RDR2 – Mas será o Cthulhu? – Parte 2

Não tive mais notícias do serial killer de RED DEAD REDEMPTION 2 desde os eventos relatados na primeira parte deste diário. Encontrei uma cabana, no alto de um morro cercado de campos floridos, bem suspeita. Não havia ninguém nela e pude dar uma boa olhada (ou seja: roubar) em tudo que os sujeitos deixaram ali. Há um galpão abaixo da cabana lotado de equipamentos de caça. Me deixou com a pulga atrás da orelha, mas às vezes são apenas caçadores que vivem ali mesmo. Talvez eu nunca saiba.

O que eu sei é que enquanto procurava um urso lendário encontrei uma comprida casa decrépita. Madeira envelhecida e teias de aranha para todo lado, à beira de uma lagoa. Dentro dela encontrei fileiras de beliches, cada cama com um esqueleto humano deitado. Apenas alimentos podres e ratos, além dos cadáveres. Havia uma carta também que deixava claro que havia uma crença muito forte ali em algo cósmico e grande. Não devia ser Deus. Ou talvez seja um deus, mas um dos Antigos lovecraftianos. A forma como os corpos estão nas beliches me faz pensar que nessa cabana ocorreu um suicídio em massa.

Já tivemos um assassinato horrendo assinado com frase de Shelley. Será que agora temos adoradores de Cthulhu antes mesmo de um único conto sobre ele ser escrito?

SECUNDÁRIOS

Red Dead Redemption 2 tem personagens interessantes, ainda que suas participações na história sejam minúsculas. Em duas ocasiões, vi um coice levar a vida de um infeliz. Eles estavam pedindo ajuda e tentando recolocar a ferradura de seus cavalos. O cavalo deu um coice fatal antes que eu pudesse me aproximar para ajudar. A cena foi meio triste e meio patética e me vi sem outra alternativa a não ser saquear o corpo dos dois e os alforjes em seus animais.

Tem a mulher que sabe-se lá como conseguiu detonar sua carroça e matar seu cavalo no meio na estrada entre Emerald Ranch e Valentine e ficou debaixo de uma árvore frondosa esperando passar alguém que lhe desse carona. Subiu na minha garupa e fomos conversando durante todo o caminho. A vida dela é muito parecida com a vida de muitas mulheres de 2018. O marido não foi exatamente um grande marido e ela resolveu criar os filhos sozinha. Ia de um lado para outro em busca de emprego. O cavalo vai lhe fazer falta, mas se ficasse ali naquela estrada até anoitecer um destino ainda mais terrível poderia lhe aguardar, como ser comida por um lobo ou coiote. Ou cruzar com um cowboy mal intencionado.

Essa mulher trabalhava em Emerald Ranch e me disse que o lugar é OK, mas o dono do rancho é meio esquisito. É a segunda vez que alguém cita isso durante minhas perambulações pela área. Preciso investigar isso aí. Talvez termine em tiroteio ou pelo menos comigo sacando meu laço para amarrar o tal patrão esquisitão.

Em outra oportunidade, um senhor me pediu para ajudá-lo. Sua carroça estava debulhada no chão de terra batida na beira da estrada e o cavalo, morto. Ele queria ir até Strawberry, o povoado mais próximo, para pegar outra carroça, voltar até ali e recuperar a carga antes que seu chefe ficasse muito furioso. Concordei em ficar guardando a carga até que ele voltasse. Embora Arthur Morgan seja um bandido – orgulhoso de seu status de fora da lei do velho oeste – eu realmente tentei fazer o certo. Mas passaram-se 20 minutos e o cara não voltava. Saqueei o que ainda cabia em minha bolsa e fui embora. Espero que tudo tenha corrido bem para ele.

Contudo, me pergunto se ele me recompensaria pelo meu favor. Muitas vezes quem não te recompensa com dinheiro ou produtos acaba passando informações. Um dos homens que ajudei bem no início de minha jornada acabou me reencontrando do lado de fora do Armeiro em Valentine. Como ele não tinha grana quando nos vimos pela primeira vez, resolveu me fazer uma benesse: que eu fosse até o armeiro e escolhesse a arma que eu quisesse que ele pagaria. Foi assim que adquiri um Rifle Springfield que me ajudou demais a caçar e a pipocar inimigos há uma distância segura.

