Nick Cave e o show mais intenso da Terra

Desde que conheci Nick Cave, 15 anos atrás, esperava a oportunidade de vê-lo ao vivo. Quando voltou a fazer shows com a longa turnê de Push The Sky Away (2013), achei que o momento chegaria. Bom, demoraria mais 5 anos até ele voltar a São Paulo, cidade que ele não visitava há 25 anos. O show no Espaço das Américas de 14 de outubro de 2018, realização da Popload Gig, foi anunciado em 13 de abril, data do meu aniversário. O show de NICK CAVE AND THE BAD SEEDS foi o presente de 30 anos que dei a mim mesmo.

Introduziu o show com as climáticas “Jesus Alone” e “Magneto”, aproveitando a aura de ambas para se conectar com a plateia. Ele fica bem de frente com o público, se inclina para a frente e automaticamente as mãos da plateia se erguem. Algumas querem tocá-lo, outras irão sustentá-lo. Só mesmo vendo o show, e estando perto do palco, para ver como as fotos dessa nova turnê – quase todas com a mão do público na direção dele – não é mero acaso. Mais do que qualquer outro show que já tenha visto, Cave busca realmente o olho no olho com seu público.

Assim que entrou no palco, reparei em como são brilhantes os olhos de Nick Cave. Por mais fotos, vídeos e filmes que já tenha visto com o australiano, nunca tinha reparado na luz de seus olhos azuis. Isso automaticamente levou minha memória para a capa de seu primeiro LP, From Her To Eternity (1984). 

A terceira música foi “Higgs Boson Blues”, recebida com clamor pelo público de São Paulo. Uma música intensa e de dinâmica perfeita para um transe. Ao final dela, o cantor já estava derretendo em suor. Fiquei pensando como ele conseguiria levar a cabo o show inteiro, mas acho que ele saiu do palco mais vivo do que eu lá da plateia.

O método de dominação é arriscado. Ele se inclina para o público e segura na mão de alguém enquanto canta com a outra. Todo mundo o toca e sustenta seu tronco. Ele chega a ficar bem acima de você, olhando nos seus olhos. Em uma dessas vezes, ele olhou diretamente para mim e perguntou se eu conseguia ouvir seu batimento cardíaco (“Can you hear my heartbeat?”) como diz “Higgs Boson Blues”. E fez a gente completar o verso com “Pum Pum Pum”. Cantei junto, mas sincronizei o meu “Pum Pum Pum” dando leves tapinhas em seu peito nu, com três botões da camisa abertos. Ele apertou os olhos e riu espontaneamente, quebrando a seriedade hipnótica do momento. Mais tarde, durante a mesma música, olhando bem sério para mim, disse: “Hannah Montana”. Era parte da letra, mas foi engraçado. A tensão do momento, que ele sabe criar tão bem com sua expressão corporal, não combinava com o nome da estrela teen.

MCT Agentur GmbH/Pressefoto

Enquanto Nick ia de um lado para o outro criando laços íntimos com o público, os Bad Seeds seguiam tocando sempre com perfeição. As dinâmicas eram extremamente precisas. Sabiam exatamente como acompanhar o mestre e agiam sempre de acordo com a música. Para eles, qualquer coisa que Cave fizesse era recebido sem assombro nenhum. Mas é claro que era possível vê-los entregues aos sentimentos evocados pelas músicas em diversos momentos. Warren Ellis, principalmente, era o mais livre deles para agir como um punk ao lado de Nick, mas nunca abandonava seu posto.

Cave queria ouvir o público. Deu atenção quando pediram que tocasse “Foi Na Cruz” (“Não sabemos tocar essa. Cantem vocês!”). Quando o público gritou “Nick!”, só pra se fazer notar mesmo, ele respondeu com “What?” e procurou quem parecia querer dizer algo. Em seguida, apontou para uma garota loira e baixinha e a chamou para perto da grade. Olhou bem pra ela, como se fosse dizer algo sobre ela, e mandou: “Let me tell you ‘bout a girl”, puxando uma versão longa e matadora da tensa “From Her To Eternity”.

A sequência de canções “Higgs Boson Blues”, “Do You Love Me”, “From Her To Eternity”, “Loverman” e “Red Right Hand” fez todo mundo delirar e ficar bem cansado. Era muita intensidade, uma atrás da outra. A performance furiosa de Cave faz com que a plateia reaja com a mesma força. Quando chegou a hora de “The Ship Song”, “Into My Arms” e “Shoot Me Down”, todos, público e banda, puderam enfim descansar e colocar os batimentos cardíacos no lugar.

