que descer da van, chama os fãs de caçadores de autógrafos.

São coisas assim que ficamos sabendo sobre Nick Cave, o cantor australiano, ao ler THE SICK BAG SONG, livro escrito a partir de notas, letras, pensamentos e narrações que o compositor fez durante naqueles saquinhos de enjoo fornecidos pelas empresas aéreas. Foi tudo escrito ao longo de poucos dias na turnê do álbum Push The Sky Away (2013) em 2014, entre show no Canadá e nos Estados Unidos.

O livro chega ao Brasil pela editora Terreno Estranho, com tradução do jornalista e escritor Carlos Messias, no momento mais oportuno: na semana em que Nick Cave and The Bad Seeds se apresentam em São Paulo (cidade em que o cantor morou no início dos anos 90) mais de 25 anos depois da último show. A edição de luxo do livro tem capa dura azul, respeita a simplicidade do design da edição original e traz páginas coloridas com a reprodução fotográfica dos sacos de enjoo em que o músico esboçou suas ideias. Essa versão é limitada há 400 exemplares numerados. Uma versão em brochura mais em conta será lançada em breve também.

Num estúdio em Malibu, Johnny Cash se sentou e tocou uma canção.
Ele estava parcialmente cego e mal conseguia caminhar.
Eu estava lá.
Eu vi um homem doente pegar seu instrumento e ficar bem.
Com pesar, também vi o contrário. Palhetar, palhetar, palhetar.Eu vi mais de um homem, em bom estado, pegar seu instrumento
E se adoentar.

Em The Sick Bag Song, Cave fala de uma visita a Bryan Ferry e sua esposa em Denver e de como Bryan não consegue mais compor há 3 anos. Fala de como ele e a banda ficam doentes na turnê. Explica como os saquinhos de enjoo da United Airlines são plastificados e ruins de escrever por cima. Aparentemente, ele gosta de dragões também. Os chineses. E até encontra uma dragonesa em uma de suas paradas.

Nick é um erudito versado em mitologia grega. Antes de entrar no palco, a banda busca o nome das musas: Calíope, Euterpe, Erato, Clio, Melpômene, Polimnia, Terpsícore, Tália e Urânia. Cada uma tem uma função e é evocada para ajudar em um tipo específico de música. É interessante ver como ele categoriza suas próprias músicas: “From Here To Eternity” definitiva é uma música antiga. Será que ele considera “Stagger Lee” uma canção engraçada? “Jesus Alone” seria super trágica ou religiosa?

Não é um livro em que Nick Cave está preocupado em contar como é uma turnê dos Bad Seeds, revelando detalhes de backstage, histórias engraçadas ou trágicas, conversas ou a personalidade cada um ao seu redor. Não é um diário de turnê, mas, ao mesmo tempo, é sim. Veja por este lado: Nick escreve da forma mais pessoal que pode, mais para si mesmo do que para o leitor, o que se aproxima muito do que seria um diário real dele feito para ele mesmo.

Era o Dia do Canadá e eu era um único pulmão berrante
E insuficiente.
Minha dragonesa não tinha sobrevivido àquela noite.
Ela tinha morrido.
Eu sentei lá e escutei seu último e vagaroso suspiro
Borbulhar feito uma canção da ferida em seu interior.

O livro é como o documentário 20.000 Dias Na Terra, em que não se busca contar a história de Cave e da banda, não se busca explorar linearmente como se deu a carreira. É uma baita experiência, mas não no sentido mais tradicional do documentário, do tipo que tentaria te revelar coisas por meio de explorações de informações, biografias, e etc.

Até as surreais conversas de divulgação do próprio livro fazem parte de suas páginas. E nem perca tempo tentando adivinhar o que pode ter influenciado a escrita de Cave em The Sick Bag Song. Ele dá a resposta e nem que você fosse um observador muito arguto conseguiria reunir a miríade de obras e nomes em que Nick encontra alguma correlação ou inspiração.

Também não é um livro como A Morte de Bunny Munro. Não é um romance, embora Cave misture muita imaginação ao que escreve. Um fato real pode se transmutar em fantasia. A garota da minissaia está lá todas as vezes realmente ou é apenas devaneio? Embora seja um livro de prosa, ele faz questão de quebrar as frases em versos com frequência.


Mitologia borbulha em mim feito plástico derretido.

Alguns temas são recorrentes nos saquinhos de enjoo. O menino nos trilhos de trem que caiu do precipício. Decapitações. Fumar em escadas e depois de cada show ou enquanto espera por algo. A minissaia. A esposa que aparece e desaparece e que não atende a porra do telefone!

Não posso deixar passar que grandes influências musicais de Cave encontraram um jeito de fazer parte da história. Leonard Cohen está ali. Bob Dylan também. Johnny Cash aparece cedo também.

Não é um livro que se preste à explicações, mas acredito que como apenas fãs – novos ou antigos – vão ler The Sick Bag Song, diria que é fácil encontrar uma extensão de sua obra musical. Quanto de Nick Cave há no livro? Ora, muito. Suas obsessões, suas histórias, suas vivências, seus amores e os nomes que são importantes para ele são citados ao menos uma vez. Não vai ajudar a interpretar todo o seu extenso catálogo de letras e músicas, pois é um produto em que ele se manifesta de forma única como não tínhamos visto ainda.

THE SICK BAG SONG
Nick Cave
Tradução: Carlos Messias
Editora Terreno Estranho
180 páginas