HISTÓRIAS HUMANAS

No acampamento da bandidagem do Dutch Van der Linde é possível ouvir muitas histórias curiosas. Tantas que nem cabem aqui. É necessário também manter relacionamento com as pessoas da gangue, mesmo com as que Arthur tem certos problemas. Entre os membros, dois me chamam a atenção em particular. O Reverendo Swansson é um cara que substituiu a fé pela bebedeira e pelas drogas injetáveis. Quando o encontrei entre jogadores de pôquer, ele tava alucinado no álcool. No acampamento, ele vive trêbado. Triste mesmo foi quando abri a Bíblia do Reverendo e vi que não era um livro de verdade, mas sim um estojo para suas drogas injetáveis.

Dutch é um cara interessante. Em 1899, essa coisa de Oeste sem lei nos Estados Unidos já começa a cair. O governo federal está colocando ordem no quintal. Dutch não quer se dobrar às autoridades, mas sabe que seu way of life está com os dias contados. Arthur passa por questionamentos parecidos. São parte de um grupo que um dia se orgulhou de não viver sob a régua do Estado, mas que agora veem a impotência de se manterem assim por muito mais tempo. O que eles enxergam é que não há grandeza em ser fora-da-lei, apenas o ideal romântico sobrevive. Os EUA estão mudando e essa mudança vai engoli-los. Ou matá-los. É questão de tempo e oportunidade.

Red Dead Redemption 2 é realmente um jogo interessante. O cômico e o macabro andam lado a lado, mas como todo jogo de seu tamanho, há muita passagens comoventes para se ver, mesmo que sejam detalhes minúsculos no escopo da jornada. Encontrei uma cabana no alto de um morro em Grizzles. Estava nevando e a porta estava trancada por fora. Arrombei a fechadura com uma gazua. Entrei no humilde casebre e encontrei dois jovens mortos. Deviam ter entre 10 e 14 anos. Um garoto com o corpo recostado na cama e uma garota, sobre a cama. Não dava para saber se tinham pele clara ou escura originalmente, pois a putrefação já estava adiantada. Havia pouca coisa para saquear, no entanto achei uma carta assinada pela “mãe”. Ela saíra para buscar mantimentos na cidade mais próxima e trancou os meninos em casa, selando as janelas com tábuas, para que ninguém lá de fora fizesse mal a eles. Disse que deixava água e comida suficiente para quatro dias e voltaria antes disso.

Queria que fosse possível pelo menos enterrar os corpos das crianças que encontrei. Nunca vou saber o que aconteceu com essa mãe.

Leia a primeira parte da crônica RDR2 – Lá Vem a Morte

RDR2 – Lá vem a morte! – Parte 1

Sobre meu cavalo, com couro de cabra e boi na garupa do animal, atravesso o mapa de RED DEAD REDEMPTION 2. Faz 15 horas que estou jogando e só agora começo a me acostumar com os controles e com toda a jogabilidade. Estou mais atento ao pequeno mapa no canto da tela. Enquanto cruzo riachos, pradarias e trilhos, é comum algum pontinho fora do campo de visão pipocar no mapa, me avisando que tem algo para fazer ou alguém para conhecer. Ou alguém para matar.

Ou alguém querendo te matar.

Nesse momento específico estava tentando cavalgar até uma caverna, perto de uma cascata, onde uma viúva fora-da-lei estaria escondida. Se a capturar viva, o xerife de Valentine me dará 25 dólares. Em 1899, 25 dólares é dinheiro pra caralho! Essa é minha missão no momento, mas no caminho um ponto branco pisca e alguém chama por mim. Paro meu alazão e vejo que um negro em uniforme de presidiário está pedindo ajuda. Ele não diz se fugiu ou o que aconteceu, quer apenas que eu atire nas correntes que prendem seus pés. Eu o ajudo, ele agradece e vai embora. Não ganhei nada com essa boa ação. Sigo em frente e pouco depois, debaixo de uma grande árvore, dois sujeitos mal-encarados me param e dizem que aquela região é dos O’Driscolls, uma gangue rival de foras-da-lei. A minha gangue, a de Dutch Van Der Linde, está em guerra com os O’Driscolls desde o início do jogo. Os dois homens não queriam me assaltar e nem apontaram armas para mim. Queriam apenas intimidar o velho Arthur Morgan. Daí resolvo pegar minha espingarda de repetição e rapidamente pipoco o peito de ambos. Vasculho seus cadáveres e sigo em frente.