Em “The Weeping Song”, o cantor foi para o meio do público, sem seguranças e sem nada, confiando apenas em sua conexão com a galera. O público puxou um coro de #EleNão e Nick deixou seguir. Ofereceu o microfone a uma garota e ela reforçou o protesto de #EleNão. Daí, foi Cave quem disse “Ele Não”, dando força ao movimento no show. Antes de cantar a clássica “Into My Arms”, disse que a canção seria “uma oração para o Brasil”. Embora não tenha se referido a situação política verbalmente, dá para entender o que ele quis dizer.

Nick recebeu uma cópia em inglês d’O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Ele gostou, mas avisou que já tinha lido. Camisetas, CDs de bandas independentes, buquê de flores, uma edição de Frankstein foram outros mimos entregues a ele ao longo da apresentação. Aliás, tudo que ele ganhou foi arremessado ao fundo do palco. Seus microfones com frequência iam ao chão também. Quando ele se entrega à energia e selvageria das músicas, ele faz pra valer.

De tudo que veio do público, um momento foi marcante. O cantor assinou um vinil de Tender Prey (1988) durante a parte lenta de “Jubilee Street”. Com calma e graça, ele continuou cantando e se esticou todo para poder fazer essa gentileza que, merecidamente, recebeu aplausos. Ainda bem que o vinil chegou a ele no início da canção, pois a parte final dessa música é heavy metal puro. Nick Cave e os Bad Seeds realmente entram em erupção!

“Stagger Lee” teve a participação do público em cima do palco. Foi uma loucura, um empurra-empurra. Um marmanjo abraçou o australiano e quase não o soltou mais. Outro rapaz acabou passando a Cave a toalha que ele usou ao longo da noite para enxugar o suor. Nick a devolveu ao rapaz e ele prontamente beijou o tecido molhado.

A pesada “Jack The Ripper” foi o presente para o Brasil. O resto do setlist foi igual aos outros shows que a banda fez na América do Sul, mas “Jack” foi só de SP, pois foi composta ao piano, quando Nick morou no bairro Vila Madalena.

“Some people say it is just rock and roll. But it get you right down to your soul”. Os versos da música “Push The Sky Away” são reais. Mas é preciso ver o que Nick Cave e os Bad Seeds são capazes de fazer para ter a noção exata. Já fui a muitos shows em minha vida. Muitos deles eram de rock e de metal, mas nunca tinha visto uma apresentação de uma única banda que tivesse me feito ficar tão sem fôlego, melequento de suor e com dores no ombro (de tanto levantar as mãos) como nesse. Numa época em que muitos roqueiros novos não mostram nem metade da empolgação e do gás que Cave, aos 61, mostrou no palco, é importante valorizar quem ainda carrega o DNA mais puro do que uma banda de rock deve ser e fazer você sentir quando sobe ao palco.

Foi inesquecível. O show mais intenso em que já estive.

O último livro de Nick Cave, The Sick Bag Song, foi lançado na semana do show. Já li e escrevi sobre ele também.

Authority: do otimismo à corrupção dos heróis

THE AUTHORITY foi criado pelos britânicos Warren Ellis [Transmetropolitan, Trees] e Bryan Hitch [Stormwatch, JLA], mas quem leva a história até sua forma final são os escoceses Mark Millar [Kick-Ass, Kingsman] e Frank Quietly [We3All-Star Superman]. Trata-se de um supergrupo que anteriormente foi conhecido como Stormwatch e esteve sob comando da ONU. Reformado para uma nova era, agora sob o nome de Authority, o grupo age desde o princípio da HQ sem levar em conta a ONU, apenas usando-a para sua conveniência diplomática.

É um grupo de seis super-humanos cheios de habilidades especiais. Temos a elétrica Jenny Sparks, que é o espírito do século. Um xamã chamado Doutor, que possui magia que até ele mesmo desconhece a abrangência. Jack Hawksmoor. que estabelece uma íntima ligação com todas as cidades e construções urbanas. Swift, uma budista tibetana que possui asas e garras nos pés. A Engenheira, uma mulher dotada de uma mente brilhante e com 5 liros de nanomáquinas no lugar do sangue, fazendo dela a biomáquina definitiva. Os mais interessantes, no entanto, são Apolo e Meia-Noite. Apolo é o Superman: fortão, destemido e abastecido pela luz solar. Veloz, musculoso e capaz de dizimar um exército sozinho. Meia-Noite é o Batman: bom com artes marciais, furtivo e letal, sem poderes sobrenaturais. Apolo e Meia Noite são um casal.