Depois de muito andar, chego enfim à cascata. Um cavaleiro bem vestido se aproxima, elogia meu cavalo e oferece uma corrida até Diablo Ridge. Olho no mapa e vejo que fica ao sul de onde estou. A aposta vai me desviar um bocado da missão, mas aceito, pois não sei se haverá outra oportunidade. Saímos galopando e mantenho a dianteira quase que durante o percurso todo. No final da “pista”, preciso fazer uma curva muito fechada. Não consigo e meu cavalo bate no tronco de uma árvore. Ele relincha e sou arremessado para a frente. Me levanto e corro até o ponto de chegada a pé mesmo. Venci. Espero receber algo dessa vez. Quando o cavaleiro se aproxima para reconhecer minha vitória eu acabo apontando a arma para ele ao invés de apenas direcionar a atenção para iniciar o diálogo. Ele se assusta e sai galopando, com medo. Se essa corrida ia render algo, jamais saberei agora.

Subo no cavalo e sigo a trilha até a viúva que vai me render os 25 dólares. Salvo o game. Depois de perder diversas oportunidades e fazer muita besteira, descobri que é sempre bom salvar o progresso quando acabo de fazer algo significativo. Até pequenas coisas levam um tempo considerável em Red Dead Redemption 2. Matar animais para pegar sua pele e carne, por exemplo, exige escolher aqueles em melhores condições. Matá-los (nem sempre fácil, nem sempre morrem com uma flecha, nem sempre você acerta em cheio a cabeça). Esfolá-los. Levar a pele até o cavalo. Voltar e pegar o corpo do animal para colocá-lo no cavalo também. É um game bem detalhista, o mais detalhista que já joguei. Além disso, muitos encontros são fortuitos. Por isso, ao se deparar com eles, é bom aproveitar ou ter um save logo antes de ocorrerem, caso as coisas não saiam como o esperado.

VOLTA O SAVE

Começo a procurar a viúva e eis que dois cavaleiros passam correndo por mim, um deles levando um homem amarrado na garupa. Vou atrás deles e resolvo intervir naquilo para ver se salvar aquele homem vale de alguma coisa. Mato um deles e me atrapalho com os comandos, sendo morto pelo segundo. Volto meu save e tento novamente. Ando mais um pouco por ali e os dois cavaleiros passam novamente. Inicio uma briga com eles e sou morto de novo. Tento pela terceira vez: recomponho a vida, o fôlego e a barra de Dead Eye do personagem. Encontro a dupla e novamente intervenho na vida deles. Dessa vez, enquanto cavalgam à minha frente, aciono o Dead Eye, que faz efeito bullet time me dando tempo para mirar nos pontos que quero atingir com mais precisão. Erro na mira e coloco pelo menos dois tiros no homem amarrado. Um acerta seu pescoço e o outro, sua cabeça, criando uma pequena cachoeira de sangue. Não consigo acreditar na minha burrice e falta de habilidade. Consigo derrotar os dois homens e confiro o corpo do homem amarrado. Está morto mesmo.

Dá para continuar a jornada tranquilamente mesmo com esse erro. O peso na missão principal ou na história é minúsculo. Poderia tê-lo matado, libertado ou pego o suspeito para que eu mesmo o entregasse às autoridades federais dos Estados Unidos. Essa é uma das belezas de RDR2. Algum tempo antes desses fatos que estou relatando, passei 3 horas tentando fazer Arthur Morgan roubar os fundos de uma loja de remédios. Ao passar por trás da loja, uma porta de ferro evidencia uma movimentação suspeita. Ao entrar na loja, vejo que há outra porta de ferro trancada do lado de dentro. Volto, coloco a máscara de bandido,e aponto a arma ao médico para que ele abra a porta. Há três bandidos O’Driscoll e uma mulher lá dentro. Mato todos. Pego dinheiro, vasculho seus corpos e pego uma arma rara ali em cima da mesa. Mas só posso sair pela porta da frente e as autoridades a essa altura já estão me procurando. E é difícil escapar delas. Muitos homens vêm atrás de você e sua cabeça fica a prêmio. Eu tentei de diversas formas completar essa “tarefa” fazendo com que não me reconhecessem, mas sempre acabei ou morto ou com uma dívida gigantesca para pagar em uma cidade que precisaria visitar com frequência no início do jogo. Tentei repetir as mesmas coisas por 4 fucking horas antes de desistir. RDR2 exige paciência, meu amigo.

De volta aos dois cavaleiros levando um homem amarrado na garupa. Volto o save e repito pela quinta ou sexta vez o processo. Consigo derrubar os dois homens e salvar o terceiro – que disse que não fez nada. Ele agradece e se vai e eu começo a ser perseguido por mais três homens. Dou cabo deles e em seguida mais dois aparecem atrás da minha carcaça. Alguém deve ter me visto disparando contra meus alvo originais com uma carabina de cano duplo e assim fui denunciado às autoridades. Passo a ser um procurado não só pelos “policiais” do velho oeste americano, mas pelos caçadores de recompensa. Isso acontece muito em RDR2. Se vai matar alguém, certifique-se de que não há ninguém por perto. E se tiver, não deixe testemunhas.

Consigo escapar dos homens no meu encalço, mas a recompensa por minha cabeça já está em 165 dólares. Não tenho essa grana para pagar por meus próprios crimes na agência de correios daquela região. Isso quer dizer que toda vez que eu estiver na região de West Elizabeth vou precisar sempre desconfiar de quem cruzar meu caminho e viver com um olho na nuca. E pensar que tudo isso começou como uma caça à uma mulher que vai me render apenas 25 dólares…

Eu encontrei a mulher. A viúva estava com um homem em uma caverna perto do córrego. Fiquei ouvindo a conversa dos dois. Como ela não deveria morrer, preparei meu laço. Ao me aproximar, o homem me vê, ela anuncia que devo ser um caçador de recompensas e passa a faca na garganta do cara. Laço a garota e a coloco na garupa do meu cavalo. Ela fala pra caramba durante todo o percurso até o xerife de Valentine. Eu sei que libertei algumas pessoas de trajetória meio duvidosa, mas elas não estavam com a cabeça a prêmio (que eu saiba) e eu vi a viúva assassinar um homem bem na minha frente a troco de nada!

(Incrível como o videogame coloca a gente na pele do personagem, não é? Meu personagem saqueia casas e corpos, mata quando acho que tudo bem e tenho essa posição moralista frente a esta viúva… Eu sou Arthur Morgan. Nada é real, mas tudo me pertence devido às minhas decisões e escolhas por meio do sistema e do personagem.)

SERIAL KILLER

Em uma dessas andanças de um lado para outro com meu fiel cavalo, um ponto branco pisco no mapa enquanto passava por uma ponte. Olhei lá para baixo e não vi ninguém, tampouco ouvi algum tiro ou chamado. Fiquei intrigado e dei a volta para ver o que havia debaixo da ponte. Encontrei rastro de sangue no chão. Pendurado na estrutura de aço que sustenta a ponte estava um meio-corpo, pendurado pelas pernas e cortado da cintura para cima. Uma visão bem impressionante. Nesse momento, a música tensa e sintetizada que marca conflitos surge e deixa a cena com ares macabros. No chão, os restos do corpo. Partes de camisa, braços, uma poça de sangue. Não achei a cabeça. Olho para o paredão à esquerda e a frase “Look on my works” (Contemplai as minhas obras). Temos um serial killer a solta em Red Dead Redemption. A frase é também o primeiro verso do soneto Ozymandias do inglês Pierce Bysshe Shelley (cuja segunda esposa foi Mary Shelley, a autora de Frankenstein). Segue o poema:

Eu encontrei um viajante de uma antiga terra
Que disse: — Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia
Meio enterrada, jaz uma viseira despedaçada, cuja fronte
E lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor bem suas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal aparecem estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplai as minhas obras, ó poderosos e desesperai-vos!”
Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas se espalham para longe.

Há algo de místico nesse assassinato? Pois ele foi ritualizado, inspirado no texto de Shelley. Ele chega às raias do Impensável, como escrito pelo filósofo contemporâneo Eugene Thacker em In The Dust Of This Planet que recentemente apareceu aqui no C I R C L E.

Entre tantas coisas interessantes para se ver no jogo, essa certamente é uma das que mais chamou a minha atenção até agora. Algo misterioso e que não deixa pistas de quem seria o assassino. Com mais de 20 horas de jogo, completei apenas 20% do primeiro capítulo de Red Dead Redemption 2. Vai ser assim, aos poucos, a minha jornada. Sempre com a morte à espreita.

Leia também a primeira parte do diário de jogo de Life Is Strange 2 – Roads

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