Antes de ler Authority, talvez você tenha lido ou ouvido em algum lugar que trata-se de uma história em quadrinhos que não trata os super-heróis como estamos habituados a vê-los. É claro que após Watchmen, até mesmo as linhas mais mainstream da DC e da Marvel tiveram que mudar algumas coisas em suas histórias para que seus universos povoados por super-seres soasse mais tangíveis, mas nada que desconstruísse a figura do herói sobre-humano em nosso imaginário. Ao ler os três primeiros arcos de Authority, conduzidos pelos criadores Ellis e Hitch, fica a impressão de que trata-se apenas de uma HQ com heróis poderosíssimos que enfrentam seres de outras dimensões, terroristas gananciosos e até a força criadora e alienígena de Deus. O otimismo é tão grande (assim como a diversão em ler) que não deixa entrever como o Authority pode ser uma crítica ao modelo padrão de super-herói – e à política global.

É aí que entra Mark Millar. A partir do momento em que o escocês assume o roteiro, as coisas começam a ficar mais sombrias. Gradualmente vai aparecendo mais palavrões, o grupo passa a se importar ainda menos com a ONU e os super-humanos do grupo viram ícones da cultura pop e celebridades. Hawksmoor vai a programas de televisão defender as atitudes do grupo, os dois brutamontes Apolo e Meia Noite viram um reconhecido casal gay, o Doutor acaba viciado em drogas, a imagem deles aparece em outdoors e revistas, e por aí vai. E se antes eles protegiam a Terra de inimigos cósmicos e invasores interplanetários e interdimensionais, começam a se meter em situações terrenas, como um conflito no sudeste da Ásia. É quando as barreiras dos superpoderosos começam a ficar borradas. Até onde eles podem intervir? Quem permite que eles continuem a agir dessa forma e por que permitir? E quem pode pará-los – e por quê pará-los?

Até o final da HQ, que foi publicada na íntegra no Brasil pela Panini em 4 edições encadernadas, fica claro como seres bem intencionados e superpoderosos podem ser corrompidos e virar marionetes nas mãos de governos e de quem tem a grana que determina qual situação deve sofrer uma intervenção e em qual é melhor fazer vista grossa.

Se a introdução de Ellis não fosse tão otimista, para representar o ideal do Authority, toda a continuação de Millar talvez não representasse a mudança tão bem, mudança essa que começa com um fato que decapita a liderança do grupo e conduz à corrupção.

Se Watchmen lidava com um mundo polarizado e tentava construir sua trama em um mundo que poderia existir – com Nixon ainda na presidência, vitorioso da Guerra do Vietnã – e tratava seus personagens como párias do mundo que eles próprios ajudaram a moldar, Authority abraça uma fantasia maior e perde muito menos tempo com o contexto do planeta e com o peso psicológico de seus personagens. Ainda assim, consegue fazer sua crítica ao papel do G7 e de instituições mundiais que pretendem pairar acima dos interesses de países e grupos específicos, mas que, na verdade, são grupos recheados de interesses particulares e políticas que envolvem o que é melhor para seus membros.

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Outro dado interessante: diferente do herói que faz de Gotham o seu quintal, do herói que raramente combate os males fora de Metrópoles ou do defensor do bairro Queens, o Authority é realmente global: suas aventuras passam pela Rússia, Los Angeles, Londres, Paris, Tóquio, Polo Norte, Cidade do México, etc. Infelizmente, com exceção de um pedaço de terra na África, o hemisfério sul não é contemplado (vai ver temos problemas demais por aqui para que possamos nos ocupar com ameaças sobrenaturais ou vindas da sangria do tempo-espaço) nas páginas das 29 edições. A equipe é global, mas global até certo ponto de interesse.

Apesar de rodarem o mundo e não apenas os EUA, como é mais comum até mesmo para HQs criadas por britânicos, a voz das ruas ou das populações ou do homem comum não está em lugar nenhum dentre as 29 edições. O enfoque é dado apenas em supervilões, supermocinhos e superanti-heróis. O povo que é atacado ou protegido ou manipulado nessas páginas fica em quarto plano.

Authority também é uma mescla de fantasia super-heróica com ficção científica. Principalmente nos arcos escritos por Warren Ellis, há diversos diálogos que funcionam para dar peso ao lado sci-fi, explicando como certas geringonças ou conceitos usados funcionam. Embora fique claro que o autor se preocupou em fazer um universo crível, em que coisas existem com alguma base científica [ainda que especulativa], vários diálogos acabam ficando um pouco burocráticos e frios. Ellis faz isso no começo mais otimista da HQ e quando Mark Millar assume o roteiro há muito menos linhas para explicar como as coisas funcionam. Os diálogos ficam mais fluidos, com detalhes que aos poucos constroem ou mantêm viva a personalidade dos personagens.

Authority, como uma forma de continuação de Stormwatch (série toda escrita por Ellis e desenhada por Hitch), teve mais 3 volumes ou grandes arcos narrativos, contando com Brian Azzarelo, Ed Brubaker e Grant Morrison nos roteiros. Mark Millar ganhou o prêmio Eisner de Melhor Roteiro por Authority em 2001.

The Authority Meia-Noite